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Porque literatura e cinema deixam a vida mais bela.

Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 21 anos, habitando fisicamente a ilha de São Luís, MA (porque psicologicamente meus mundos são vários). Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, adoro bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e sofro de um pequeno vício, um tanto grave, por filmes e séries. Acredito que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus.

A Delicadeza do Amor

O amor, por vezes, pode ser inusitado e parecer desconcertante, e é exatamente quando duas pessoas aparentemente incompatíveis dão à luz a esse sentimento, que ele revela sua verdadeira face: simples, dono de pequenos gestos e delicado. A Delicadeza do Amor não é daqueles filmes que arrancam lágrimas, mas pertence àquela classe especial que é capaz de comover a alma.


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A Delicadeza do Amor (La Délicatesse), filme francês de 2012, dirigido por David Foenkinos e Stéphane Foenkinos, realmente faz jus ao seu título e cumpre com maestria a missão a que se propõe.

O longa francês narra a história de Nathalie Kerr (interpretada pela querida Audrey Tautou, que talvez você conheça como Amélie Poulain), uma jovem bela e mortalmente apaixonada por seu marido, François, com quem vive uma história de amor com a qual todo mundo já sonhou. Por um triste descaminho, Nathalie perde o marido, e aquela bolha cristalina de felicidade na qual vivia, estoura impiedosamente. Nos anos seguintes, Nathalie resolve que a única coisa que lhe resta é o trabalho, tornando-o seu escape, sua fuga da companhia diária da dor. O estado de inércia no qual Nathalie se inseriu é quebrado quando, num momento de total mergulho em seus pensamentos, ela, involuntariamente, acaba por beijar Markus, seu colega de trabalho. É aí que o filme se revela.

19824195.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg Nathalie e François: um verdadeiro conto de fadas.

Extremamente minimalista e pragmático, A Delicadeza do Amor se contenta com coisas simples e pequenas, e é dessas coisas que busca extrair o máximo de significado que puder, mostrando ao telespectador que não são necessárias balbúrdias emocionais para encantar e comover. Nathalie é o centro das atenções, desejada e adorada pelos homens. No entanto, o interessante aqui é que a moça não faz o tipo “mulherão”, mas transborda de charme, graciosidade e uma personalidade introspectiva única. É a delicadeza de Nathalie que enlaça o coração dos homens, o que não escapa ao seu próprio chefe: “Nathalie é daquela categoria especial de mulher que anula todas as outras. Nathalie é Yoko Ono – do tipo que é capaz de acabar com a maior banda de rock do mundo.”

533265.jpg "Aquela categoria especial de mulher que anula todas as outras".

Do outro lado do ringue, porém, temos Markus, um sujeito com o qual você já deve ter cruzado na rua incontáveis vezes, mas a sua insignificância o impediu de ser notado por você. Um sujeito grande, desengonçado, com dentes separados, careca aparente e roupas desalinhadas. Markus é um ninguém, invisível até aos mais observadores, e talvez por isso tenha sido tão estrondosamente inacreditável que sua bela e graciosa chefe tenha lhe dado um beijo. O fato é que por traz daquele feioso desajeitado havia um ser humano sensível às coisas importantes e dono de uma gentileza e doçura invejáveis a qualquer príncipe de conto de fadas. Só foi necessário um encontro para que Nathalie percebesse a singularidade encantadora que havia em Markus. O amor entre os dois vai nascendo aos poucos, sem pressa nem grandes rompantes, como tudo que é sincero deve ser.

o-indizivel-que-e-em-a-delicadeza-do-amor-filme.html.jpg "Por traz daquele feioso desajeitado havia um ser humano sensível às coisas importantes".

A incompatibilidade estética entre Nathalie e Markus, entretanto, não consegue escapar às línguas venenosas ao seu redor, que não fazem cerimônia antes de atirarem seus olhares enviesados e comentários sarcásticos em nossos dois personagens, tal qual o Talibã atira pedras em mulheres adúlteras. A sobrevivência desse casal inusitado, portanto, dependeu exclusivamente de se encontrar um refúgio onde as opiniões e os julgamentos alheios não os atingissem.

Nathalie e Markus se doam à descoberta de um novo sentimento, e não há nada mais tocante do que observar o nascimento gradativo e terno de algo que pertence apenas aos dois. A Delicadeza do Amor não é daqueles romances rasgados que beiram à insanidade. Não é cheio de exageros ou de declarações de amor feitas no meio de um show de rock. Nada disso. É um filme que revela a verdadeira face do amor. A forma como ele surge, às vezes do acaso, às vezes de atos impensados, ou da mera rotina. A forma como cresce, aos poucos, desacelerado, tímido, e de repente, tão grande que não cabe em si mesmo.

A-Delicadeza-do-Amor-Crítica-do-filme-by-Película-Criativa-2.jpg "Não há nada mais tocante do que observar o nascimento gradativo de algo que só pertence aos dois".

A delicadeza do amor foi denunciada abertamente a cada vez que passeávamos pela nuca alva de Nathalie, ou quando aprofundávamo-nos em seus olhos complexos e melancólicos. Quando éramos tocados pelo sorriso sincero de Markus, ou quando o víamos pisar em ovos tentando mostrar que era mais do que uma aparência desalinhada.

A verdade, meus caros, é que o amor não tem rosto. O amor não é magro, nem alto. Não tem olhos azuis, dentes perfeitos ou usa roupas de marca. O amor não segue padrões criados por nenhum de nós, nem se limita a uma existência condicionada às expectativas alheias. Por vezes ele é estranho, inusitado e pouco afeito às convenções. Mas uma coisa é consenso: o amor - mas só o verdadeiro- nasce no terreno da simplicidade e é adubado de pequenos gestos, e com toda a certeza do mundo, é repleto de delicadeza.


Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 21 anos, habitando fisicamente a ilha de São Luís, MA (porque psicologicamente meus mundos são vários). Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, adoro bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e sofro de um pequeno vício, um tanto grave, por filmes e séries. Acredito que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus..
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