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Porque literatura e cinema deixam a vida mais bela.

Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 20 anos, vivendo em São Luís, MA.
Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, adoro bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e sou medalhista em Maratona de Filmes. Acredito que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus.

Augustus Waters, cicatrizes e o medo do esquecimento: por que precisamos tanto ser lembrados?

Quem leu o romance de John Green, A Culpa é das Estrelas (ou assistiu ao filme), deve ser conhecedor da eterna obsessão de Augustus Waters em ser lembrado. Levar uma vida extraordinária, ser conhecido e amado pelas multidões pode ser o sonho de muitos, mas até que ponto nós iríamos para deixar nossa cicatriz no mundo? O que é mais importante em nossas vidas? Os aplausos de 20 segundos ou aquela tarde chuvosa em casa, vendo um filme com os amigos? Que os minutinhos de fama ou as curtidas no facebook não matem a essência da nossa vida. Não a verdadeira.


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Se você leu o romance de John Green intitulado A Culpa é das Estrelas, provavelmente deve estar familiarizado com a eterna obsessão do personagem Augustus Waters em ser lembrado. Se ainda não leu, recordemos brevemente: Augustos é um rapaz de 18 anos que, por conta do osteosarcoma (câncer nos ossos) teve sua perna direita amputada. Carismático, bonito do tipo que faz você perder o ar, no passado pré-amputação foi um jogador de basquete exemplar, e dono de uma das melhores lábias que o mundo literário já viu. Pela reunião das características anteriores, já é bastante perceptível que o moço em questão tinha tudo para se achar o último biscoito do pacote. Uma das declarações mais simbólicas do livro está justamente na primeira cena em que Augustos aparece: “(...) Nem eu nem o Augustos Waters tínhamos soltado uma palavra, até que o Patrick disse: - Augustos, talvez você queira falar de seus medos para o grupo. - Meus medos? - É. - Eu tenho medo de ser esquecido. – disse ele de bate-pronto. – Tenho medo disso como um cego tem medo de escuro.”

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Durante todo o romance, é recorrente o desejo que Augustos tem de “ser lembrado”, de “viver uma vida extraordinária”, de “deixar sua cicatriz no mundo”. Tal como Elvis Presley, Mozart ou Joanna D´Arc deixaram sua marca, Augustos também queria ser especial por suas realizações, queria que o mundo o admirasse. Olhando para Augustos Waters, é de se notar que nessa era dominada pela mídia, pelas redes sociais e pelos “minutinhos de fama”, está mais do que claro que não poucos sofrem com o medo do esquecimento. O desejo pela fama, pelos aplausos, pelos elogios tem levado uma grande massa a realizar o possível e o impossível em busca de uma boa visibilidade, como se a fama fosse tudo aquilo de que uma pessoa precisa, como se o reconhecimento da sua existência por estranhos fosse a razão de se levantar pela manhã. Muitos desejam ser amados pelas multidões, terem seus talentos reconhecidos e serem considerados extraordinários por seus feitos, e não está errado desejar deixar um legado, o problema está no momento definidor em que passamos a acreditar que para sermos especiais é necessário que o mundo todo nos venere.

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Hoje, quando se vai postar uma foto no facebook, instagram ou seja lá o que for, a preocupação do topo da pirâmide é justamente o que as pessoas vão achar: será que terei muitas curtidas? Será que terei muitos comentários elogiosos? E se não tiver? Preciso tirar outra foto. Viver sob as expectativas dos outros, dependendo da aprovação dos outros e desejando os aplausos dos outros é o veneno que está matando aos poucos a espontaneidade e a sinceridade dessa geração. Em contraponto a Augustos, temos Hazel Grace, que sempre soube o que todos nós precisamos entender: nós vamos ser esquecidos. É inevitável. Hazel, portadora de câncer na tireoide em estágio IV, teve sua sentença final decretada no momento do diagnóstico, aos 13 anos de idade. Não se podia fazer muito além de prolongar sua vida através de medicamentos. Mas Hazel nunca se deixou seduzir pelos aplausos, nunca desejou ser o centro dos holofotes. Ela só desejou viver sua curta vida em paz e ser amada. Amada por quem era importante, de fato, não por uma multidão de estranhos.

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Augustos, em determinado momento, quando sua doença já está bastante avançada, declara a Hazel o seguinte: "Sabe, isso é coisa de criança, mas sempre imaginei que meu obituário sairia impresso em todos os jornais, que eu teria uma história digna de ser contada. Sempre suspeitei secretamente que eu fosse especial." O grande ponto aqui, meu caro Augustos, é que não são os jornais que determinam quem é ou não é especial. Não são os aplausos ensandecidos de uma plateia lotada que tornam digna ou significativa a vida de uma pessoa, muito pelo contrário, são os momentos mais velados, mais íntimos, partilhados por poucos, que fazem a vida ter valido a pena. Porque são nesses momentos que as pessoas que verdadeiramente amam você estiveram presentes; porque são nesses momentos em que você pode ser você mesmo, sem preocupações com julgamentos; porque são nesses momentos que a sinceridade reina.

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Após essa descabida declaração feita por Augustus, Hazel diz: “Não estou nem aí se o New York Times vai redigir um obituário para mim. Só quero que seja você a escrever — falei. — Você diz que não é especial porque o mundo não sabe da sua existência, mas isso é um insulto à minha pessoa. Eu sei da sua existência.” E é disso, apenas disso, que precisamos nos lembrar quando formos atacados pelo vírus da necessidade de fama, de aplausos ou holofotes. Alguém sabe da nossa existência. Alguém sempre lembrará de nós. Se não é um país inteiro, o que importa? Viver no anonimato não é uma maldição, é apenas uma circunstância comum a muitas pessoas, e nem por isso torna essas pessoas menos especiais, ou menos amadas.

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Ao fim de tudo, Augustus finalmente deu-se conta de que ser lembrado por poucas pessoas era melhor e mais importante do que ser amado por uma multidão. As multidões, os seguidores das redes sociais, os jornais, os estranhos nas ruas jamais nos amarão por quem somos. Nos amarão por aquilo que tenhamos feito, seja lá o que for. É um amor frágil, movido por materialidade e por ilusões. É um amor que pode vir abaixo com a menor ventania, então, por favor, não gaste seu tempo nem sua vida buscando o amor das multidões. Não perca seu sono contando curtidas no instagram. Não estrague seus instantes de folga daquela rotina maçante com a preocupação de tirar a melhor foto para o facebook. Não faça isso.

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Precisamos reconhecer, como Augustus bem percebeu, que somos como um bando de cães mijando em hidrantes, desesperados em marcar tudo como “meu”. Desesperados em marcar o universo, em sermos significativos para o mundo. Mas sermos significativos apenas para um pequeno grupo de pessoas já é o bastante. Porque são essas pessoas que se lembrarão de nós por quem somos. São essas pessoas que nos amarão por todas as nossas qualidades verdadeiras e também por todos os nossos defeitos irritantes, as nossas falhas de caráter, os nossos erros estúpidos e as nossas manias estranhas. Então, não preocupe-se em deixar a sua cicatriz no mundo, porque com certeza ela já foi deixada em alguém que deve estar muito próximo de você. E nesse alguém , essa cicatriz jamais irá sarar, o que frequentemente acontece com o mundo. Busque mais significado para a sua existência ao invés de aplausos que duram 20 segundos, busque ser amado profundamente, ao invés de extensamente.

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“- A questão é… que todos nós queremos ser lembrados. Mas Hazel é diferente. Ela sabe a verdade. Ela não quer vários admiradores, somente um. E ela conseguiu. Ela não é amada extensamente, mas é profundamente. Não é o que a maioria de nós consegue?”


Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 20 anos, vivendo em São Luís, MA. Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, adoro bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e sou medalhista em Maratona de Filmes. Acredito que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus..
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