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Porque literatura e cinema deixam a vida mais bela.

Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 22 anos, habitando fisicamente a ilha de São Luís, MA. Por dentro, meus mundos são vários. Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, meus hobbies incluem bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e necessito de tratamento que combata o vício por filmes e séries coreanas. Acredito piamente que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus. Carpe diem! ;)

CARTA DE UMA PORTADORA DA SÍNDROME DO ROMANTISMO AGUDO AOS SENHORES DIRETORES DE FILMES DE AMOR

Respeitados Diretores de Filmes de Amor, por favor, compreendam que nós, os patologicamente românticos, não pretendemos intimidá-los com esta carta. Desejamos apenas que conscientizem-se do enorme estrago que seus filmes causam aos nossos frágeis corações.


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Excelentíssimos Senhores Diretores de Filmes de amor, Venho por meio desta carta anunciar-lhes a existência de seres bastante peculiares que têm sofrido um apocalipse interior por conta da falta de sensibilidade dos senhores. Somos nós esses seres. Os portadores de uma patologia aparentemente incurável (e gravíssima, diga-se de passagem) reconhecida mundialmente como a Síndrome do Romantismo Agudo. Acreditamos piamente que os senhores ignoram nossa pobre e triste existência, haja visto suas produções ao longo de muitas décadas. Preferimos acreditar que somos ignorados (o que é bem mais bonito e daria um ótimo poema ou letra de música) do que acreditar que os senhores são pessoas do mais puro feitio de crueldade, em cujos corpos há um denso buraco negro onde deveria existir um coração pulsante.

O caso, senhores Diretores, é o seguinte: amamos os seus filmes. De verdade. E precisamos deles tal qual Branca de Neve precisou do beijo do Príncipe para despertar. O grande problema está na reação produzida pelo contato de suas magníficas obras cinematográficas com os genes sentimentalmente modificados que formam nosso organismo. Vou tentar lhes explicar melhor. Nós, que sofremos da Síndrome do Romantismo Agudo temos uma certa tendência a devaneios fora de hora. A longos períodos em silêncio, sempre com um olhar nublado e distante no rosto. Para nós, os melhores lugares e momentos são os melancólicos (porque como diria Mario Quintana, é a maneira mais romântica de ser triste) e nada no universo é mais fantástico do que a idealização (a não ser, talvez, a idealização transformada em realidade). Jamais nos cansamos de idealizar o amor perfeito, a grande história de amor da qual somos os protagonistas e sempre temos um final feliz.

360.10-Coisas-Que-Odeio-em-Você-580x290.jpg Filme Dez Coisas Que Eu Odeio Em Você, 1999.

A tragédia, senhores, é que nada disso é real (ou raramente torna-se real). São sonhos, devaneios, ilusões que alimentamos incansavelmente porque sofremos de amor e dessa maneira garantimos nossa sobrevivência. Não há remédios para românticos idealistas. Daí vamos ao cinema. Sentamos na poltrona e esperamos passar algumas boas horas do lado de fora do mundo real. E desfilam diante de nossos olhos todas as suas obras cinematográficas cruéis e irreais, acalentando nossos desejos mais ilusórios e elevando o nível da nossa terrível patologia. Titanic. Ghost. Uma Linda Mulher. Dez Coisas que eu Odeio em Você. Um Lugar Chamado Notting Hill. Letra e Música. Um Amor Para Recordar. E centenas de outros. Muitos consagrados, outros nem tanto, mas uma coisa é certa: todos torturantes.

Torturantes, claro, para nós, os que sofrem de amor. Porque vocês, senhores diretores, precisam saber que quando deixamos o cinema levamos dentro de nós uma boa parte dos seus filmes, e então desejamos e imploramos em silêncio ardente que algo parecido possa acontecer conosco. Ficamos à espera. Atentos. Pulsantes. Porque a qualquer instante podemos esbarrar com o Grande Amor das Nossas Vidas. Seja num navio prestes a afundar ou numa cidadezinha inglesa qualquer. Seus filmes acendem dentro de nós aquela chama perigosa que nos faz sentir que tudo é possível. Que pode ser real, verdadeiro. Que nos faz acreditar que da próxima vez que atravessarmos a rua distraídos, lendo um livro de poemas de Vinicius de Moraes, seremos atropelados por uma bicicleta cujo dono (ou dona) terá os olhos mais profundos e bonitos que já vimos, e o amor nascerá ali mesmo, no meio da rua. E não terá volta. Será para o resto da vida.

7.jpg Filme Uma Linda Mulher, 1990.

Acontece, senhores, que nós apenas atravessamos a rua. A bicicleta não aparece. E com o transcorrer dos dias vamos nos dando conta do quão mentirosos os senhores são. Nos damos conta de que aquelas grandes histórias de amor só existem nas telas, e jamais transbordam para o infeliz mundo real. E aí nós sofremos. Sofremos a dor de não saber como é viver um amor impossível. A dor de não receber um pedido de casamento quando seu avião está prestes a decolar. A dor de não ter uma música escrita só pra você. A dor de não atravessar um oceano inteiro para ir dizer a alguém que você a ama. A verdade, senhores diretores, é que esse tipo de coisa acontece o tempo todo nos seus filmes. E por mais que saibamos como são exageradamente clichês, é o que todos nós queremos. Queremos amores que nos surpreendam, que nos tirem o fôlego, que nos deixem sem rumo, que nos desestruturem profundamente. Queremos ser tirados da órbita de nossas vidas tão insípidas e normais.

Mas nada acontece. Esperamos, e nada acontece. E é por isso que para o bem da nossa sanidade mental, venho, em nome de todos os portadores da Síndrome do Romantismo Agudo, pedir-lhes encarecidamente que parem de alimentar nossos sonhos malucos. Parem de dar asas às nossas ilusões estúpidas. Parem de nos causar dor. Queremos sair do cinema tranquilos, viver tranquilos, sem a eterna e vã esperança de que algo romanticamente extraordinário vá nos acontecer. Pensem em todas as pobres almas que já foram enganadas e desiludidas pela falta de sensibilidade dos senhores. E caso persistam em seu trabalho cruel como diretores de filmes de amor, nós, os patologicamente românticos, seremos obrigados a processá-los por propaganda enganosa e por danos irreparáveis ao coração alheio.

notting-hill.jpg Filme Um Lugar Chamado Notting Hill, 1999.

Entretanto, se por magia do acaso e resolução do destino as histórias de amor começarem a acontecer por aqui, e se pudermos ser os protagonistas de nossas próprias aventuras românticas, relevem a pequena ameaça do parágrafo anterior. Saibam que não é nada pessoal. É que existem momentos definidores em que cansamos de sofrer. Ser portador de uma doença como essa não é nada fácil em um mundo como o nosso, porque geralmente somos os incompreendidos, os bobos, aqueles que deveriam viver em outra época. Ah, quem dera pudéssemos viver em outra época. Uma época em que romantismo não é doença, é só um detalhe de quem gosta de amar. Espero que compreendam minhas colocações e que não se vinguem de nós criando outro filme Esmagador de Corações.

Os mais sinceros cumprimentos dos Portadores da Síndrome do Romantismo Agudo. Ass.: A Representante Oficial.


Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 22 anos, habitando fisicamente a ilha de São Luís, MA. Por dentro, meus mundos são vários. Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, meus hobbies incluem bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e necessito de tratamento que combata o vício por filmes e séries coreanas. Acredito piamente que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus. Carpe diem! ;) .
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