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Isabela Martins

19 anos de música diária, livros na cabeceira e de flores ao meu redor. Futura jornalista, gosto de ler e ouvir histórias reais e fictícias, de chocolate e das surpresas do dia a dia.

Garbo: a enigmática estrela do cinema

Garbo, mulher de contradições dentro e fora das telas, foi uma renomada atriz.


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“Existem alguns que querem se casar, e outros que não. Nunca tive o impulso de ir para o altar. Sou uma pessoa difícil de conduzir” (Greta Garbo).

A personalidade enigmática da conhecida Esfinge sueca não é segredo para ninguém. Pouco se sabe sobre ela e a falta de informações sobre quem de fato Greta Lovisa Gustaffson era, é um prato cheio para a especulação. Durante toda sua vida, Garbo, como gostava de ser chamada, concedeu a imprensa apenas 14 entrevistas e passou suas últimas cinco décadas reclusa em seu apartamento em Nova York.

Considerada uma das mulheres mais fascinantes do século XX, Greta, era como um pequeno frasco de perfume, de essência única, resultado da mescla de fatores opostos. A jovem exalava uma aura de sensualidade e ingenuidade que conquistou o mundo e permitiu que se tornasse uma das estrelas mais conhecidas do cinema na década de 20, ganhando o apoio e a admiração do público europeu e americano. O domínio do próprio corpo era uma característica marcante de Greta. Sua performance quebrava a quarta parede, estabelecendo um vínculo entre a personagem-história e público, garantindo seu sucesso durante a transição do cinema mudo para o sonoro. O exotismo de sua voz rouca, o inglês carregado com o sotaque sueco, que outrora fora ridicularizado, agrega ao ser Greta e finaliza seu estilo.

Essa imagem inebriante da atriz hollywoodiana acoberta as desventuras vividas por Garbo. Katha (pronuncia-se Kêta), apelido dado a ela pela família, abandonou a escola aos 14 anos e passou a trabalhar em uma loja de departamento após a morte do pai. Caçula de três filhos, a atriz estreou como comediante depois de participar de pequenos filmes publicitários para as lojas de sua cidade natal, Estocolmo.

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Passando por dificuldades a jovem corpulenta de cabelos crespos foi descoberta por Mauritz Stiller, logo após terminar os estudos na Academia Real de Teatro Dramático em 1924, época em que adotou seu nome artístico Garbo e participou das filmagens do épico A Lenda de Gosta Berling. Nessa época, a atriz conheceu Irving Thalberg (1899-1936) e Lilian Gish (1893-1993) responsáveis pela repaginarem estética de Greta. Mas foi como modelo de Arnold Genthe que Garbo atingiu o sucesso. Na espera para partir para Nova Iorque, após ser convidada por Louis B. Mayer, magnata do cinema, dono da empresa Louis B. Mayer Pictures, Greta conheceu o fotógrafo e juntos fizeram um ensaio enviado para a MGM. A empresa norte americana produzia na época cerca de 50 filmes no ano e percebeu em Greta um futuro promissor.

A atriz que já iniciou a carreira como protagonista, acontecimento inusitado na carreira cinematográfica, se tornou sucesso imediato em seu primeiro filme americano Os Proscritos no ano de 1926. No final dos anos 20 e durante os anos 30, Garbo colecionou boas críticas e indicações ao Oscar de melhor atriz, sem nunca chegar a ganhar a estatueta. Seus maiores sucessos foram Grande Hotel (1932), lembrado pela famosa frase dita pela atriz “I want to be alone” (Eu quero ficar sozinha), Anna Karenina (1935), Dama das camélias (1936) Ninotchka (1939).

A trajetória meteórica de Greta Garbo seguiu à risca o velho ditado popular “quanto mais alto, maior o tombo”. Após quase duas décadas de sucesso em Hollywood, sabendo dos boatos de que a MGM iria dispor dela e de outas atrizes por serem demasiadamente caras, e por receber críticas negativas sobre sua atuação no filme Duas vezes Meu (1941) do diretor George Cukor, Garbo abandona sua carreira no cinema. A realidade criada pela Segunda Guerra Mundial foi o fator definitivo para encerrar a vida profissional de Greta. Os acontecimentos horrendos e assombrosos vividos pela Europa desde 1945 com a ascensão do poderio nazifascista, tornaram as tragédias ficcionais inviáveis e desrespeitosas diante das atrocidades cometidas. O mercado cinematográfico europeu foi destruído pela guerra resultando na escassez do público admirador que comprava Greta Garbo.

Desde então Garbo não retornou às telas, recusando inúmeros papéis nos anos posteriores e sendo considerada um “veneno de bilheteria” segundo a Associação dos Exibidores Independentes. A atriz também passou a ser motivo de piadas devido à crescente impopularidade.

Reservada como o habitual, Garbo optou pelo auto exílio. Especula-se que sua natureza pacífica e solitária tenha sido o motivo pelo qual a atriz favorita de Adolf Hitler, por ironia do destino, não tenha retornado ao cinema. Durante as gravações ou em qualquer outra situação Greta preferia aceitar opiniões contrárias a sua à criar discussões sobre o assunto.

Essa atitude, refletia diretamente em seus relacionamentos amorosos. O comportamento de seguir à risca as diretrizes e ordens de outros contrasta com a frase inicial do texto dita pela própria Garbo ao afirmar ser uma pessoa difícil de conduzir. Tal afirmativa mostra quão suave e instigante foi Greta Garbo que fascinou o público com suas contradições.

A diva dos anos 30 passou por dois abortos durantes sua vida. Numa época em que o feminismo era uma figura que estava ganhando forças em uma sociedade machista patriarcal, Garbo, que nunca se casou, era bissexual tornando-se gradativamente assexual. Seus maiores medos eram o da traição e da gravidez devido a esses dois acontecimentos. De maneira cautelosa a atriz manteve relações com atores como George Brent (1904-1979), atrizes como Lilyan Tashman (1899-1934), o maestro Leopold Stokowski (1882-1977) e sua amiga Mercedes de Acosta (1893-1968). A bissexualidade da atriz refletia também nos papéis nos quais Garbo se dizia interessada em interpretar como Hamlet e Dorian Gray. Essas reivindicações nunca foram aceitas pela MGM.

Já no final de sua vida, Greta Garbo teve um relacionamento com Cécile de Rothschild e continuou a fazer pequenas viagens para a Europa em busca de itens para sua coleção de arte. Após encerrar sua carreira cinematográfica, a sueca passou a se interessar pela terceira e pela sexta arte, assim como por jardinagem e exercícios físicos diários. Estes porém não foram suficientes para prevenir doenças com o passar dos anos. Fumante desde os 12 anos de idade e o corpo debilitado devido à idade avançada, Garbo passou uma mastectomia no ano de 1984, um ataque cardíaco em 1988 e por diálises em consequência da falha nos rins.

A atriz ganhadora do Óscar especial pelo conjunto da obra em 1954, foi a óbito em um domingo de páscoa decorrente de uma pneumonia. O legado deixado por ela vai muito além de seus 34 filmes, a estrela na calçada da fama de Hollywood ou selos e monumentos em sua homenagem. A aura misteriosa da arte da Garbo fascina e é relembrada em outras artes como nos versos de Mario Quintana, na música do The Killers, Madonna e Falco, no filme A Morte lhe cai bem (1992) e até mesmo em artigos sobre política como o do jornalista Fernando Gabeira “Greta Garbo, quem diria...”.


Isabela Martins

19 anos de música diária, livros na cabeceira e de flores ao meu redor. Futura jornalista, gosto de ler e ouvir histórias reais e fictícias, de chocolate e das surpresas do dia a dia. .
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