palavras na barriga

Verbalizo as emoções que me provoca o mundo!

Daniela Monteiro Torres

Apaixonada por viagens, acredita que:
"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa

Depois dos 30

Um desabafo sobre uma década que passa mais rápido do que as primeiras duas.
Desnudados pela idade adulta quando ainda queremos viver loucamente ao sabor do vento.


Com a idade vem uma consciencialização de diversos temas que até à data nunca nos tinham passado pela cabeça. Temas mundanos, do quotidiano dos adultos e que a nós jovens, sinceramente, sempre nos pareceram pouco relevantes.

Mas um dia acordamos e já não somos assim tao jovens; um dia percebemos que estamos já mais perto dos 40 que dos 30; que os cabelos brancos começam a aparecer e as ressacas duram 2 dias. Já não aguentamos 3 dias de festival e preferimos ver um bom filme no sofá do que sair para beber copos por aí.

Estamos velhos? Não!

Apenas chegou aquela idade que não é carne nem é peixe, não nos queremos sentir 100% adultos, mas estamos longe de ser miúdos. Durante meses ou anos, tentamos fingir que nada mudou e que o que sentimos ou deixámos de sentir não afeta a pessoa que nos estamos a tornar. Até ao momento em que a sociedade nos bate à porta. Quando percebemos que toda a gente seguiu pelo mesmo caminho, mas nós ainda estamos no cruzamento a decidir que rumo seguir.

Se temos uma relação longa, perguntam-nos quando casamos. Se estamos casados, perguntam-nos quando teremos filhos. Como se a vida não pudesse ser diferente do convencional a que todos estamos habituados. Como se não existisse vida sozinho ou vida sem filhos.

Quando conhecemos alguém socialmente, uma das primeiras perguntas é sempre o que fazemos, em que trabalhamos. Como se o trabalho fosse um indicador do tipo de pessoa que somos. Onde vivemos; para nos localizarem geograficamente num determinado bairro e consequentemente status social e definir o nosso estilo de vida.

Ainda não consegui perceber, porque nunca perguntam o que gostamos de fazer nos tempos livres, que música ouvimos, qual a nossa cor preferida, que países visitamos ou que livros gostamos de ler. Isso sim, define a pessoa que somos.

Demasiado presos a rótulos e a definições hipócritas, deixamo-nos contagiar por esta inercia de aceitar que nos distingam por aquilo que mostramos no nosso dia-a-dia.

Demasiado frustrados para partilhar o que levamos dentro, não dizemos muitas vezes a verdade e sim apenas o que esperam ouvir de nós. Como se ter, fosse mais bonito que ser; como se depois dos 30, o facto de não ter uma determinada estabilidade, fosse uma vergonha.

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Quando passamos os 30 entramos na década decisiva, naquela cujo final é a chegada ao inicio da metade da nossa vida. Parece complicado, mas se simplificarmos o calendário, vemos que afinal já vivemos muito. Já fizemos muitas coisas e já temos muitas histórias para contar.

Mas isso dá-nos uma noção da realidade ainda mais transparente e lúcida, faz-nos ver que afinal já passaram mais de 30 anos e queremos viver ainda muito mais e fazer muitas mais coisas.

Percebemos que por mais aventuras que tenhamos vivido, são poucas e cada vez mais parece que a rotina, as circunstâncias e as nossas decisões nos impedem de continuar a viver aquele ritmo frenético e alucinante dos 20 anos.

Agora que talvez tenhamos alguma estabilidade financeira, que ainda não temos filhos, que estamos emocionalmente mais tranquilos, menos curiosos; pois agora inacreditavelmente a vida passa mais rápido e o tempo não chega para tudo o que gostaríamos de fazer, todos esses lugares para ver...

Acredito que as experiências são mais importantes do que os bens, que quando estamos para morrer nos recordamos das gargalhadas, dos abraços, das conversas e de todos esses momentos únicos que nos fizeram felizes ao longo da nossa vida. Ela passa demasiado rápido. E esta frase é realmente verdadeira.


Daniela Monteiro Torres

Apaixonada por viagens, acredita que: "O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa.
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