palavras na barriga

Verbalizo as emoções que me provoca o mundo!

Daniela Monteiro Torres

Apaixonada por viagens, acredita que:
"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa

O túnel da felicidade

Numa sociedade controlada, surgem movimentos descontrolados.
A Berlim do séc.XXI que nos leva pelo túnel da felicidade até aos anos 60.


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Ontem à noite a ver um documentário sobre São Francisco nos anos 60, a geração beat, hippies e afins, dei-me conta que tudo o que eles defendiam fracassou. Que tristeza devem sentir as pessoas que acreditavam na igualdade, no pensamento ecológico, no amor ao próximo; pessoas que defendiam um mundo sem guerra, e que agora quando ligam a TV devem regurgitar as suas almas.

Era nessa geração que estavam depositadas todas as esperanças de uma sociedade mais justa, uma geração de criativos com as emoções à flor da pele e culturalmente superiores, sedentos de literatura, musica e arte. Verdadeiros filantropos, que com generosidade tentaram mostrar aos restantes, a verdadeira essência da vida.

Uma geração que consumia drogas para libertar a mente, estimular a criatividade e explorar os sentidos, perdeu-se no túnel da felicidade. Lamentavelmente o que têm de bom as drogas, têm proporcionalmente de mau. Atordoados pela efémera sensação de liberdade, acabaram por ser engolidos pelo gigante capitalismo e desnortearam-se no caminho para o sucesso. Inverteram-se os valores e numas dezenas de anos transformou-se a sociedade em algo absolutamente questionável e hipócrita.

Eu mesma, produto, felizmente em mutação constante, desta sociedade; interrogo-me constantemente qual o melhor caminho a seguir, para que continuando dentro do jogo, consiga dormir com a minha consciência tranquila e os meus valores inalterados.

Há uns tempos quando estive em Berlim constatei mais uma vez os artifícios usados para manter o controlo. Numa sociedade comedida e cheia de regras, onde todos têm que ser cumpridores e tudo tem que funcionar, porque eles são o exemplo a seguir na Europa, existe uma subcultura desenfreada pela capital a fora.

Surpreendeu-me as infinitas possibilidades da noite berlinense, os melhores clubes da Europa, os bares mais alternativos e uma degradação escondida no dia-a-dia das ruas alemãs.

Eles ditam as leis, mas não as cumprem; publicidade a tabaco nas ruas e bares de fumadores porta sim, porta não. Resistentes do movimento punk em muitas estações de metro, com “litrosas” cheias de cerveja as 9 AM, este povo bebe demasiada cerveja; se é que a cerveja pode ser demasiada… ;)

Enfim, mesmo considerando-me uma pessoa com a mente bastante aberta, com uma especial atração pelo mundo underground, penso que devemos ser objetivos; porque na realidade, se me deixo de adorações a movimentos estéticos alternativos, e vejo as coisas de um ponto sociológico e analítico, percebo que a Alemanha está a fazer o mesmo que fizeram os estadunidenses nos anos 60.

Porque é que numa sociedade tão controlada existem clubes que abrem às 19h de uma sexta-feira e só fecham na segunda-feira a tarde? Porquê que se permite o consumo desenfreado de álcool e drogas e se criam guetos culturais de música e outras artes?

Faz-me pensar que se quer controlar as mentes filosóficas e criativas, que são as mais curiosas, que são as que procuram respostas e tendem a identificar-se com subculturas alternativas. Para que estas mentes com evidente potencial pensador e ativo na sociedade, estejam dominadas, é-lhes permitido extravasar dentro dos limites impostos.

Para quem vai de fora, parece que é uma subcultura iluminada, aceite na castradora sociedade alemã. Para quem está lá dentro talvez seja novamente o túnel da felicidade; um túnel que não vai dar a lado nenhum.


Daniela Monteiro Torres

Apaixonada por viagens, acredita que: "O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa.
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