palavras na barriga

Verbalizo as emoções que me provoca o mundo!

Daniela Monteiro Torres

Apaixonada por viagens, acredita que:
"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa

Indie Rock - cada vez menos alternativo

O indie de hoje já não é o de ontem. Sonoridades parecidas, mas diferentes motivações, diferentes públicos numa indústria discográfica massificada.
O realmente alternativo deixa saudades, mas há sempre alguém que nos alimenta o ouvido e aquece a alma.


IMG_6452.JPG

Há mais ou menos 5 ou 6 anos, através de uns amigos que chegaram de uma longa viagem pelo Brasil, conheci Barbara Eugénia. Entraram em casa no final de um inverno, e entre carinhosos abraços, copos de vinho tinto, gargalhadas e íntimas conversas, puseram a música a tocar uma e outra vez. Era ela, Barbara Eugénia acabadinha de chegar à Europa e também a minha casa. Que maravilha! Há muitos anos que não ouvia uma voz tão límpida, tão direta mas sublime, cheia de garra e com uma sonoridade capaz de arrepiar dos pés à cabeça. Ouvi vezes sem conta até saber de memória todas as letras, dancei àquele ritmo que me transportou para os psicadélicos setenta, como se o tempo não tivesse passado. Os entendidos que gostam de pôr rótulos nas coisas, chamam-lhe indie rock, eu chamo-lhe música com alma. Uma brasileira alternativa, com uma figura carismática, e um olhar cheio de vida num rosto doce.

O indie rock ou rock independente, como dizemos em português, surgiu no Reino Unido e nos Estados Unidos na década de 80. Tem como inspiração géneros musicais como o pós-punk e o new wave, e inicialmente caracterizava-se por usar meios de produção e distribuição de música underground independente, fugindo às grandes gravadoras internacionais.

Os artistas deste estilo musical, eram conhecidos por controlarem a 100% a sua carreira e também a sua música, não se deixando corromper pelo mundo pop e movendo-se à margem da indústria. Há 20 anos, o indie rock era não só um estilo musical, mas também uma atitude.

No entanto, hoje em dia, é cada vez mais difícil manter-se fiel a estas bases iniciais, e grandes bandas, como os The Back keys, The killers ou Artick Monkeys, apesar de fazerem música que é considerada indie rock; são estrelas internacionais, completamente vendidos à globalização e ao populismo.

Acredito que prevalece a inquietude por fazer coisas diferentes, por inovar e ser original num mundo onde já tudo está inventado. Mas existe uma grande diferença entre aqueles anos 90, onde a guitarra dos Sonic Youth nos fascinava ou vibrávamos sempre que tocava Pixies na rádio.

As aspirações destas bandas eram mais modestas e estavam de acordo com o contexto musical da altura. A partir do momento que a indústria discográfica muda para um contexto mais comercial e massificado, é normal que a atitude mude e a definição da palavra indie também.

Esta é uma segunda geração e ainda que se inspirem na década de 90, e os sons que produzem nos façam estremecer por dentro; a atitude não é a mesma, logo a essência também não. Penso que assim como qualquer outro tema cultural, o indie sofreu uma evolução normal; adaptando-se ao público, às tecnologias, ao dinheiro e à facilidade atual de fazer chegar a música aos quatro cantos do mundo.

Quando há 5 anos atrás ouvi Barbara Eugénia, revi novamente uma música cheia de carisma, muito parecido ao que se encontrava ao principio dos anos 90. Ela nunca será um “The Black Keys”, mas talvez por isso, e por vir de um Brasil tao cheio de Samba e Bossa Nova, com influencias tao díspares e melódicas, é que se destacou ao meu ouvido.


Daniela Monteiro Torres

Apaixonada por viagens, acredita que: "O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// @obvious, @obvioushp //Daniela Monteiro Torres