pão abstrato

Outros textos, novos contextos

Sebastião Vieira

Precisamos mudar de direção. Mudar é preciso, é urgente! Precisamos reaprender o caminho que nos leva a nós mesmos, sem falsas pretensões. Precisamos de mudança de mentalidade.

ARTE PARA HUMANIZAR A VIDA

Estamos o limiar da Pós-modernidade que emparelha posturas solidárias e individualistas num único ser, revelando através deste potencialidades e fragilidades da condição humana, as quais precisam de uma compreensão que congregue esta dualidade que paralisa a vida, por vezes, numa mistura consistente de ser e não-ser, sem sombras preconceituosas que neguem o projeto dialético construtor de uma nova humanidade.


Para se chegar a uma compreensão congregadora da condição humana é preciso perguntar-se antes: afinal, quem é o ser humano? Só depois de investigar, para tentar responder essa questão é que será possível saber se uma rápida excursão pelos meandros formadores da personalidade humana será suficiente para revelar tudo sobre esse ser histórico-cultural, livre, autônomo, criativo, mas, também, vulnerável, instável, incapaz, destruidor, esse ser paradoxo chamado homem.

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Fonte: http://www.revistacontemporartes.com.br/2011/03/arte-e-o-desenvolvimento-humano.html

INTRODUÇÃO

A sociedade contemporânea apresenta-se hoje para nós como uma incubadora que gera um universo de expressões culturais multifacetadas. Desta forma, ela se revela, portanto, como uma fonte geradora de diversidade, que não esconde a riqueza de variedades que produz. Essa condição sociocultural e estética do capitalismo contemporâneo, também denominado pós-industrial ou financeiro, agora mergulha num processo de mutação, que alguns teóricos denominam de pós-modernidade, vem acompanhado de uma cultura e de uma representação da sociedade que deixou para trás qualquer traço de uniformidade e de unanimidade, bem como qualquer heteronomia.

Nesses dias de profundas mudanças sociais verifica-se igualmente uma tendência de globalização crescente, formando um processo vivo e dinâmico que interfere nos nossos modelos de vida, nos padrões de comportamento, nas linguagens, levando a cultura a estar em permanente adaptação. Afinal, estamos mergulhados na pós-modernidade, nós estamos no intervalo de um processo que precisa ser compreendido melhor, decifrado detalhadamente, inclusive em suas ambivalências, porque ele pode tanto construir, quanto destruir o ser humano, sustentando ou comprometendo o que lhe dá dignidade, sustentabilidade e sentido a sua vida. Essas mudanças abruptas, por sua vez, fazem com que a humanidade adentre num tempo de paradoxos e de crise.

Este cenário social pós-moderno tende a reconfigurar as pessoas em todas as suas dimensões. Se, por um lado, se promove a idéia de que o humano é um ser livre, autônomo, sujeito de si e da história, por outro lado, ele se torna vulnerável, com dificuldade até de auto identificar-se. Torna-se instável e incapaz de estabelecer relações duradouras com o outro e de engajar-se com este por um tempo mais longo. Por conta disto, esse ser reconfigurado entrega-se mais facilmente ao consumismo, pois busca saciar-se, preenchendo, assim, os vazios de sua vida, não raro comprometedores; assume uma atitude adaptável ante a publicidade; fica à mercê do modismo momentâneo, sugeridos sobretudo pelos meios de comunicação social.

Esse modismo, por sua vez, vendido diuturnamente pelas grandes mídias, vem fazendo com que o ser humano se torne refém de seus desejos, escravizado por suas paixões pessoais e totalmente dependente dessa lógica mercantil, que lhe diz que é disso que ele precisa para se sentir bem e feliz. Por ter se tornado cativo, por seguir essa lógica a humanidade exacerba hoje a sua forma paradoxal de ser, pois rir e chora enredado nessa teia de consumo perverso.

O ser humano é paradoxo, porque vivencia rupturas e continuidades

Para decifrarmos os meandros da essência humana e da lógica capitalista mercantil que o escraviza, nós iremos refletir sobre a essência da obra literária, “Antropologia: ousar para reinventar a humanidade”, de Juvenal Arduini, professor universitário de Filosofia e Psicologia do Triângulo Mineiro, para tentarmos, a partir dessa reflexão, chegarmos ao entendimento de que o ser o humano está em perigo, que ele precisa, urgentemente de cuidados.

Para tanto, um primeiro aspecto que precisamos compreender para adentrarmos nessa análise, é que o ser humano é um paradoxo, por isto, ele vive num contínuo processo de ruptura e continuidade. Porém, é bom salientar, que ele necessita dessa dialética para se firmar como agente histórico transcendental, como afirma Juvenal Arduini (2002).

“O ser humano é ambivalente. Conhecido e estranho, próximo e distante, transparente e opaco. O ser humano canta e protesta, dança e agride, congrega e dispersa. O ser humano é diáfano e indevassável, lúcido e nebuloso, acessível e inabordável. Circula pelas ruas, mas também recolhe-se na intimidade. O ser humano expande-se festivamente e tranca-se amargamente. É lógico e ilógico [...] O ser humano é fértil em criações. Cria vida, saúde, pão, paz, ciência, tecnologia. Mas o ser humano é também niilista. Incinera o mundo. Basta ver a guerra. O ser humano constrói maravilhas, mas também pode arrasá-las. Planta a semente e desintegra a germinação [...] O ser humano é oscilante. É paradoxo”. (ARDUINI, 2002, p.7)."

Nesse sentido, para compreendermos melhor os caminhos que fizeram, e ainda fazem, a humanidade abrir mão de sua essência, para mergulhar nessa aventura capitalista mercantil, que sequestra sua subjetividade e rouba a sua identidade, nós vamos precisar do amparo da Antropologia, da Filosofia e da Arte, para tentarmos entender um pouco mais acerca dos mistérios que envolve esse ser chamado de humano. Comecemos, então, tentando compreender a ambivalência desse ser que o faz ser um complexo e paradoxo.

Humano um ser complexo e paradoxal

O ser humano é dialético, pois usa sua subjetividade para agir na história. Ele é dialético porque se utiliza da arte de dialogar para atingir a sua verdade. Através do diálogo, ele busca evidenciar as contradições entre sua realidade pessoal e a realidade social que o cerca, e, assim, ele procura resolvê-las no curso do desenvolvimento histórico.

É a partir dessa subjetividade, intrínseca a esse mundo interno que todo e qualquer ser humano possui – mundo particular composto por emoções, sentimentos e pensamentos – que o ser humano pode encontrar seu eu interior, o seu ser em-si (SARTRE, 1987). É a partir dessa consciência pessoal, que o humano pode apropriar-se dos elementos necessários para conhecer e compreender o caráter transcendente da vida.

Através dessa subjetividade o ser humano é chamado a construir um espaço relacional com o mundo exterior, ou seja, ele é impelido a se relacionar com o "outro", diferente dele. Para Sartre, quando o homem descobre-se como um ser existente, quando ele toma consciência de si mesmo e do outro, imediatamente ele se percebe como uma existência consciente. Essa consciência de si, como intuição originária de si, existindo no mundo e dirigida ao mundo, designa uma subjetividade sempre aberta, que a todo instante transcende em direção ao mundo. Isto, por sua vez, é o que irá, verdadeiramente, libertar o homem dessa lógica capitalista-mercantil.

Será, portanto, lutando por sua libertação subjetiva, que o ser humano, consciente de si e do outro, irá libertar àqueles de visão capitalista extremada da alienação a que estão submetidos e submetendo os outros a esse sistema insensível e perverso que não respeita a condição multidimensional da espécie humana, não observa, considera, e, tampouco respeita, a utopia inscrita na consciência e na história do ser humano, enquanto possibilidade de construção de uma vida mais bela, mais digna e mais justa para todos.

A partir dessa concepção de vida, nós poderemos começar uma verdadeira história humana, uma história de criação, de desenvolvimento de todas as capacidades – no trabalho, no estudo, na arte, na vivência da espiritualidade, no lazer, na atividade política, na convivência com a família, com os amigos, etc. Somente assim, é que teremos condições viáveis para nos tornar seres integrais, completos.

Este é o sonho que tem animado todos os homens e mulheres de visão revolucionária mundo à fora, em todos os momentos da história humana. Foi e é por conta dessa utopia que muitos doaram e ainda doam suas vidas na luta por mudanças. Esse sonho, portanto, enquanto possibilidade humana, é que nos anima a caminhar e incorporar mais pessoas nesta caminhada, pois é um sonho que nos impulsiona a criar e recriar formas de produção da vida, de tudo aquilo que possa vir suprir as nossas necessidades humanas reais, de forma solidária, sem competir com ninguém, sem explorar outras pessoas, sem oprimir, sem discriminar, sem destinar milhões de pessoas à exclusão.

Nesta perspectiva, uma participação de profissionais e estudiosos de Artes na formação interdisciplinar do ser humano, tem íntima ligação com uma proposta de atuação social propositiva e transformadora da sociedade adepta ao capitalismo mercantil, individualista e excludente.

Dessa forma, a intervenção artística pode sim desencadear percursos de subjetivação e socialização, capazes de transformar as relações entre indivíduo e coletividade, ao oferecer uma forma prática e específica de envolvimento e comprometimento capaz de encorajar a humanidade para pensar e criar dispositivos de emancipação individual e de transformação social.

Mas, diante da persistência de estruturas de exclusão e dominação seculares, o que a arte pode fazer para contribuir com a desconstrução dessa lógica capitalista mercantil? Em sentido amplo, ela pode capacitar os seres humanos para que promovam a multiplicação das potencialidades da vida a partir de uma consciência renovada de que todos nós somos atores sociais, e que em nossas produções artísticas, ou seja nas negociações simbólicas que a vida urbana nos impõe, nós podemos sim trabalhar para influenciar a mudança de consciências, e, por conseguinte, a mudança de paradigma social.

Contando com um possível desdobramento dessa capacitação humana, a proposta educativa, pela perspectiva da arte, teria como objetivo formar pessoas orientadas para boas práticas de cidadania, tais como inclusão, participação e acesso universal aos direitos humanos. Neste sentido, a arte se oferece como um potencial elemento pedagógico capaz de construir e consolidar novos cenários sociais dignos, inclusivos e justos.

Cabe, portanto, ao humano querer tomar em suas mãos o seu próprio destino, querer tomar as rédeas de sua vida, mesmo com suas incompletudes, suas limitações e precariedades, e dá-la um novo rumo e escrevendo um novo roteiro de vida para a sua história. Tudo é possível, nada é certo, como nas palavras do filósofo búlgaro Tzvetan Todorov, quando ele fala que “o homem é ser incompletamente determinado, potencialmente bom e potencialmente mau. Tudo é possível. Nada é certo”. (Todorov apud Arduini, 2002, pág. 9).

O ser humano é dialético

Dá significado ao ser humano é, portanto, uma tarefa por demais complexa. É difícil conhecer esse ser em sua integralidade, pois o homem (no sentido amplo de humanidade) é um enigma indecifrável, conhecido e estranho, transparente e opaco. Lógico e ilógico. Nessa concepção do autor Juvenal Arduini, corroborando com o pensamento de Todorov, tentar decifrar a subjetivação humana, é uma luta inglória porque o ser humano é um ser dual que oscila entre virtudes e vícios.

"O ser humano é surpreendente, imprevisível. Não é retilíneo. É dialético. Ziguezagueia. É contradição fecunda. O ser humano é inexato. Atormenta a exatidão matemática. Tratar com o ser humano é tratar com o imponderável. Nada tão fatigante como esperar que o ser humano se decida. O ser humano é universo espesso, é ontologia intensiva. É fascinado pela consciência, que o desnuda e depois o esconde. É seduzido pela liberdade, que lhe escancara horizontes mágicos e depois o responsabiliza. (Arduini, 2004, p.20)."

Somos sim seres precários, porém, com potencialidades que podem trazer para a nossa vida uma redenção psicológica e espiritual inimaginável. Carregamos no nosso âmago potencialidades capazes de fazer de nós seres integrais, integrados com a vida e tudo o que nos cercam, basta, para tanto, que façamos as escolhas corretas. Mas, não basta, apenas, escolhermos certo, é preciso perseverarmos nessas escolhas, até que a revolução existencial em nós aconteça.

Uma dessas escolhas, poderia ser um mergulho dentro de si – de sua subjetivação – através da arte, como forma de conhecer em profundidade os seus dramas existenciais, suas fragilidades e potencialidades, ou seja, mergulhar em-si para conhecer e entender melhor sua verdade interior, de modo a submergir, após esse mergulho, trazendo elementos subjetivos capazes de lhe dar sustentação emocional, psíquica e espiritual para criar outro mundo possível, no qual o ser humano possa se apropriar de uma nova forma de estar e ser no mundo, e, assim, poder expressar uma outra maneira de viver e conviver com o outro.

Para o filósofo Ernest Bloch a potência subjetiva humana faz com que os homens sejam seres produtores conscientes de sua história, e, ao tomarem posse dessa consciência, eles são capazes de se superarem e evoluírem como pessoas. Nas suas palavras:

"O homem é alguém que ainda tem muito pela frente. No seu trabalho e através dele, ele é constantemente remodelado. Ele está constantemente a frente, topando com limites que já não são mais limites; tomando consciência deles, ele os ultrapassa. (BLOCH, 2005, V.1, p.243)."

Corroborando com o pensamento de Bloch, o filósofo Juvenal Arduini (2002) afirma que todo ser humano é subjetividade. Para ele, essa subjetivação humana é o núcleo que integra a consciência, liberdade, dialogalidade, criatividade, afetividade e responsabilidade no indivíduo. Ele afirma, ainda, que pela subjetividade o ser humano afirma-se como sujeito e emancipa-se como pessoa no tempo histórico-cultural. Nas suas palavras:

"O agente histórico é o homem, e não o tempo. Durante o mesmo período de tempo, pode haver grandes conquistas e grandes retrocessos, pode ser criada nova técnica para curar enfermidades e também, nova técnica para mutilar vidas”. (ARDUINI, 2002, p.14)."

Já o filósofo italiano Gianni Vattimo afirma que a existência leva o ser humano, consciente de si, a entrar ativamente na história. Ao afirmar isto, ele revela conhecer as teorias existencialistas e isto o deixa preocupado com a consciência da liberdade e autonomia do ser humano na sua relação com mundo. Por entender que o ser humano, como ser de projeto, é capaz de fazer escolhas, para as quais o limite será a morte, Vattimo entende que o ser humano, sabendo dessa sua condição de finitude, se sente numa situação de angústia constante diante da velocidade das mudanças impostas pela modernidade.

"A modernidade se define como a época da superação, da novidade que envelhece e logo é substituída por uma novidade mais nova, num movimento irrefreável que desencoraja qualquer criatividade, ao mesmo tempo que a requer e impõe como única forma de vida”. (VATTIMO, 1998, p. 171).

Os autores Arduini, Bloch e Vattimo falam de uma subjetividade que age conscientemente no tempo, e que isto é que faz do homem o agente transformador da história, e não o tempo. Então, a questão primordial a ser questionada e refletida aqui será: o que a humanidade irá deixar de presente para o futuro, e não o que o tempo nos trará, pois segundo esses filósofos, o ser humano, consciente de sua existência, age sempre com determinação e ousadia no mundo o tempo todo.

“A questão fundamental não é perguntar o que o tempo nos trará. A questão vital é definir o que a humanidade irá construir. Se história de vida ou de morte, se história de crescimento ou de ruína. Não basta assistir ao desfile do tempo. Há que agir ousadamente. Há que planejar e criar nova humanidade” (ARDUINI, 2002, p.15)."

O filósofo, teólogo e escritor Leonardo Boff (2012), escreve num artigo publicado no Jornal do Brasil:

“Pessoalmente recuso-me a pensar que o nosso destino, depois de milhões de anos de evolução, termine assim miseravelmente nas próximas gerações. Haverá um salto, quem sabe, na direção daquilo que já em 1933 Pierre Teilhard de Chardin anunciava: a irrupção da noosfera, vale dizer, daquele estado de consciência e de relação com a natureza e com os seres humanos entre si que inaugurará uma nova convergência de mentes e corações. Dar-se-ia assim um novo patamar da evolução humana e da história da Terra. O filósofo Ernst Bloch diria: “o verdadeiro gênesis não está no começo mas no fim””.

Nesta perspectiva o cenário atual da humanidade não seria de uma tragédia, mas, de crise. Sobre isto, Boff (idem) diria que “a crise acrisola, purifica e faz amadurecer. Ela anuncia um novo começo, uma dor de um parto promissor e não as penas de um abortamento da aventura humana”.

Contudo, mesmo com essa perspectiva de emancipação e de recomeço da trajetória evolutiva humana sobre a terra, Juvenal ARDUINI (2009, p.24), olhando para o momento de crise pelo qual a humanidade passa nos dias atuais, ele assinala que o ente mercado continua sujeitando e aprisionando a humanidade a uma cínica situação que o coisifica, que ainda o faz um ser alienado, enredado num processo de massificação sem precedentes muito perigoso: "homens sem mercados não têm futuro. Mercados sem homens têm" [...] "Não é a observação que é cínica, mas sim a situação.".

O ser humano está em perigo! Usam-no como objeto, e o vendem como mercadoria

A desvalorização do mundo humano aumenta na razão direta do aumento de valor do mundo das mercadorias. O trabalho não cria apenas objetos; ele também se produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria. Por conseguinte, essa lógica perversa leva o ser humano a um processo acelerado de alienação da sua própria vontade e de seus sentidos, os quais passam a ser manipulados e utilizados pelo capitalista.

Esse processo de alienação se inicia quando o ser humano, produtor de todas as riquezas, não se reconhece mais naquilo que faz, e, assim, deixa de perceber que o seu valor está visceralmente comprometido no valor daquilo que é produzido e que este não retorna às suas mãos como oferta de seu sacrifício. Essa realidade alienante acarreta a perda de identidade do indivíduo, como afirma Juvenal Arduini:

“A identidade do ser humano está em crise. Ele está sendo programado pela ciência, modificado pela engenharia genética, superado pelo mercado, debilitado pelo ecologismo e submetido a critérios tecnológicos [...] Para Todorov, “o homem é um ser incompletamente determinado, potencialmente bom e mau. Tudo é possível. Nada é certo”. (TODOROV apud ARDUINI, 2002, p. 9)

Mas o ser humano não é um utensílio. Ele dança entre ser e não-ser. Na verdade, o ser humano parece ser mais do que é, pelo fato dele ser surpreendentemente imprevisível. Em suma, “a essência do homem reside na ek-sistência” (HEIDEGGER, 1983), isto é, o humanismo deve se voltar não para o ente humano, mas sua existência autêntica na verdade do ser-no-mundo. O mundo, aqui, é concebido como o lugar em que o ser aparece como uma clareira, no sentido heideggeriano.

Diante de tantos perigos, originados por essa lógica suicida capitalista-mercantil, cabe fazer uma reflexão profunda acerca dos motivos que têm levado o ser humano a se encontrar, nesse momento da vida, correndo um grande risco de ser extinto enquanto espécie. Cabe, também, questionar se tudo isso é mesmo necessário para sermos felizes.

No parecer de Juvenal Arduini, a sociedade contemporânea, voltada para a pós-modernidade, é uma sociedade de deliberação, aquela que busca as formas possíveis, que não está desprovida de sentido, mas abre-se a ele sem nunca se satisfazer com o sentido atingido. Contudo, para ele, o ser humano, como ser de transcendência, está sujeito a essas transformações da sociedade, mas, em sua essência, ele é livre para ir além das prisões culturais impostas pela sociedade, ele é capaz de transcender a tudo isto e reinventar sua vida, o seu destino.

Apesar dessas prisões culturais e da realidade social deprimente que presenciamos nos dias atuais, temos de reconhecer e defender o valor original e intransferível das pessoas, pois, como diz Arduini (2002), o ser humano é valor principal no mundo porque possui dignidade congênita, dignidade, esta, que não lhe foi outorgada por sistemas políticos e econômicos. Para ele, ninguém tem o direito de anular a dignidade inata ao ser humano, pois, mais que espécie natural, o ser humano é espécie cultural que sabe interpretar o universo, transformar a natureza, planejar a sociedade, criar sistemas de vida e transformar a história.

O ser humano é mistério que abriga medo e coragem

Apesar do autor Arduini nos mostrar que essas prisões, que causam medo e podem aniquilar o ser humano, ferindo-o de morte naquilo que ele tem de mais valoroso, a sua dignidade, ele, ao mesmo tempo, nos apresenta uma porta salvadora para essa situação de perigo: a porta da coragem, porta, essa, que pode conduzir a humanidade a ambientes onde se respira ares de liberdade, de respeito, amizade, companheirismo. Porta de possibilidades, que precisa de um ser fonte que tenha mãos limpas e muita coragem para abri-la e atravessá-la.

E que porta seria esta que o autor Arduini nos aponta? Para falar dela ele nos lembra Cristo que escandalizou muita gente de seu tempo, sobretudo os detentores do poder. Jesus, segundo o autor, escandalizou no seu tempo porque curou enfermos em dia de sábado e subordinou o legalismo sabático ao valor maior que é o homem. O Mestre evangélico suscitou sustos e cóleras, ao esfarelar tradições ritualistas para restaurar e ampliar os grandes valores da vida.

Ao nos lembrar da forma revolucionária de ser e agir de Cristo, Juvenal Arduini aponta para a porta que nos leva a uma nova pedagogia, ou seja, uma nova forma de educar, ele nos mostra que a humanidade necessita de uma educação madura capaz de desconstruir valores alienantes de servidão voluntariosa que só escraviza o ser humano, para construir uma sociedade centrada em valores capazes de conduzir a humanidade por caminhos de libertação e emancipação diante das prisões impostas pela sociedade capitalista-mercantil de hoje.

“Já é hora de reivindicar a educação madura que refugue os alienados “valores” da servidão mascarada, e tenha a autonomia crítica para assumir resolutamente os autênticos valores da destinação libertadora”. (ARDUINI, 1989, p. 213).

Nessa perspectiva de uma educação madura, capaz de construir valores libertários e emancipatórios na sociedade, a arte pode ser fundamental nessa revolução educacional, pois ela apresenta alteridade diante da realidade. Ela é crítica à realidade empírica, pois é capaz de transcender as faculdades simbólicas hegemônicas e apresentar mediações ocultas.

A arte traz a alteridade do objeto e do artista em relação ao mundo externo denominado real. Entretanto, isso não significa que a realidade não esteja presente. A presença da sociedade está na arte como matéria-prima, como historicidade do material conceitual, linguístico e sensível, como campo de possibilidades concretamente disponíveis de luta e libertação.

Já a expressão artística estabelece uma comunicação intrínseca com a vida social, de modo que os artistas, consciente ou inconscientemente, sempre carregam a sociedade que lhes serve de berço. Independente do tema abordado, o modo como o artista atua em termos formais é que estabelece a ligação entre a sua arte e a sociedade.

A educação, nessa perspectiva, ao trabalhar a palavra, lançar mão de elementos pedagógicos como cor, som, imagem e movimento, característicos do universo estético, ela dialoga e compartilha desta forma, os simbolismos e significados da dimensão sensível do ser humano, com o que existe no mundo real do momento. Isso, na concepção do filósofo Marcuse (1977) é muito importante quando se destroem palavras, e quando se inventam outras novas também.

BIBLIOGRAFIA

ARDUINI, J. Antropologia: Ousar para reinventar a humanidade. São Paulo: Paulus, 2002.

BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino da arte. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1991.

_________________. A imagem no ensino da arte. 6.ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.

BLOCH, Ernst. O Princípio Esperança. V1. Trad. Nélio Schneider. EDUERJ: Contraponto. Rio de Janeiro. 2005.

FUSARI, Maria F. R.; FERRAZ, Maria H. C. T. Arte na educação escolar. São Paulo: Cortez, 1992.

HEIDEGGER, M. Sobre o humanismo. In: HEIDEGGER, M. Conferências e escritos filosóficos. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

MARCUSE, H. A dimensão estética. Portugal: Ed. 70, 1977.

VATTIMO, Gianni. Acreditar em acreditar. Lisboa: Relógio D’Água, 1998.


Sebastião Vieira

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