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Porque literatura e cinema deixam a vida mais bela.

Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 22 anos, habitando fisicamente a ilha de São Luís, MA. Por dentro, meus mundos são vários. Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, meus hobbies incluem bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e necessito de tratamento que combata o vício por filmes e séries coreanas. Acredito piamente que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus. Carpe diem! ;)

Porque as melhores histórias de amor são aquelas que Hollywood não conta

"É isto: a paixão amorosa é um modo de entrar em ressonância com o outro, corpo e alma, e somente com ele ou ela. Estamos aquém e além da filosofia." (p.26).

A história de André Gorz e Dorine, muito provavelmente, é desconhecida para muitos. O cinema não se deu ao trabalho de conta-la. E talvez seja melhor assim. Hollywood jamais será capaz de capturar essa história em toda a sua bela e trágica realidade.


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“Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.” (p. 05).

Estamos todos acostumados àquelas histórias de amor que hollywood nos conta, que vemos cotidianamente nas telas dos cinemas e que nos levam a imaginar como seria viver um amor daquele tipo. Tão desesperador. Tão ilimitado. Tão arrebatador. Mas aquelas histórias, em grande parte, são mentiras. Mentiras bonitas, é verdade, mas que jamais poderão carregar em si o peso da realidade vivida. Muitas vezes, como tola romântica que sou, dediquei algumas horas a pensar como as histórias de amor da vida real são, de fato. Se existe nelas o mínimo de emoção e grandiosidade que o cinema propaga, porque sempre pensei que a vida real, por vezes, é bem monótona e pouco propensa a situações épicas. Isso sempre me atormentou. Até que, por fim, minha incredulidade no amor que acontece nesse plano de existência foi posta à prova por um pequeno livro de 71 páginas, chamado Carta a D., escrito por André Gorz e publicado no Brasil pela Cosacnaify. Acredito que este seja um livro conhecido por poucos leitores, o que não diminui em nada a magnitude da sua história. Que inclusive, é real. Atentemos para isso. André Gorz foi um filósofo austro-francês, que também atuou muito como jornalista, chegando, inclusive, a participar intimamente do grande Maio de 68, em Paris. E foi exatamente na França que ele conheceu Dorine, que viria a ser sua esposa e o maior e único amor da sua vida.

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“Nós éramos, eu e você, filhos da precariedade e do conflito. Fomos feitos para nos proteger mutuamente contra ambos, e precisávamos criar juntos, um pelo outro, o lugar no mundo que originalmente nos tinha sido negado. Para isso, no entanto, seria necessário que o nosso amor fosse também um pacto para a vida inteira.” (p. 15)

Carta a D. era originalmente uma carta mesmo, que André havia escrito para Dorine, quando ela, após sofrer muitos anos com uma doença degenerativa, estava em seu leito de morte. A carta foi transformada em livro, e pudemos ter a honra de conhecer profundamente a história de amor que André e Dorine compartilharam. Gorz narra a sua vida com Dorine desde o princípio, quando se conheceram, se apaixonaram, todas as suas crises, dificuldades e projetos que realizaram em conjunto. O livro é de uma ternura incomparável, e é impossível você não se emocionar com a grandiosidade do amor sem limites que aquele casal vivenciou. Nenhum filme produzido por Hollywood poderá um dia transmitir de forma tão real do que o amor se trata, quanto as páginas desse livro escrito com memórias e lágrimas que antecedem um fim.

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“A precisão das lembranças que eu guardo me diz a que ponto eu a amava, a que ponto nós nos amávamos.” (p. 17).

André e Dorine experimentaram o amor naquilo que de mais transcendental ele pode ser. Eram duas almas que escolheram trocar de casa, e morar uma na outra. Duas almas que desaprenderam a inspirar se a outra não expirasse, ou a expirar se a outra não inspirasse. Os desafios da rotina traiçoeira e demasiadamente insípida jamais conseguiram pegá-los em suas armadilhas. Juntos podiam saltá-las sem grande dificuldade, embora pudessem surgir alguns arranhões aqui ou ali. Mas nada jamais poderia abalar a promessa que haviam firmado. A vida que queriam construir com suas próprias mãos.

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“Eu dizia: ‘o que nos prova que, em dez ou vinte anos, nosso pacto para a vida inteira corresponderá ao desejo do que teremos nos tornado?’ A sua resposta era incontornável: ‘Se você se une a alguém para a vida inteira, os dois estão pondo em comum sua vida e deixarão de fazer o que divide ou contraria a união. A construção do casal é um projeto comum aos dois, e vocês nunca terminarão de confirmá-lo, de adaptá-lo e de reorientá-lo em função das situações que forem mudando. Nós seremos o que fizermos juntos.’ Era quase Sartre." (p.18).

Portanto, André e Dorine foram capazes de me convencer que as grandes histórias de amor que o cinema não conta é que são as melhores. A sétima arte jamais conseguirá alcançar a complexidade necessária para traduzir ao pé da letra como o amor funciona e os efeitos produzidos por ele na vida de quem o recebe e de quem o dá. Carta a D. é uma história real, terna, mágica e triste, como a maioria das coisas verdadeiras da vida são. Ao final de tudo, depois de sofrer muitos anos de uma terrível doença degenerativa, Dorine chegou à conclusão de que não podia mais suportar tudo aquilo. André tinha certeza de não poder continuar, se ela também não pudesse. Então, em 22 de setembro de 2007 os dois abdicaram da própria vida juntos, matando-se em um pacto suicida. Mas a pesar da forma em que a história de André e Dorine chegou a cabo, não consigo deixar de imaginar que há beleza, mesmo na tragédia. Concordo com Clarissa Corrêa quando ela diz que o amor, quando é amor, tem lá suas dores bonitas.

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“Não quero assistir à sua cremação; nem quero receber a urna com as suas cinzas. Ouço a voz de Kathleen Ferrier cantando: ‘Die Welt ist leer, Ich will nicht leben mehr’ (o mundo está vazio, não quero mais viver), e desperto. Eu vigio a sua respiração, minha mão toca você. Nós desejaríamos não sobreviver um à morte do outro. Dissemo-nos sempre, por impossível que seja, que, se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos.” (p. 71).


Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 22 anos, habitando fisicamente a ilha de São Luís, MA. Por dentro, meus mundos são vários. Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, meus hobbies incluem bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e necessito de tratamento que combata o vício por filmes e séries coreanas. Acredito piamente que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus. Carpe diem! ;) .
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