Daniela Santos

Se sua mente parar de duvidar das verdades, parte de você já estará morta.

Vivendo na borda

Morri diversas vezes esse ano. Morri por dentro, por fora e para algumas pessoas. Morri por alguns sentimentos, por algumas respostas e por algumas saudades. Morri para me descobrir, para me esquecer, para me fortalecer.
Imagine-se no alto de uma montanha, com uma corda à sua frente ligando-a a outra, o famoso slackline ou, talvez, a famosa corda bamba. Agora, imagine-se no centro dessa corda, tentando se equilibrar enquanto o vento observa seu próximo passo em busca da oportunidade fatal. Isto, para descrever como é viver na borda, no limite, viver sob um transtorno de personalidade. Para quem não vive isso, é necessário o lúdico.


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Não há como relatar como é viver na borda sem realmente estar lá, digo isso para que não se torne banalizada tal escrita, assim como a depressão é proferida pelas pessoas por um simples estado de estresse. Muito mais do que um problema social, o transtorno de personalidade Borderline, por ser de difícil diagnóstico inicial, pode levar a pessoa a sérios problemas internos, familiares e profissionais.

“A prevalência média do Transtorno de Personalidade Borderline na população é estimada em 1,6%, embora possa chegar a 5,9%” (retirado do site http://www.minhavida.com.br/saude/temas/transtorno-de-personalidade-borderline )

"Eu posso ouvir o som do vento, e quando me concentro um pouco mais, posso decifrá-lo. Estou mais distante da borda, agora tudo parece claro, a escuridão parece mais distante e é como se eu pudesse respirar de novo. E, então, quando tento ouvir de novo o vento, perco o equilíbrio e estou a um passo do abismo novamente. Minha visão escurece, e então vejo claramente que não é mais uma corda bamba e, sim, eu de frente para um espelho. Ao tocar meu rosto, não me sinto. Ao emitir um som, não me ouço. Onde estou, afinal? Quem é esse corpo refletido diante de mim? Por que eu não sinto? Por que as pessoas parecem tão distantes de mim?"

O relato acima foi escrito no momento da crise.

Viver isso é como estar no céu e, em um segundo, no inferno. É viver e morrer em questão de minutos. É amar e odiar a cada pulsação. Vem-me agora a imagem de meses atrás, quando eu sentei diante de diversos médicos e todos me olhavam céticos, e diziam a mesma coisa, e era como um martelo que, batendo sem parar para fixar um prego na madeira, diziam que minha saúde física estava perfeita e que o único problema poderia ser emocional.

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E todas as vezes, ao sair de cada consultório, ficava mais distante de mim. Mais perto da borda que lá debaixo, de tão familiar que nos tornamos, me chamava pelo nome. Em dias bons, a minha felicidade parece verdadeira, não há nada que possa me atingir e é até bom pensar no futuro. E no mesmo dia, quando o pôr do sol alcança minha janela, percebo que não é só a escuridão da noite que me inunda. E, então, tudo vem de novo, minha cabeça pesa, meu corpo não aguenta tal peso e as lágrimas tomam conta de mim. Não lembro mais porquê estava feliz, e parece que aquilo foi há muito tempo.

“As vozes das pessoas que estão na sala parecem mais altas, talvez até ensurdecedora, preciso sair. Tranco-me no banheiro e as lágrimas, então, se sentem livres para caírem em paz. Respiro fundo diversas vezes, converso comigo mesma, olho meu reflexo no espelho e me pergunto onde estou aqui dentro. Olho no olho, mas parece não fazer sentido.”

O relato acima foi escrito no momento da crise.

Às vezes, é como se eu sentisse absolutamente tudo, mas em dias ruins é como se não houvesse nada que pudesse me tocar. Nesse instante, entre lágrimas e dor...sim, a dor é a pior parte e ela é real. Durante esse meio tempo, encontro uma navalha, preciso me encontrar aqui dentro se é que estou aqui ainda.

Corto-me. Ao olhar o corte pelo espelho, sinto a dor, e parece prazerosa, consigo sentir-me, estou aqui dentro...ainda estou viva. Sentir-me parte do ambiente, então, mais alguns cortes - não eu não quero me matar, não quero holofotes, não quero mostrar para o mundo que me corto e, muito menos, criar uma rede social descrevendo cada corte. A finalidade disso tudo é apenas sentir a vida, sentir que faço parte desse corpo.

Os cortes não cessam, e até acho bonito quando me encaro no espelho vendo o sangue escorrer. Encontro uma certa beleza ao ligar o chuveiro, em meio às lágrimas, vendo tudo se dissolver. Nesse estágio, é como se eu estivesse anestesiada, e num momento de loucura saio do banheiro mais feliz, diria até que mais viva. A crise passou, pelo menos por algumas horas.


Daniela Santos

Se sua mente parar de duvidar das verdades, parte de você já estará morta..
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