Ilma Pessoa

Navego em ideias e tormentas, que atravessam uma mulher e seu tempo.

A pegada evolutiva da motivação

O homem irracional, criado por Woody Allen, valorizou os extremos que predominavam na sua maneira de pensar, transformando-os em atitudes que faziam sentido apenas para ele. Não é à toa que durante um dos diálogos no filme ele cita a frase célebre de Sartre: “O inferno são os outros”, como se estivesse finalmente celebrando o encontro consigo mesmo, ou melhor, com o “bom selvagem”.


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Somos uma especie selvagem. O Irrational Man (Homem Irracional), do diretor Woody Allen, conecta a filosofia, a busca pela razão de ser, ao que há de mais insensato no comportamento humano. Na feira moderna de vicissitudes do pensamento aliado a teorias da neurociência, o filme se alimenta do contraditório entre a efemeridade da vida e a indelével caçada humana por motivação para sobreviver.

O roteiro nos apresenta ao filósofo e professor universitário Abe Lucas (Joaquin Phoenix), quando este está prestes a sucumbir, depois de se lançar num despenhadeiro de angústias, em busca do sentido da sua existência.

Ao aterrissar numa universidade americana, para ministrar um curso de verão, Abe, também ele, é um poço de crises. Está bêbado e broxa, a despeito da quantidade de mulheres gostosas que desejam lhe “dar”. Enquanto o desânimo toma conta da sua alma, vocifera para os alunos que filosofia é “masturbação verborrágica”.

Para Abe, de nada adiantou mergulhar fundo no existencialismo de Kant e Sartre, para depois cair na real e vivenciar o fracasso do seu casamento e a perda do melhor amigo - explodido por uma bomba na guerra do Iraque -, entre outras tantas tragédias pessoais.

Filosofia àquela altura virou bobagem para o mal afamado professor. E é, em pleno ocaso, que o acaso lhe traz uma esperança. Sentado numa lanchonete, ele se redescobre predador, ao lado da talentosa Jill (Emma Store), mais uma de suas alunas típicas mainstream, embriagada pela ideia de se apaixonar pelo professor culto e romanticamente decadente.

Ironicamente, não é a bela mulher a sua frente que lhe provoca. O interesse surge da conversa na mesa ao lado. Ali amigos tentam consolar uma mãe, vítima da crueldade de um juiz da vara de família local que, para favorecer o amigo e advogado do ex-marido, pretende tirar dela a guarda dos filhos.

Ouvindo o relato, Abe decide eliminar o juiz. Metaforicamente, é arrebatado pelo desejo de mitigar valores que, simbolicamente, moldam as atitudes de um ser racional nele ainda inexistente.

A justificativa moral para o assassinato, segundo Abe, está em fazer o bem a uma mãe injustiçada e libertar o mundo de um magistrado sem integridade. Em nome dela, ele calcula e impiedosamente elimina sua presa, envenenando o suco da vítima, no banco do parque, em plena manhã de um sábado ensolarado.

Antes mesmo de levar a cabo seu plano de matar, o professor retoma a alegria, já na expectativa de realizar finalmente algo pelo qual valerá a pena permanecer vivo. Ele supera a impotência e enlouquece na cama a colega Rita (Parker Posey), uma professora universitária ansiosa por um motivo torpe, para dar fim ao próprio e tedioso casamento. Abe também substitui o álcool por refeições fartas e nutritivas, além de ceder à tentação, passando a se relacionar com a jovem e irresistível aluna Jill.

Aqui o roteiro de Woody Allen cruza a linha da neurociência, segundo a qual nada é mais irracional que o comportamento humano. O homem racional não existe, uma vez que são nossas emoções que definem como decidir bem, tomando aqui por “boa” a escolha que melhor se adapta a nossa realidade e a nossa história, propõe a pesquisadora Suzana Hercolano-Houzel.

Segundo a neurocientista, se fôssemos seres racionais e pensássemos somente nos prós e contras de cada escolha, diante da fatalidade da morte, a vida não faria qualquer sentido. Estaríamos paralisados. Desejar algo e ter motivação para realizá-lo antecipam a expectativa do prazer e geram satisfação.

O homem irracional, criado por Woody Allen, valorizou os extremos que predominavam na sua maneira de pensar, transformando-os em atitudes que faziam sentido apenas para ele. Não é à toa que durante um dos diálogos no filme ele cita a frase célebre de Sartre: “O inferno são os outros”, como se estivesse finalmente celebrando o encontro consigo mesmo, ou melhor, com o “bom selvagem” (J.J.Rousseau, 1755).

À propósito, depois de usufruir da impunidade em grandes doses, fazendo planos para o futuro, como voltar a escrever, dedicar-se às aulas e entregar-se ao amor e à luxúria, Abe se vê ameaçado pela aluna e amante Jill. Ela descobre que é ele o autor do crime e obriga-o a se entregar, frente à expectativa de um inocente ser responsabilizado.

O final do filme? Darei a vocês o prazer de descobrir assistindo, oferecendo um aperitivo: Abe Lucas, que antes brincava de roleta russa, sem se importar com probabilidades, na nova fase não vai abrir mão da sobrevivência, muito menos dos prazeres de uma vida motivada, nem que para isso seja preciso despedaçar a moral todo dia. Mas isso só acontece na ficção.


Ilma Pessoa

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