Ilma Pessoa

Navego em ideias e tormentas, que atravessam uma mulher e seu tempo.

Quem nos salvará dos nossos heróis, senão nós mesmos?

Birdman X Sniper. De uma forma ou de outra, como disse o super Bob Dylan, “o melhor que você pode fazer por uma pessoa é inspirá-la”, então vá ao cinema, mas trate de se salvar sem precisar matar ou morrer pra isso.


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Assistindo a dois dos principais sucessos de Hollywood da temporada, Birdman e Sniper Americano, você pode se perguntar o que há em comum entre essas bem contadas histórias. À primeira vista, apenas as indicações às principais categorias do Oscar deste ano e o grande sucesso internacional de bilheteria e público. A meu ver, porém, ambas tratam da mesma questão: a legitimidade do heroísmo.

Sem querer comparar mérito ou qualidade das produções, é possível estabelecer um contraponto direto entre os personagens principais de ambas, respectivamente, o veterano de guerra transformado em lenda moderna, Chris Kyle (Bradley Cooper), e o ator de cinema sessentão, Riggan Thomson (Michael Keaton).

Riggan,que no passado fez fama com um único papel, na pele de Birdman,é o cara que abandona precocemente, nos anos 90, a fantasia de homem pássaro e décadas depois, sem a máscara do gibi, tenta inutilmente provar seu talento como ator, num palco da Broadway.

Chris Kyle é protagonista na vida real de uma trajetória gloriosa, como atirador de elite do mais temido grupamento da marinha americana, os Seals. Sniper se baseia na autobiografia escrita pelo texano, cuja personalidade foi forjada pelo pai evangélico, figura conservadora e fiel aos preceitos de família, pátria e fé. Aos 30 anos, inadvertidamente, Kyle troca a carreira medíocre de cowboy pelo sucesso, ao tornar-se uma máquina eficiente de matar “selvagens”, como ele mesmo se referia aos inimigos na guerra do Iraque.

A marca recorde de assassinatos e precisão espetacular dos tiros à distância alçam Kyle à posição de inimigo número um do Iraque e de legenda made in USA, onde é tratado como um grande guerreiro. Ele é uma espécie de Aquiles da era moderna,atuando remotamente. Em vez de coragem, espada e montaria, utiliza-se de um binóculo de alta precisão, um fuzil potente e um leito - que não abandona sequer ao fazer xixi-, para abater qualquer um que ameace o avanço das tropas ianques em território iraquiano.

Enquanto isso, em Nova Iorque e na ficção, a peça de Riggan está prestes a se transformar em mais um fracasso e dilapidar o último patrimônio remanescente da sua era de ouro, quando encarnava o Birdman e planava sobre mares de grana. Para não abandonar a batalha e pagar as dívidas da produção, ele precisa hipotecar a casa em Malibu, sob protestos da ex-mulher, que tenta proteger o que restou, garantindo o futuro da filha drogada.

Ao mesmo tempo, Riggan é ameaçado pela figura de uma preconceituosa crítica de teatro, colunista do The New York Times, que pretende destruir sua peça já na estreia, desconfiada do real valor artístico de alguém que sempre atuou por baixo de asas, bico e uma calça em malha de cetim.

Além da ex-mulher e da crítica, Birdman enfrenta um inimigo ainda mais feroz, que não é jihadista, mas ao seu modo tão fundamentalista quanto. O personagem que o fez brilhar no passado atormenta-o por meio de uma voz interior, que o remete a uma guerra contra si mesmo, ao questionar se Riggan não deveria retomar a fantasia dos quadrinhos em mais uma versão da serie cinematográfica que o consagrou.

Na lógica do “diabinho” que povoa a mente do ator, a volta à telona resgataria a fama e o poder originais de Birdman, ao prover o seus fãs das mesmas e falsas sensações coletivas de superioridade e imortalidade, provocadas coincidentemente também pela figura do Sniper.

Assim Kyle e Riggan carregam seus próprios fantasmas, sejam eles criados pelo estresse pós-traumático de uma guerra real e estéril, ou pelas incertezas que permeiam a trajetória de um ser humano em busca de si próprio e da relevância de sua existência.

Os dois protagonistas ainda têm que conviver com a concorrência desleal da juventude e da motivação. Competindo com Sniper, o franco-atirador sírio Mustafa, a serviço da Al Qaeda, consegue a façanha de abater o alvo a distâncias espetaculares, ganhando fama mesmo sem a ajuda da alta tecnologia à disposição de Kyle.

Já Riggan é obrigado a engolir a presunção do seu principal interlocutor no palco, o ator coadjuvante Mike Shiner (Edward Norton), que não perde a oportunidade de roubar a cena e o lugar de protagonista na peça, com arroubos de excentricidade e improvisos de texto, diante da imprensa e nos ensaios abertos antes da estreia.

Voltando ao elo entre as duas histórias, vê-se que, apesar de aparentemente caminharem em sentidos opostos, com Kyle vestindo a rigor o traje de super herói americano e usufruindo de todas as consequentes regalias, enquanto Riggan luta para despir-se definitivamente das penas impostas pelo homem pássaro, elas acabam por se encontrar na morte como salvação.

Tanto faz se a saída se apresenta em forma de tentativa de suicídio, último e desesperado ato praticado por Riggan, para prover de realismo a cena teatral, ou como vítima fatal de um episódio nebuloso, em que acaba alvejado pela arma de um colega veterano, atormentado pelas lembranças distorcidas da batalha, a quem Kyle ironicamente tentava ajudar.

Os dois protagonistas acabam se cruzando na linha tênue entre a banalidade do episódio de desaparecimento do herói da vida real (?), em Sniper, e a grandiosidade da luta do “anti” Birdman, para atribuir relevância a sua existência, antes do seu voo definitivo. De uma forma ou de outra, como disse o super Bob Dylan, “o melhor que você pode fazer por uma pessoa é inspirá-la”, então vá ao cinema, mas trate de se salvar sem precisar matar ou morrer pra isso.


Ilma Pessoa

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