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Porque literatura e cinema deixam a vida mais bela.

Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 22 anos, habitando fisicamente a ilha de São Luís, MA. Por dentro, meus mundos são vários. Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, meus hobbies incluem bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e necessito de tratamento que combata o vício por filmes e séries coreanas. Acredito piamente que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus. Carpe diem! ;)

A Extraordinária Jane Hawking

“A Teoria de Tudo. Livro que narra a fantástica história do brilhante Gênio Incapacitado, Stephen Hawking.” Muito provavelmente, a frase anterior foi o motivo que o levou a correr para a livraria e garantir o seu exemplar. Quem não quer conhecer a vida íntima de um dos maiores cientistas desde Einstein? Porém, sinto dizer-lhe que essa história não veio para enaltecer o Grande Gênio. Essa história, senhoras e senhores, pertence à mulher que proporcionou vida à Stephen Hawking: a extraordinária Jane.


the telegraph.jpg Créditos da foto: The Telegraph.

“A história de Stephen Hawking é contada pela luz da genialidade e do amor que não vê obstáculos”. Assim diz a frase que encabeça a sinopse na capa de trás do livro, entretanto, se me permitem uma visão mais particular, eu diria que é “a história de Jane Hawking, contada pela luz de um coração e uma alma únicos, capaz de transformar qualquer pessoa que permita-se tocar pela sensibilidade da autora”.

A história, meus caros, pertence a ela. E todas as aclamações, prêmios e elogios devem dirigir-se a ela. Jane, em 1962, cruzou seu caminho com Stephen Hawking, um rapaz que provinha de uma família de hábitos nada convencionais, com ganas à genialidade. A sua estranheza, porém, ao invés de afastar a jovem moça, a fascinou de uma forma irremediável. “Talvez houvesse algo sobre sua excentricidade que me fascinara, tendo em vista minha existência bastante convencional”. (p. 13).

“Convencional”, como os anos que se seguiram puderam demonstrar, era uma palavra totalmente inadequada para descrever a existência de Jane Hawking.

Logo, o amor floresceu entre aqueles dois seres aparentemente incompatíveis, e foi no início desse relacionamento, que duraria mais de um quarto de século, que sobreveio o trágico diagnóstico: Stephen sofria de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), doença degenerativa que o levaria para o túmulo em cerca de dois anos. Foi o que os médicos disseram. Os médicos, porém, ignoravam a vontade de viver que existia na alma daquele jovem incomum de pouco mais de 20 anos, e ignoravam, também, o amor sem limites que manteria aquela vida em pleno funcionamento. Sem se acovardar perante o futuro incerto e sombrio, Jane casou-se com Stephen, na certeza de que Deus cuidaria do resto, e de que sua vontade de permanecer ao lado dele a tornaria forte o suficiente para suportar o que quer que lhes estivesse reservado.

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Bom, ela não estava errada. Conforme os anos passaram, a ELA avançou impiedosamente, tornando a vida de Stephen cada vez mais frágil e dependente de cuidados extremos. Jane, porém, dedicou-se completamente a tornar a vida de seu marido o mais suportável e longa que fosse possível. A doença, todavia, podia paralisar as pernas, as mãos e cordas vocais de Stephen, mas não o seu intelecto.

Jane logo descobriu que havia em seu complicado casamento a presença de uma terceira integrante que, de início, não pareceu representar nenhuma grave ameaça, mas que com o tempo acabaria por se tornar, segundo suas palavras, “uma rival implacável, tão exigente como qualquer amante, uma inexorável sereia que atraía seus devotos para os poços profundos da obsessão. Ela não era outra senão a Física, citada pela primeira esposa de Einstein como a correspondente em processos de divórcio.” (p. 70). Enfeitiçado pelo canto dessa sereia, Stephen lançou-se em uma busca frenética e incessante cujo alvo era desvendar os seus mistérios mais profundos e intrigantes, e nada poderia pará-lo. Nem mesmo a ELA. Por vezes, Jane era assaltada pela percepção de que seu marido interessava-se demasiadamente pelas fórmulas e teorias, esquecendo-se da família que se propunham a formar. Tal percepção, no entanto, não causou abalos no amor que Jane nutria por Stephen, muito pelo contrário: na certeza de que a felicidade dele completaria a dela, agarrou com unhas e dentes todos os sonhos absurdos de Stephen.

Os anos de estudos e entrega total à Física trouxeram seus frutos, tornando o nome “Stephen Hawking” conhecido por todo o mundo: O Grande Gênio Incapacitado.

Em 1967, nasceu o primeiro filho do casal, Robert George. Posteriormente, em 1970, Lucy veio ao mundo, a filha do meio, e anos depois nasce Timothy Stephen, em 1979. E como se não bastasse o fato de Jane ser responsável, agora, por quatro pessoas, a avalanche de prêmios que se seguiu ao reconhecimento da genialidade de Stephen, inseriu, no seio dessa família, uma circunstância avassaladora: a mídia. Enquanto Jane lutava para manter aquela família em um grau mínimo de normalidade e tranquilidade (tarefa ardorosamente complicada), o ego de seu marido era alimentado por toda a atenção que o mundo estava lhe dedicando.

dayle mail.jpg Stephen Hawking com Jane e seus filhos. O casal separou-se em 1990. Fonte da foto: Dayle Mail.

Seguiram-se grandes dificuldades e uma crise terrível no casamento de Stephen e Jane. Ao que parece, o Gênio foi dominado por uma arrogância tão grande e profunda que acabou por engolir o espaço que antes pertencia à sua esposa. Deixando-se levar por pressões e influências alheias, Stephen pôs um ponto final em uma relação de mais de 25 anos, exigindo o divórcio.

Após essa vida tão turbulenta, Jane decidiu abrir a gaveta onde escondeu seus próprios sonhos e projetos, e dar-lhes movimento novamente. Casou-se com Jonathan Jones, um amigo que esteve ao seu lado nos piores anos do casamento com Stephen, e que sempre a respeitou de forma inigualável. Tornou-se escritora, publicando o livro At Home in France, além de ser palestrante.

Tempos depois, acertou as arestas com Stephen, estabelecendo uma relação de respeitosa amizade, nada mais digno de se fazer depois da vida que compartilharam e de todo o caos que enfrentaram juntos.

Se Stephen Hawking hoje é um milagre para a medicina, se sua vida foi além do esperado e se ele tornou-se o maior cientista que o mundo atual já viu, tudo se deve a Jane Hawking. A força por trás do Gênio Incapacitado. Uma mulher que pôs de lado seus próprios sonhos e projetos para dar espaço para que os do seu marido se realizassem. Uma mulher que dedicou grande parte de sua vida a uma família repleta de problemas e dificuldades.

Talvez, muitas pessoas torçam o nariz para tudo o que Jane fez, porque nada é mais ultrapassado do que uma mulher abandonar seus próprios planos para cuidar do marido e dos filhos. Entretanto, saibam de uma coisa: o amor nunca é ultrapassado. E lembrem-se: o amor é uma escolha. Jane escolheu amar Stephen de uma forma tão genuína e sincera como poucas vezes se vê na vida. Concordo plenamente com a frase posta na capa do livro. Se “a mente dele mudou o nosso mundo. O amor dela mudou o mundo dele.”

jane-hawking_3367601b.jpg Jane Hawking hoje.

Jane Hawking, tão sensível e altruísta, deve ser considerada uma espécie de heroína, digna de respeito e admiração. Logo que conheceu Stephen, uma pergunta formou-se em sua cabeça: “poderia eu ajudá-lo a realizar-se e a encontrar felicidade, ainda que breve?”. Eu diria que sim, Jane.

E por fim, deixo um último conselho: ao ler esse livro esqueçam do Grande Gênio incapacitado e olhem para a mulher que sempre esteve atrás de sua cadeira de rodas. Foi ela que fez toda a diferença. Na verdade, ouso dizer que Stephen Hawking só tornou-se o maior cientista do mundo atual porque teve a inigualável sorte de ter Jane como sua esposa.


Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 22 anos, habitando fisicamente a ilha de São Luís, MA. Por dentro, meus mundos são vários. Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, meus hobbies incluem bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e necessito de tratamento que combata o vício por filmes e séries coreanas. Acredito piamente que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus. Carpe diem! ;) .
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