Daniela Santos

Se sua mente parar de duvidar das verdades, parte de você já estará morta.

A terrível necessidade de mostrar nossa felicidade sem vivê-la

Criamos uma tecnologia para nos servir, mas em dado momento percebe-se que quem é servido é todo esse ciclo vicioso, no fim nos tornamos reféns da nossa própria criação


Um espaço crescente na sociedade denominado redes sociais têm trazido não só popularidade, mas também uma sensação de carência quanto a aceitação de todos sobre o que fazemos no nosso cotidiano.

Não é questão de idade, isso não influência, todos e absolutamente todos estão primeiro à frente de uma câmera de muitos pixels e qualidade ótima antes de comer, e não importa se a comida irá esfriar desde que achem um bom ângulo. E estão nos lugares em que estão não para aproveitá-los, para se divertirem, para saborearem o tempero que lhes é servido, e sim para mostrar aos outros e talvez até à pessoas que nem conhecem que estão em determinado lugar.

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Logo, ao postarem e verificarem durante cada segundo quantos “likes” obtiveram, como se fosse uma disputa de quem conquista mais curtidas para ganhar algum tipo de prêmio, notam que não se divertiram, que não aproveitaram e assim se encerra a corrida daquele momento. Mas então, logo depois, estão procurando outros momentos para que talvez assim haja mais “likes”, mais comentários, mais a sensação de estarem sendo observados com certa inveja.

Quantos shows você já foi e ao seu término teve a sensação de que não viu nada? De que nem sequer ouviu o que foi cantado durante uma ou uma hora e meia de show? Porque estava mais preocupado em tirar uma foto boa, tirar várias fotos, para em alguns minutos depois postar dizendo que foi algo inesquecível. Mas que ao digitar todo o sentimento de prazer que deveria ter tido naquele momento, se pergunta o por que não sente aquilo tudo que você mesmo escreveu?

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Nos tornamos bons em dizer que nos invejam por estarmos postando diversos momentos que passamos, mas que na realidade no fim, nós mesmos nos invejamos por ter tido aquilo e não ter aproveitado nada. Queremos mostrar que estamos em lugares badalados, que conhecemos pessoas famosas, que pulamos de paraquedas, mas não vivemos nada disso porque estamos tão preocupados em mostrar isso para os outros que esquecemos de viver aquilo.

Aí então vem a sensação de vazio, a necessidade de delegar ao outro a culpa por não nos sentirmos pleno, sendo que boicotamos nossos momentos, negligenciamos nossas oportunidades de nos sentirmos vivos.

A busca pela aceitação dos outros, seja quem for, é uma doença decorrente de redes sociais que ultrapassam os estereótipos de uma sociedade. Digo isso porque além de querermos agradar fisicamente aos que nos olham, queremos também pagar qualquer preço para estar onde as pessoas querem estar, e não para nos divertirmos, mas para mostrar aos outros que estivemos lá.

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Em outro extremo observa-se a falta de sensibilidade que todo esse exibicionismo têm trazido, me arrisco até em dizer que está nos tornando robôs. Quase tão ou mais doentio quanto o que foi descrito anteriormente, estão os momentos que em um período não muito distante do passado eram tratados com mais seriedade e privacidade. Um exemplo disso são fotos, selfies de familiares doentes internados na cama de hospital que circulam como uma coisa totalmente normal, retratação do sofrimento alheio, para que novamente uma rede de pessoas que até desconhecidas, saibam o que se passa na sua vida e na da sua família.

Não obstante, e devo citar tal exemplo que me trouxe total constrangimento, a foto do túmulo de um parente de um “amigo” meu postado em uma rede social. Sim, não estou fazendo uma brincadeira sem graça, realmente um ser humano dotado de inteligência, razão, e aparentemente sensibilidade teve a capacidade de postar isso em uma rede social de acesso internacional, para demonstrar um sentimento que deveria ser só seu. Não que ele devesse sofrer sozinho, que não precisaria de ajuda ou apoio, mas esse tipo de exibicionismo é aterrorizante e mostra mais uma vez como o ser humano têm se tornado mais indiferente quanto aos seus próprios sentimentos.

Tente, por pelo menos uma vez, ir até a sorveteria na esquina da sua casa, ou a algum restaurante que goste. Tente olhar ao seu redor, tente sentir as pessoas ao seu redor mesmo que elas estejam no celular. E mais desafiador ainda, tente se sentir no ambiente, tente conversar, verbalmente, com o garçom ou com a atendente que está pesando e preenchendo sua comanda. Tente ver a realidade e viver aquele momento, você se surpreenderá com o que o mundo real pode te proporcionar em matéria de tato.

Nesse fim de texto, exposto por tudo que vejo no meu cotidiano, a hipocrisia me invade. Sim, sou essa pessoa descrita no decorrer do texto, tão abertamente criticando o meu mundo externo e sendo uma viciada em mostrar, e sim, talvez até por uma carência social. Todos têm não é?!


Daniela Santos

Se sua mente parar de duvidar das verdades, parte de você já estará morta..
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