Ilma Pessoa

Navego em ideias e tormentas, que atravessam uma mulher e seu tempo.

Pegue um táxi na esquina - Um conto libertário

Finalmente percebeu que, na esquina dos 70 anos, trocar o hoje pelo amanhã é dar-se ao luxo do porvir.


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Ela saltou bem no coração da cidade. A avenida principal fervilhava, sob a escaldante umidade e o sol guloso do início da tarde. Parou por um instante e respirou aliviada. Festejava ter escapado do inferno pior, que era trafegar de casa até ali, dentro de um ônibus entupido, com passageiros completamente entregues à letargia, sucumbidos ao calor e à rotina entediante.

Tinha uma percepção muito peculiar sobre esses percursos nos coletivos sufocantes e sujos, com suas barras ensebadas do suor de mãos indigentes, preenchidos por corpos contidos e olhos fixados no vazio da janela.

Sob o ritmo dos intermitentes solavancos, que marcavam a parada nos pontos e a retomada da viagem, sua convicção era de que o mundo só corria lá fora, a carroceria se movia contraditoriamente em inércia. Seu interior era hiato de existência, onde quase não se respirava e os sentidos entorpeciam.

Minutos depois, quando finalmente desembarcou já não pensava mais no sofrimento de há pouco. As cores dos guarda-sóis, as barracas exibindo toda sorte de mercadorias baratas, de origem chinesa; os inúmeros ambulantes, ocupando os canteiros e estreitando os acessos, todos alvoroçados em apregoar suas ofertas; o baile montado pelos transeuntes, que cruzavam seu olhar em várias direções ou caminhavam em paralelo, como a disputar uma corrida, formavam um caleidoscópio urbano, que chamava sua atenção e voltava a animá-la.

Acelerou o passo na medida em que a idade lhe permitia. Pensou quantas vezes percorreu aquele mesmo caminho, com os filhos ainda menores a tiracolo, buscando pechinchas nas ruas e nas lojas do comércio popular, para vesti-los ou supri-los de um desejo infantil, como uma boneca de plástico com olhos borrados ou uma miniatura de carro que disparava por fricção, paixão do menino mais velho.

Fazia malabarismos para economizar o dinheiro que o marido lhe dava para as despesas. Poupar significava usufruir pequenos luxos, como um corte de tecido para o vestido do batizado da caçula, ou folhas de papel crepom branco, para substituir as flores do arranjo que ornamentava a sala, quebrando a frieza do cimento vermelho do chão da casa.

Para si nenhuma vaidade. Os vestidos velhos, parcos e nada atraentes escondiam seu corpo ainda jovem com o manto do envelhecimento. As unhas cortadas rente à pele serviam bem ao ofício de cuidar da casa e das crianças, sem riscos de arranhões ou acúmulo de sujeira. Somente o rosto emanava uma beleza clássica, com suas linhas suaves, nariz afilado, lábios finos e insinuantes. Os olhos castanhos levemente puxados eram seu maior encanto, embora sempre voltados para baixo, não apresentando ameaça e prevenindo-a de qualquer encontro tentador.

Até meses atrás, não havia conhecido outro destino para uma mulher que não o de ser mãe e do lar. Não que se recusasse a papéis alternativos, simplesmente ignorava a possibilidade de percorrer outro caminho. Era conformada com a vida e agradecida por ter nascido em um bairro pobre e tido a sorte de ser alçada da miséria para debaixo de seu teto por um homem mais velho, a fim de cuidar dos frutos de um casamento anterior. Com ele também teve seus filhos, que lhe garantiram a perpetuação daquela que acreditava ser sua sina.

As limitações não eram só financeiras, se estendiam à vida sexual do casal. Como seu primeiro patrão foi também o único parceiro até sua morte, não suspeitava a possibilidade do coito múltiplo, a satisfação e a plenitude que um homem pode proporcionar a uma mulher. Esperava meses para fazer sexo com o marido, a quem prestava obediência incontinente. O período de seca era acentuado após os resguardos. Quando porventura acontecia um encontro, o gozo era tão precoce e breve, que para ela o orgasmo era sempre um vazio, a expectativa de um preenchimento nunca satisfeita.

Mas já não queria recordar o passado. Por muito tempo lhe serviu de conforto, uma sensação de dever cumprido como bem cabe a uma “mulher honesta”, titulo que costumava ostentar quando alguém lhe denunciava as aventuras boêmias do marido, figura fácil nas casas de prostituição da época, instigando-a a infidelidade. Mesmo depois que ele morreu, preferiu cultivar na horta da viuvez a imagem de um companheiro leal, dedicado e carinhoso.

Por muito tempo após sua morte, lamentou a perda do prazer que nunca teve e chorou ao lembrar as tímidas festas de aniversário das crianças, à base de bolo e refresco de anilina, como se fossem grandes conquistas, somente possíveis “graças a sua heroica capacidade de administrar os parcos recursos domésticos”, elogiava a vizinhança.

No centro da capital, a tarde avançava, enquanto buscava ansiosamente, entre tantos letreiros desgastados, que ornamentavam o superior das marquises dos prédios, o nome do estabelecimento indicado na receita médica. Teria que ser rápida, não havia mais tempo a esperar.

O destino fora novamente benevolente, dando-lhe a oportunidade de conhecer tardia, mas intensamente, os prazeres da cama. Acabara de conquistar o ilhéu, sujeito de hábitos simples e desprovido de cultura, porém alguns anos mais novo, que atingido por um câncer de próstata e um AVC, buscava recuperar a saúde e a alegria de viver. Juntos descobriram finalmente que tanto para um homem quanto para uma mulher, a vida começa e acaba num pênis ereto. Ele, por havê-lo perdido, ela por jamais tê-lo provado.

Com o ilhéu também experimentou o frisson de uma língua ao tocar regos, becos e protuberâncias do corpo feminino; o regozijo do beijo roubado em público e dos elogios rasgados e confessos a terceiros sobre sua beleza madura. Já não sabia se o suor que escorria pelo colo, àquela altura, era consequência da temperatura, que agora se agravara, ou sintoma dos pensamentos libidinosos.

Tampouco o arrebatamento momentâneo a dominava completamente. Estava concentrada na busca do endereço anotado pelo médico, que acabava de identificar numa placa sobre a loja do outro lado da rua. Parou em frente à calçada e leu em voz alta: “Vida Longa Material Médico”. Ao menos era um nome promissor, pensou.

Adentrou o negócio a passos firmes e insuspeitos, para uma mulher de terceira idade, que até bem pouco tempo mal sabia usar um caixa eletrônico ou preencher um cheque, sofria de artrite e, sentindo-se sozinha, beirava a depressão.

No balcão, a jovem atendente com os cabelos empastelados de creme de pentear, revelado pelo odor forte e enjoativo, apresentou-se com ares de especialista.

- Boa tarde, senhora! Em que posso ajudar?

- Boa. Preciso dessa receita.

A atendente dedicou alguns segundos à leitura do conteúdo, pediu um momento e dirigiu-se ao fundo da loja. Em pouco tempo retornou com uma caixa retangular nas mãos.

- Vai ser débito ou crédito? – perguntou.

Naquele momento, a dúvida que permanecia não era a forma de pagamento. Incomodava o imprevisto arroubo de moralismo que invadiu seus pensamentos. Pagar com o dinheiro da pequena fortuna que o marido havia economizado, para uma eventual necessidade em caso de hospitalização prolongada, no final de vida, lhe alfinetou a alma. Retrucou a si mesma que tanta precaução de nada valeu, uma vez que um infarto diabético na madrugada, sem provocar dor, tirou a vida dele rapidamente, sem grandes prejuízos ao montante e sem remorsos para a família.

Estaria sendo corrompida pelo apetite derradeiro que consome uma mulher na maturidade, depois que ela descobre o seu tesão? Decididamente não. O destino daquela herança estava selado. Seria a sua libertação.

As incertezas então se dissiparam. Iria fazer justamente o que o ilhéu havia lhe pedido. Finalmente percebeu que, na esquina dos 70 anos, trocar o hoje pelo amanhã é dar-se ao luxo do porvir. Havia decidido viver a senda de existir, apenas isso.

Pagou à vista, pegou a sacola com a embalagem lacrada onde a prótese peniana fora cuidadosamente acomodada e despediu-se da atendente de cabelos molhados. Caminhava em direção ao ponto, quando subitamente lembrou que tinha pressa. Acenou para o primeiro táxi disponível, entrou no carro e seguiu caminho.

A partir daquele momento não andaria mais de ônibus.


Ilma Pessoa

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