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Porque literatura e cinema deixam a vida mais bela.

Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 22 anos, habitando fisicamente a ilha de São Luís, MA. Por dentro, meus mundos são vários. Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, meus hobbies incluem bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e necessito de tratamento que combata o vício por filmes e séries coreanas. Acredito piamente que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus. Carpe diem! ;)

No fim, temos tudo. Só não temos um ao outro.

“Pérolas no mar”, filme chinês recentemente lançado pela Netflix, é um presente a todos nós. Com delicadeza e realidade, a obra nos leva a refletir sobre os grandes "e se" da vida e como as nossas escolhas e arrependimentos pesam nos ombros. Esses são os melhores filmes. Os que alcançam nossa alma.


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“Pérolas no Mar” foi uma grata surpresa que a Netflix nos proporcionou. O filme, de nacionalidade chinesa, foi inspirado no livro “Home for Chinese New Year – A Story Told in English and Chinese”, de autoria de Wei Jie. Temos como protagonistas do longa dois jovens em seus 20 e poucos anos: uma moça chamada Xiao Xiao (Dongyu Zhou) e um rapaz chamado Jian-qing (Boran Jing). Ambos se conhecem em um trem que ia de Pequim para o interior da China, e estavam a caminho de suas casas para passarem o ano novo chinês com suas respectivas famílias. Porém, as circunstâncias cooperam e o excesso de neve impede o trem de seguir caminho, dando ao casal de protagonistas a oportunidade perfeita para tecerem laços mais firmes.

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A partir desse encontro ocasional nasce uma amizade sincera e profunda entre os dois, o que prepara o terreno para que o amor brote ali sem muita demora. Após esse encontro inicial, logo nos primeiro minutos do filme, já somos direcionados para uma cena em preto e branco na qual observamos nossos protagonistas, 10 anos mais tarde, se reencontrando. E é nítido que algo deu errado e que coisas precisam ser ditas. Esse é um recurso recorrente durante toda a trama. Os saltos temporais nos levam de um ano para outro, tendo sempre como marco o dia do ano novo chinês. E é nesse ritmo que vamos acompanhar a história de amor (e muito além disso, de vida) desses dois personagens.

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A verdade, e sejamos sinceros, é que não se trata de uma história de amor original ou arrebatadora, como os grandes romances sempre tentam ser (e talvez por isso nem sejam tão “grandes” de fato). É convencional, comum, sem grandes rompantes. É natural e realista. Mas é exatamente nessa simplicidade que reside o maior triunfo do longa: ele gera identificação. Xiao Xiao e Jian-qing são como muitos de nós somos ou fomos um dia. Jovens cheios de sonhos, esperanças de um futuro melhor e com energia e coragem para enfrentar o mundo e a tonelada de problemas e confusões que estamos fadados a encontrar. Pequim representa o sonho deles. É a cidade mágica em que tudo pode acontecer, onde as realizações de seus maiores desejos espreitam em cada esquina, esperando o momento certo para pular na frente deles e gritar “surpresa!”.

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Mesmo em meio a tantas dificuldades, a verdade é que os dois foram felizes, e de forma genuína. Foram um acalento um para o outro, um apoio e inspiração a alcançar os seus próprios sonhos.

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Mas, infelizmente, o personagem de um famoso romance adolescente já disse que o mundo não é uma fábrica de realização de desejos. As dificuldades não tardaram a tirar o brilho dos sonhos de Xiao Xiao e Jian-qing, que um belo dia despertam e se dão conta de que anos se passaram e as suas realizações nunca gritaram “surpresa”. O ânimo, o fôlego inicial e a alegria são substituídos por uma amargura poeirenta e por uma ambição nada saudável. Nem o amor foi capaz de sustentar aquele castelo de vidro. E no fim, desabou.

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Interessante é notar que as cenas que retratam o passado dos protagonistas são coloridas, enquanto que as cenas do presente, 10 anos após o fim de tudo, são em preto e branco. Não é por acaso, claro. Jian-qing possuía o sonho de desenvolver videogames, e estava criando um, cujo personagem principal se chamava Ian. A tarefa de Ian era encontrar Kelly, passando por todas as barreiras que surgissem. Xiao Xiao, então, pergunta a Jian-qing: - Mas e se o menino não encontrasse a menina? E Jian-qing responde: - Então o mundo dele perderia a cor. Faz muito sentido.

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No presente, os protagonistas tentam entender o que deu errado, e pensam em todos os “e se” que poderiam ter acontecido e remendado toda aquela confusão e dor pela qual passaram. Os arrependimentos, as decisões que poderiam ter sido diferentes, as palavras que não foram ditas, o medo que impediu o próximo passo. Nossas vidas são recheadas dos famosos “e se”. Quantas vezes a nossa pobre natureza humana nos impediu de dizer “desculpa”, “obrigado”, “sinto sua falta”, “não vá embora”, “eu te amo”, “eu estou aqui com você”. Os nossos problemas, dificuldades e principalmente a nossa estupidez nos fazem pensar que são coisas desnecessárias, piegas demais. E pode até ser clichê falar assim. Mas os sentimentos são clichês, e não há como fugir disso.

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Xiao Xiao e Jian-qing, no fim, alcançam o que desejavam. E que bom para eles. Mas ao pensar em tudo que houve, chegam a uma triste conclusão: “No fim, temos tudo. Só não temos um ao outro”. Esse é o poder das nossas escolhas.

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Tecnicamente, o filme não peca em momento algum. Uma direção delicada, trilha sonora que encaixa com perfeição, fotografia de tirar o fôlego, e todo um cuidado para que o telespectador entenda as passagens de tempo e jamais se confunda ou perca o interesse no filme. Os atores criam personagens cativantes que causam empatia e identificação. Mas o maior mérito da obra é a capacidade de tocar em nosso íntimo e nos fazer repensar as nossas escolhas, erros do passado e arrependimentos. Isso todos nós carregamos aos montes. Porque somos humanos. Aconselho a verem o filme até subir todos os créditos, pois mesmo ali ainda existem lições a serem passadas e finais a serem vistos. Um filme que surpreende, toca e deixa aquela sensação de querermos ser melhores. Essas são os melhores histórias. Aquelas capazes de carimbar nossa alma.


Kananda Magalhães Santos

Acadêmica de Direito, 22 anos, habitando fisicamente a ilha de São Luís, MA. Por dentro, meus mundos são vários. Dramática, sentimental e fazedora de tempestades em copo d'água, meus hobbies incluem bancar a escritora e ser a dona da verdade. Gente normal me dá sono e necessito de tratamento que combata o vício por filmes e séries coreanas. Acredito piamente que o mundo, pra ser melhor, só precisa de mais amor,gentileza, poesia e muito mais de Deus. Carpe diem! ;) .
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