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Porque literatura e cinema deixam a vida mais bela.

Kananda Magalhães

Advogada em início de aventura, 23 anos, habitando fisicamente a ilha de São Luís, MA. Por dentro, meus mundos são vários. Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, meus hobbies incluem bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e necessito de tratamento que combata o vício por filmes e séries coreanas. Acredito piamente que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus. Carpe diem! ;)

Beleza Americana: A maldição da vida perfeita

O absurdamente aplaudido Beleza Americana, de 1999, é um filme que escancara os estereótipos absurdos da vida perfeita. Nada no universo é pior do que encenar a felicidade, e se os padrões atraem você, sugiro que pense dez vezes antes de segui-los.


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Beleza Americana (American Beauty), filme produzido em 1999, com direção de Sam Mendes e roteiro de Alan Ball, foi um furacão que arremessou todo o mundo cinematográfico pelos ares. Arrebanhou nada mais, nada menos do que cinco Oscars: melhor filme, ator, diretor, roteiro original e fotografia. Além de brilhar com mais outras 35 premiações! Mas o que será que esse filme tem de tão especial? Eu lhes respondo, meus caros: tudo.

O filme traz à tona questionamentos extremamente atemporais, e que valem não apenas para os americanos, mas para qualquer mero mortal.

A vida perfeita: casa, carro na garagem, emprego estável, esposa e filhos. Uma família feliz. Simetricamente feliz, eu ousaria dizer. Esse é o tão famoso modelo de vida ideal para os americanos, e assim é a vida de Lester Burnham (Kevin Spacey). Brilhante e padronizada.

No entanto, toda essa perfeição é o veneno mortal que torna Lester exageradamente infeliz e vazio. A razão disso é que por trás daquela pintura bonita existe uma esposa fria e controladora, uma filha distante e revoltada e um emprego detestável. Lester Burnham, portanto, odeia sua vida. Tudo muda, porém, quando conhece Angela (Mena Suvari), amiga de sua filha, uma colegial sedutora e popular, por quem Lester sente, automaticamente, uma atração inexplicável e absurda.

beleza-americana.jpg Angela: a imagem perfeita da juventude perfeita.

É então que o caos na casa perfeita (aparentemente) da família Burnham começa. Lester pede demissão, começa a malhar e não admite mais ser ignorado por sua esposa, Carolyn (Annette Bening), e sua filha, Jane (Thora Birch). E se você acha que a grama do vizinho deve ser mais verde, está terrivelmente enganado. Na casa dos vizinhos, a família Fitts, o pai, ex-militar, impõe uma convivência rígida e mecânica, em que a mãe passa grande parte de seu tempo calada e com o olhar perdido, e o filho, Ricky (Wes Bentley), se obriga a usar uma máscara de bom rapaz, exemplo da nação, quando na realidade vende drogas. A grande sacada do filme está justamente em denunciar um erro que todos nós já cometemos, ou pensamos em cometer: seguir o padrão.

Há padrões para quase tudo no mundo, e geralmente acreditamos que só seremos socialmente aceitos se os seguirmos. Passamos a vida em busca da felicidade verdadeira, e achamos que seguir o modelo imposto do que é ser feliz, a imagem falsa de uma vida perfeita, é o que nos trará isso.

Lester e Carolyn construíram uma família baseada numa imagem ideal e preestabelecida, e no fim, o que mais valia para eles era a manutenção dessa imagem. Um exemplo claro disso está nas cenas do jantar. A mesa posta beirando à perfeição, os pais sentados, cada qual na cabeceira da mesa, a filha entre os dois e uma música leve e tranquila ecoando pela casa. No entanto, tudo não passava de uma cena montada, porque por baixo daquela superfície lisa cada um deles queria correr e manter distância de tudo aquilo.

beleza_americana_03.jpg A mesa da família Burnham.

Jane é a única que não participa daquela encenação, que não se abstém de dizer a verdade e chutar a parede quando acha necessário. Eu poderia dizer que ela é a personificação do inconformismo contra toda aquela historinha de família perfeita. Jane não quer fingir que é feliz.

Em contradição a isso, temos o interessante comportamento do vizinho de Jane, Ricky Fitts. Ele parece aceitar o estereótipo de normalidade e perfeição ao qual sua família também busca se adequar, no entanto, essa “aceitação” não passa de muita ironia e sarcasmo velados. As roupas sociais, o cabelo sempre bem penteado, a voz baixa e contida. Ricky veste essa máscara unicamente para ser deixado em paz pelo pai, e poder ser quem é de verdade quando ele não estiver olhando, refugiando-se em seus vídeos, o que, aliás, foi um detalhe muito bonito do personagem. O eterno “sim” ecoado pelo filho para tudo que o pai ex-militar diz, é, na verdade, uma estrondosa gargalhada. Eu diria que Ricky concordou em dançar a música, mas com tampões nos ouvidos.

Os-Fitts-Beleza-Americana.jpg A família Fitts: a prova de que a grama do vizinho nem sempre é mais verde.

Até mesmo a bela Angela, modelo de juventude perfeita, cobiçada pelos homens, idolatrada pelos colegas de escola, no fim não passou de uma ilusão. Mais uma imagem estereotipada que ela cultivava achando que seria feliz.

A beleza verdadeira, portanto, nunca vai estar nos padrões, nos estereótipos perpetuados doentiamente, porque nada disso é real. Obedecer imagens preestabelecidas não nos torna bonitos. Nos torna bonecos sem vida, manipulados por cordas tão frágeis quanto nossa autoestima. Não há nada de errado em ser diferente. O mundo, visto por diversas óticas, torna-se infinitamente mais interessante.

A cena mais bela do filme, segundo minha humilde opinião, é o momento em que Ricky mostra a Jane o vídeo da “coisa mais bonita” que ele já viu. Era apenas uma sacola plástica sendo levada pelo vento, no entanto, em um olhar mais detido, o balé aéreo executado por aquela sacola, em meio às folhas secas de uma árvore, em uma calçada qualquer, era de uma beleza indizível. Era singularmente simples e verdadeiro, como tudo que é bonito de verdade deve ser.

Então que se exploda se sua vida não é perfeita, se você não é magra e loira, se decidiu ser músico ao invés de fazer medicina, se tem mais de 20 e ainda não tem um carro, se vai adotar ao invés de ter filhos, se resolveu largar o emprego no escritório pra lavar pratos em Londres ou se divide um apartamento de dois cômodos com um colega da faculdade.

Beleza-Americana-Trecho3.jpg A ilusão de Lester da perfeição em uma colegial.

A verdade é que a vida não é perfeita, e cada um de nós tem a sua. Cultivar imagens preestabelecidas, frias e homogêneas dá muito trabalho, e no fim, não traz nada a não ser aquela maldita enxaqueca de não saber o que vale a pena.

Quando seguimos o rigoroso modelo imposto pela sociedade, quando dançamos conforme a música e obedecemos aos estereótipos cegamente, estamos sendo iguais a todo mundo. Nos tornamos comuns, e isso é chato demais. É a pena perpétua de uma vida medíocre. E o único jeito de escaparmos dessa terrível e injusta condenação é renunciando aos padrões. Precisamos ser diferentes, porque, como diria Angela, “nada na vida é pior do que ser comum”.


Kananda Magalhães

Advogada em início de aventura, 23 anos, habitando fisicamente a ilha de São Luís, MA. Por dentro, meus mundos são vários. Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, meus hobbies incluem bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e necessito de tratamento que combata o vício por filmes e séries coreanas. Acredito piamente que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus. Carpe diem! ;) .
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