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Porque literatura e cinema deixam a vida mais bela.

Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 22 anos, habitando fisicamente a ilha de São Luís, MA. Por dentro, meus mundos são vários. Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, meus hobbies incluem bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e necessito de tratamento que combata o vício por filmes e séries coreanas. Acredito piamente que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus. Carpe diem! ;)

Becoming Jane: suplantando as conveniências

Becoming Jane, muito mais do que uma cinebiografia que narra o envolvimento amoroso entre Jane Austen e um advogado irlandês, nos transporta para um mundo que silenciava absurdamente as mulheres, mas que encontrou em Jane uma verdadeira subversiva da ordem convencional.


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“E alguns – aqueles que só percebiam a superfície clara e sem erros – viam apenas uma jovem e tímida dama. Uma moça que baixava a cabeça solenemente e respondia um quase inaudível “sim”, quando havia necessidade, ou um quase inaudível “não”, quando fosse conveniente. Poucos, entretanto, se atreviam a ir além dos gestos educados e conservadores da jovem dama. Aqueles – corajosos, sem dúvida – que a olhavam mais de perto, podiam perceber, quase de imediato, o olhar desafiador e inescrupuloso que ela distribuía como água àqueles que têm sede. Todos eram alvo do seu precioso julgamento. Todos eram culpados de levar vidas frívolas e insignificantes, de se contentarem com uma felicidade tão medíocre quanto seus próprios corações. Ela era diferente. Sonhava com o mundo, e com outros mundos além daquele. Queria uma vida maior do que as conveniências. Ela tinha uma grandeza dentro de si que a própria época não comportava, e por essa razão sua batalha por uma vida que valesse a pena era ardorosamente complicada. Mas se tinha algo que que a apetecia mais que um bom livro, eram batalhas ardorosamente complicadas. As conveniências que se explodissem, a moral que se corrompesse. O importante era a suplantação do natural, o rompimento dos costumes, e muito além disso: a libertação da própria liberdade. Dias haveriam de vir, ela acreditava, em que seus pensamentos seriam expostos sem qualquer pudor. Em que sua natureza selvagem, à frente daquele modismo tolo, seria vista não como uma afronta à sociedade ou um atentado aos bons costumes, mas como a exaltação da autenticidade mais pura. A coragem de desafiar o sistema. O bom senso de não ser igual.” (Kananda Magalhães Santos)

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Há um certo tempo tive a oportunidade de assistir a uma cinebiografia baseada na vida da maravilhosa Jane Austen, autora inglesa consagrada por obras como Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade, entre outros, e o impacto sobre mim foi tão intenso, que não me contive e acabei por escrever o pequeno texto acima, como forma de homenagear a mulher que Jane foi. Becoming Jane (ou Amor e Inocência) nos conta a breve, porém intensa, história de amor da autora (interpretada por Anne Hathaway) com o advogado irlandês Tom Lefroy (James McAvoy). Entretanto, a cinebiografia nos mostra um lado bastante pessoal de Jane Austen. Sua rotina, seu relacionamento familiar e os sonhos que ela alimentava de poder viver da escrita, ainda que fosse considerado "um atentado aos bons costumes" que uma mulher pensasse por si só. Naquela época, conservadora até o pescoço, o papel de uma mulher era restrito a casar-se, ter filhos e cuidar do seu lar de forma impecavelmente decente. A mulher ideal deveria ser boa mãe, boa esposa. E muda. Expressar seus pontos de vista? Suas ideias e pensamentos? Isso seria um ultraje. “Se uma mulher tiver uma superioridade específica, por exemplo, uma mente profunda, é melhor ser mantido em segredo. Humor é mais apreciado, mas profundidade? Não. É a qualidade mais traiçoeira de todas.”

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Jane poderia ter se resignado. Poderia ter aprendido a calar-se e comportar-se tal qual a sociedade esperava. Mas ela queria muito mais da vida do que lhe era oferecido. Ela possuía mente e pensamentos próprios, e tradicionalismo algum a impediria de ser quem ela era. Vivemos, hoje, um período histórico de maiores liberdades para as mulheres. As dificuldades que Jane Austen enfrentou em seu tempo eram bem mais cruéis do que as que, ainda hoje, insistem em permanecer. No entanto, o mais chocante é que elas permanecem. Mulheres como Jane abriram as portas para que hoje, outras mulheres pudessem falar, pudessem ter voz.

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A cinebiografia nos dá a honra de conhecer uma mulher que esteve anos luz à frente do seu tempo. Uma mulher que perseguiu seus sonhos com uma selvageria terna, e que, a pesar das contradições e maldições daquela sociedade limitada pelo pré-conceito, fez o que queria fazer, o que nasceu para fazer. Reconhecida como uma das maiores escritoras inglesas que o mundo já viu, Jane Austen jamais será esquecida, e sua coragem e atrevimento continuarão a ser inspiração para outras, que tal como ela, precisam de vidas que ultrapassem as conveniências.


Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 22 anos, habitando fisicamente a ilha de São Luís, MA. Por dentro, meus mundos são vários. Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, meus hobbies incluem bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e necessito de tratamento que combata o vício por filmes e séries coreanas. Acredito piamente que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus. Carpe diem! ;) .
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