pandoriando

Alguém que deu muita atenção às letras da Madonna

Thais Duarte

Escrevendo, falando, vivendo como sinto que devo desde 1991.

Todo o "Je ne sais quoi" que houver nessa vida

Fazer escolhas só porque sente que deve, sem que pra isso seja necessária uma explicação plausível, faz da vida mais única e mais verdadeira.


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Sentir o que deve ser feito é a forma mais pura de ser quem você realmente é.

Um frase inicial tão complexa para um tema, que se bem explicado, é bem simples de se entender. Então para que isso seja possível, vou começar ilustrando com uma situação cotidiana que me fez refletir sobre isso recentemente, para depois discorrer melhor sobre ele.

Há um tempo atrás eu estava procurando por um novo seriado para assistir, porque um dos que eu mais gostava tinha terminado há alguns meses. Depois de algumas tentativas frustradas entre "o mais falado nas redes sociais" e algumas indicações dos amigos, comecei a fuçar o Netflix pra ver se encontrava algum que só de bater o olho eu sentisse "ah, é esse!". Não era necessariamente pela história ou pelos atores, mas por aquele je ne sais quoi que move minha vida desde as coisas mais simples, como escolher um seriado, até as mais complexas, aquelas que realmente mudam o curso das coisas. Por fim acabei escolhendo por Sons Of Anarchy. Não, não foi o Charlie Hunnam nem os tais ideais de anarquia que o nome sugere, até porque se fosse por isso teria começado assistir anos antes. Escolhi Sons of Anarchy porque eu senti que devia, simples assim. Ou não.

Quando eu estava no começo da segunda temporada, fui conversar com uma amiga que acompanha a série e ela me disse algo do tipo "Quando eu te resumi a série há um tempo atrás você não pareceu gostar muito [...] Então o que te fez ver agora?" Eu respondi porque eu senti que devia ver, e ela me disse "A lição disso é: Não seja tão cabeça dura". Mas não, eu não sou cabeça dura, nem fechada no meu universo particular. A questão é que já faz um tempo que eu desenvolvi uma maneira de pensar que eu chamo de "O que sinto que devo", e decidi viver exclusivamente baseada nela. É o tal je ne sais quoi que citei. Eu preciso sentir que devo seguir por tal caminho, escolher tal roupa, ler tal livro ou tomar determinada atitude. Não porque alguém me falou que eu devia, não porque todo mundo está indo por esse caminho, não porque é moralmente aceitável, e nem porque eu ACHO que devo. Veja bem, sentir e achar são coisas completamente diferentes. Quando você acha que deve fazer tal coisa, é porque existem vários fatores determinantes que logicamente te conduzem aquela opinião. Quando você sente que deve, não, você sabe no fundo que é assim e pronto.

"Ah então você só faz as coisas do seu jeito? Isso pra mim tem outro nome, MIMADA."

E quem disse que fazer o que se sente que deve é só fazer o que se quer? Quantas vezes você quis tomar determinada atitude, mas no fundo sentia que não era a certa, como encher a cara na véspera de um dia importante, ou fazer aquela viagem de última hora pra um lugar bizarro? Fazer o que se sente tem muito mais a ver com intuição e autoconhecimento do que com "mimadices". É ter plena consciência do teu ser pra saber o que é melhor pra você, sem que pra isso haja uma explicação plausível, ou interferência externa.

Então vamos usar o termo "intuição", mesmo que ele não seja o meu preferido, pra falar sobre isso. As pessoas tem uma ideia de que usar a intuição é só para as "grandes coisas" da vida, como relacionamentos e na vida profissional, só que elas esquecem que nós somos feitos pelas coisas mínimas do cotidiano. Elas acham que intuição tem a ver com magia, incensos de patchouli e bolas de cristal, como se fosse algo de outro mundo, quando na verdade é deixar o seu inconsciente trabalhar com seu consciente para que você possa viver de uma maneira mais plena, sendo cada vez mais você mesmo, pura e essencialmente, sem as interferências externas. Isso é intuição, é fazer o que se sente que deve.

Agora, levar em consideração sua intuição, seu "feeling" interno, não quer dizer que você vai começar a agir de maneira arrogante ou repulsiva com tudo que vem de fora e dos outros. Todo mundo tem algo interessante a acrescentar. Eu aprendi a filtrar e ver o que funciona pra mim ou não, tem coisas que te servem na hora, tem outras que você deixa no arquivo, pra olhar em outro momento. As vezes aquela banda nova que tá todo mundo amando e achando genial não funciona pra você naquela hora, não porque não seja de fato ruim, mas simplesmente não está na sua sintonia. Talvez um dia você sinta aquele click, puxe na memória e ela faça todo sentido. Talvez você considere aquilo um lixo pra sempre, e tudo bem também.

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As maiores e mais relevantes coisas que aconteceram na minha vida, as que foram essenciais para que eu seja a pessoa que sou hoje, se originaram de escolhas e atitudes que eu senti que devia tomar. Foi porque eu senti que devia, que um dia aos 12 anos eu assisti Matrix, e isso me levou a fazer uma faculdade de cinema, mesmo que atualmente eu esteja bem mais pra Pedro Almodóvar do que pros irmãos Wachowski. Foi porque eu senti que devia, que eu comprei o The Immaculate Collection da Madonna e ele deu início ao pensamento feminista que me tornou a mulher que sou hoje. Foi porque eu senti que devia, que eu fui atrás de um centro de Umbanda e descobri um lugar que eu pertencia. E também foi porque eu senti que devia, que eu comecei a assistir Keeping up with the Kardashians e descobri um dos meus melhores passatempos pra minhas tardes de preguiça.

Isso não significa que os maiores e mais relevantes acontecimentos da minha vida foram apenas os mais felizes ou os que me trouxeram melhores resultados. Eu já sofri, e muito, por fazer o que eu sentia que devia. Mas eu escolhi viver assim, sendo responsável pelo curso que a minha vida toma. Se eu quebrar minha cara me relacionando com alguém babaca, ou se eu perder meu tempo lendo um livro imenso que tem um final idiota, é por minha conta e risco e não porque fulano disse que é "IN", porque eu li na revista, ou porque alguém me disse que eu devia. Se eu errar, vou errar por mim e só assim vou conseguir aprender alguma coisa.

Mas se eu acertar? Ah se eu acertar!


Thais Duarte

Escrevendo, falando, vivendo como sinto que devo desde 1991..
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