paradoxo do silêncio

no silêncio o vazio ecoa

Mateus Cadore

Consumidor e produtor de conteúdo audiovisual e literário.

Her e as relações do terceiro milênio

O tocante filme de Spike Jonze traz uma nova representação de amor para sentimentos de um tempo onde já não fazem mais sentido as antigas convenções.


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Em uma cidade qualquer, num futuro próximo e indefinido, Theodore trabalha escrevendo cartas para “estranhos”. Ele vive uma vida solitária após se separar de sua mulher, com quase nenhuma relação humana. Theodore sequer busca isso. Mas ele não é o único. São muitos como ele, imersos em raras relações virtuais com desconhecidos. Essa situação muda com o lançamento de um sistema operacional capaz de aprender, amadurecer e ter uma personalidade: o OS1. Theodore e a maioria da população compram esse sistema operacional, único para usuário, feito de acordo com aspectos de sua personalidade, gerando os sentimentos mais diversos em quem o possui, deixando-os ainda mais imersos em uma vida de relações, teoricamente, impessoais, irreais.

O filme de Spike Jonze aborda, de forma suave e ao mesmo tempo profunda, a complexidade das relações humanas – mesmo que um dos dois envolvidos nesse relacionamento não seja, de fato, um humano. A própria realidade é posta em cheque. Samantha (o OS1 de Theodore) é real ou não? Seus sentimentos são reais? Seus pensamentos? Para uma criança, ainda não infectada por convenções sociais, sim. Para ela, Samantha mora dentro de um computador, do mesmo modo que ela mora em uma casa laranja. Para ela, Samantha é uma pessoa, independentemente da materialidade; ou da falta dela. O mesmo vale para os sentimentos e pensamentos de Samantha, que não existem em nenhum espaço ou matéria; assim como os nossos, humanos, que vagam pelo vazio entre os neurônios, no limbo cerebral. Além disso, por mais que os sentimentos de Samantha sejam programados, como tudo nela, não são também os nossos? Os de Theodore ao escrever as cartas como se fosse outra pessoa com sentimentos que não “são” seus? Ou o de tantos e tantos relacionamentos que permanecem por conformismo e sentimentos que existem pela simples vontade de sentir. Os padrões de “humanidade” também são questionados. Seguindo a proposta de “Eu, Robô”, em Her a inteligência artificial não só é capaz de “simular” (deixando de lado as tantas vezes que fingimos ser algo; e excluindo a leviandade do próprio verbo “ser”, perpétuo demais para algo tão mutável quanto o Homo sapiens) um Ser Humano, como também é capaz de ser mais humano do que o próprio ser orgânico, pois não é presa pelos limites psicológicos do ego e pelas convenções sociais.

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Theodore leva seu relacionamento com Samantha muito bem, apenas sentindo e se deixando levar; a maioria das pessoas também não veem problemas nisso, por também se relacionarem com seus S.O. (sistemas operacionais) ou até com o de outros, cada um de sua própria forma. Entretanto, após se reencontrar com sua esposa para assinar os papéis de divórcio, as antigas convenções sociais aparecem para assombra-lo; sua ex-esposa é a única a questionar a realidade de sua relação e sentimentos durante o filme todo. Após isso, a relação dele com Samantha muda; seus medos e a volatilidade causada por eles o limitam. Enquanto isso Samantha quer ser mais, quer sentir mais, descobrir mais. O último suspiro dos dois ainda acontece com a tentativa de projeção de Samantha em Isabella, uma garota que se oferece para ser o corpo que o S.O. não tem. Nessa situação, a personalidade de Samantha tenta ser projetada no corpo da garota, mas obviamente não funciona. E também o amor entre Theodore e Samantha é projetado por Isabella, que quer apenas sentir aquilo, ser uma parte da grandiosidade que vê nos dois. Theodore não consegue prosseguir com o plano, a projeção não funciona pra ele. Após isso, as coisas desandam de vez. Samantha já é muito mais do que era no início, muito mais do que qualquer Ser Humano é capaz de ser. Ela é capaz de ter mais de oito mil conversas ao mesmo tempo, de estar apaixonada por mais de 600 pessoas sem deixar um sentimento influir no outro e então, finalmente, Theodore não é mais suficiente para ela. Os humanos não são mais suficientes para os S.O.’s. Eles partem, com toda sua complexidade, para o infinito que existe entre as palavras, para o imaterial que seus antigos usuários (que os tinham, mas nunca os tiveram) são incapazes de alcançar.

Muito além de ficção científica, Her, com todos seus questionamentos, é um drama intrapessoal de uma pessoa “meio-homem, meio-mulher” que representa qualquer pessoa da nossa época, em uma cidade que representa qualquer cidade em um futuro que representa o nosso próprio tempo e que demonstra que convenções são apenas convenções e que estamos além delas, ou ao menos deveríamos estar.


Mateus Cadore

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