palavras na barriga

Verbalizo as emoções que me provoca o mundo!

Daniela Monteiro Torres

Apaixonada por viagens, acredita que:
"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa

Fashion Victim? Não obrigada!

Jovens que reprimem quem são de verdade para não fugir à moda!
Até que ponto o "moderno" não é inimigo do futuro?


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Outro dia, numa festa na noite de Barcelona, dei-me conta como a noção de moda mudou na cabeça das pessoas e assumiu uma forma alienante e formatada. Estava na inauguração de um novo espaço, onde a maior parte das pessoas tinha menos de 20/25 anos e onde todas estavam incompreensivelmente vestidas de igual.

Sempre achei que o conceito de “fashion victim” era um pouco exagerado, no sentido em que cada um é livre de vestir o que lhe apetece e gastar o seu dinheiro no que melhor lhe parecer. Mas será que não há um limite?

Como diz uma amiga, quando eramos adolescentes o que vestíamos refletia a nossa personalidade, mas o que se veste agora reflete o que está nas montras das lojas. Quando se perde a capacidade de identificar o limite, geralmente conhecido como estilo, em prol da aceitação social; então o conceito de moda perde o sentido.

Hoje em dia, as etiquetas usam-se fora e os nomes das marcas estão estampados nas roupas, para que seja visível e o mais identificável possível; com a ilusão de que essa exposição pode trazer admiração e finalmente a integração que todos procuram.

Vivemos numa época em que a embalagem é mais importante do que o conteúdo; o culto da imagem e do corpo é manipulado pela indústria da moda, que massifica padrões estéticos menosprezando a relevância da personalidade de cada um.

Lembro-me que quando era adolescente, nos anos 90, vestia-me como uma hippie dos anos 70. Nessa altura todos nos vestíamos de acordo com o que nos ia na alma, com a estética com a qual nos identificávamos e com os valores que defendíamos. Vestíamo-nos de acordo com a nossa personalidade; fossemos nós hippies, punks, betinhos, surfistas ou góticos. A maioria dos adolescentes dos anos 90 não se regia por tendências impostas pela indústria da moda; essa realidade só nos foi impingida anos mais tarde. Não havia um padrão e os adolescentes não se vestiam todos iguais, ou todos com a mesma marca ou com o mesmo penteado. É verdade que o acesso à informação era mais reduzido que nos dias que correm, mas acredito que mesmo que inseridos num grupo, os adolescentes tentavam encontrar o seu próprio registro para assumir uma atitude afirmativa e defender a sua individualidade.

Ainda que aparentemente as sociedades se tenham globalizado, estejam mais abertas e tolerantes, vejo na verdade que cada vez mais há uma limitação estética, que possivelmente encerra uma situação muito mais grave; a falta de identidade pessoal, uma espécie de disfarce emocional e uma flagrante falha de autoestima.

Hábitos de consumo, preferências pessoais, escolhas estéticas e formas de expressão são componentes de uma narrativa que criamos a respeito da nossa identidade, para conseguir construir a ideia de particularidade de cada individuo.

Se todos nos deixamos formatar pela norma e seguimos o modelo que nos vende a moda, não só estamos a comprometer a nossa singularidade, como estamos também a pôr em risco a evolução de uma sociedade equilibrada e justa.

Há obviamente fatores sociais que influenciam a forma como nos apresentamos, as nossas preferências e escolhas; é evidente que o nosso “estilo” está intrinsecamente ligado ao nosso contexto social. Também o ambiente familiar influencia a nossa forma de estar e os hábitos que teremos durante a nossa vida de adultos. No entanto, a identidade é algo que se constrói ao longo da vida, somos muitos dentro de um só e em constante mutação; ainda que as bases se mantenham, a estética exterior muda e adapta-se a novas realidades; sempre em busca de uma individualização.

Ainda que nos inspiremos nas tendências atuais, não nos devemos restringir ao que dita a moda mas sim moldá-la ao nosso ser, conservando o bom senso e a autocritica, mas salientando todas as características que fazem de nós únicos, sejam elas mais ou menos excêntricas.

Afinal, a excentricidade é o que caracteriza quem faz a moda!


Daniela Monteiro Torres

Apaixonada por viagens, acredita que: "O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa.
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