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Porque literatura e cinema deixam a vida mais bela.

Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 20 anos, vivendo em São Luís, MA.
Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, adoro bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e sou medalhista em Maratona de Filmes. Acredito que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus.

A CIDADE DO SOL: Quando duas mulheres retiram coragem da profundidade do sofrimento

“Ergueu então a ferramenta o mais alto que pôde, tanto que ela chegou a esbarrar em suas costas. Virou-a, para que a ponta ficasse na vertical, e, ao fazer isso, percebeu que, pela primeira vez, era ela quem estava decidindo o rumo da própria vida”. A Cidade do Sol é um livro que nos mostra, de forma absurdamente real, como duas mulheres, vítimas dos maiores sofrimentos, são capazes de ser fortes e de sobreviver, a pesar do que o sistema dita. Uma leitura que sempre carregarei para a vida.


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Publicado em maio de 2007, A Cidade do Sol é o segundo livro do romancista e médico afegão Khaled Hosseini. Hosseini possui apenas 3 livros publicados atualmente, (O Caçador de Pipas, seu romance de estreia e sucesso de críticas, e O Silêncio das Montanhas, sua última publicação em 2013, além, é claro, do livro que estamos tratando), os quais já tive o enorme privilégio de ler. Embora A Cidade do Sol perca em fama para O Caçador de Pipas, para mim foi o melhor livro que Hosseini escreveu até agora. De fato, foi uma grande história que teve grande impacto sobre mim. Principalmente pelas duas protagonistas que foram construídas com tanta força e coragem.

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A história se passa no Afeganistão, a partir dos anos 70, e começa nos apresentando a Mariam, uma jovem “harami” (que quer dizer “bastarda”), filha de uma empregada com seu rico patrão, que foi rechaçada por ele e posta para viver com sua mãe em uma pequena “kolba” (uma construção simples feita de barro e palha) num vilarejo afastado da cidade. Mariam sempre foi mortalmente apaixonada pelo pai, que acreditava ser o melhor homem do mundo, no entanto, sua mãe incansavelmente a advertia a respeito do verdadeiro caráter dele. Mariam cresceu ouvindo da mãe que, para garotas como ela, só havia um destino: casar e servir ao marido. Uma mulher como Mariam viveria uma eterna condenação. Muito incisiva é a declaração que sua mãe lhe faz: “Aprenda isso de uma vez por todas, filha: assim como uma bússola precisa apontar para o norte, assim também o dedo acusador de um homem sempre encontra uma mulher à sua frente. Sempre. Nunca se esqueça disso, Mariam”. Nossa segunda protagonista é uma garota loira, de olhos verdes, filha de um professor, que tem um mundo de oportunidades à sua frente. Ao contrário de Mariam, Laila cresceu ouvindo de seu pai que poderia ser o que quisesse: “sei que você ainda é pequena, mas quero que ouça bem o que vou lhe dizer e entenda isso desde já. O casamento pode esperar; a educação não. Você é uma menina inteligentíssima. É mesmo, de verdade. Vai poder ser o que quiser, Laila. Sei disso. E também sei que, quando esta guerra terminar, o Afeganistão vai precisar de você tanto quanto dos seus homens, talvez até mais. Porque uma sociedade não tem qualquer chance de sucesso se as suas mulheres não forem instruídas, Laila. Nenhuma chance”. No entanto, acontecimentos trágicos promovem o encontro de uma Mariam de 33 anos, cansada e amargurada, com uma Laila de 14 anos, assustada e sozinha. Essas duas mulheres, vivendo debaixo do regime Talibã, têm de unir forças, e juntas, descobrirem uma forma de se manterem firmes. E vivas. O modo como a vida de uma se entrelaça na vida da outra é, no mínimo, tocante. As duas têm de aprender a sobreviver em uma época em que ser mulher no Afeganistão era assinar uma sentença de morte. A Cidade do Sol é um livro que trabalha com a profundidade do sofrimento e com a força que pode nascer dele. E é real. Tão real que chega a assustar. Todos sempre soubemos que as mulheres que vivem no oriente médio passaram, e ainda passam, por grandes dificuldades, em virtude do sistema sob o qual vivem. Hosseini, com essa história, nos faz adentrar no mundo dessas mulheres de forma profunda, e nos faz entender, pelo mínimo que seja, qual a amplitude e gravidade das coisas que essas mulheres precisam abdicar para sobreviver. O mais impressionante, porém, não é a compreensão desse sofrimento, mas a noção da força gigantesca que essas mulheres possuem. É por isso que Mariam e Laila representam uma homenagem a todas as mulheres do Afeganistão, como o próprio autor deixa claro em sua dedicatória. A essas mulheres, que por suportarem as piores coisas, merecem ser felizes, e acima de tudo, merecem a liberdade de serem quem são. De serem mulheres, sem precisar cobrir o rosto ou sentirem-se criminosas por isso. Meus eternos aplausos a Hosseini por essa história tão cheia de força e inspiração, que é capaz de nos mostrar que, mesmo quando parece não haver saídas, nós sempre podemos dar um jeito. A solução, às vezes, está na coragem que pode nascer em nós. Às vezes, a sociedade parece ser a dona do destino das mulheres. Parece ditar o caminho pelo qual devem andar e quem devem ser. Mas a verdade é que o nosso destino pode ser escrito por nós mesmas. As nossas escolhas é que definirão quem somos. Basta que tenhamos a coragem de não permitir que a sociedade se aposse do que pertence apenas a nós.


Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 20 anos, vivendo em São Luís, MA. Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, adoro bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e sou medalhista em Maratona de Filmes. Acredito que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus..
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