paradoxo do silêncio

no silêncio o vazio ecoa

Mateus Cadore

Consumidor e produtor de conteúdo audiovisual e literário.

Jagten e o justiceiro

O filme de Thomas Vinterberg mostra uma comunidade caçando uma pessoa acusada injustamente de um crime e traz a questão: por que atitudes assim ainda acontecem em uma civilização "desenvolvida"?


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Lucas foi acusado, julgado, sentenciado e punido sem direito de defesa; não pelos órgãos competentes e sim pelo povo de sua cidade. Mas Lucas não mora no Brasil, onde isso (infelizmente) acontece com frequência; Lucas mora na Dinamarca, um dos países ditos mais desenvolvidos do mundo. Jagten (A Caça), de Thomas Vinterberg (2012), relembrou para o mundo que o cinema dinamarquês não se resume apenas em Lars von Trier e Dogma 95, ao levantar a questão: como uma pessoa querida por toda uma cidade pode de uma hora para a outra virar um monstro, alguém que merece a morte, sem prova alguma de ser culpado?

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Jagten expõe ao espectador repetidamente como Lucas é um cara bonzinho: é um ótimo amigo, ótimo professor de jardim de infância, ajuda crianças perdidas e etc. Na pequena cidade onde mora todos os conhecem e o admiram. Até que um dia, uma garotinha (filha de seu melhor amigo), que projetava nele o início de sua sexualidade para ele, insinua para a diretora da escola que viu o seu pênis – isso logo após ter seus impulsos negados por Lucas, que a repreendeu pelo um beijo que Klara o dera e um coraçãozinho que ela o entregara. Grethe, a diretora, aceitou essa insinuação como verdade e, sem dar chance de defesa para seu funcionário, o sentenciou como pedófilo. Como se não bastasse, Grethe ainda espalhou a sentença para toda a comunidade, muito antes de qualquer pronunciamento policial ou judicial.

A partir daí, a vida de Lucas desmoronou. Seus amigos, sua namorada, praticamente todos que conhecia o condenaram sem sequer cogitar a possibilidade de inocência. De toda a cidade, apenas seu filho e um amigo acreditaram e lutaram pelo professor infantil – ambos também foram vítimas de violência por isso. Mesmo sendo agredido pela população e preso injustamente Lucas se manteve como um “cara legal” (submisso), e as agressões ainda assim continuaram; até mesmo depois de ser provado inocente atentaram contra sua vida, uma clara mensagem de que ele nunca estaria seguro novamente.

Antes de aprofundar a análise, vale lembrar que pedofilia e qualquer outro tipo de abuso sexual são atos completamente abomináveis, inclusive para quem desconstrói normas sociais. Justamente por ser tão abominável esse tipo de crime foi escolhido para acusar Lucas, já que nenhum outro crime traria tamanha revolta popular.

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Por que um povo tão “evoluído” e “educado” teria ações tão “primitivas” mesmo sem comprovação do crime ou até sabendo da inexistência do mesmo? Klara agiu narcisicamente e punir quem rejeitou suas pulsões a fim de reconstruir sua autoestima, mesmo que inconscientemente; estando na tenra idade ela não tinha noções dos danos que causaria e nem um superego desenvolvido o suficiente para frear suas impulsões. Já Grethe, experiente e estudada, destruiu de vez a reputação de seu funcionário também por questões egoístas: para se sentir aceita pela comunidade, uma heroína por entregar o monstro. Apesar de educada a suprimir seus impulsos agressivos, ao surgir uma situação onde a agressividade é aceita pela comunidade, Grethe aceita a oportunidade sem pensar nas consequências, do mesmo modo que a criança. O mesmo se repete no restante dos habitantes da cidade, que ficam livres para agredir aquele que feriu o pacto social. Expurgado por aquela comunidade, fica socialmente aceito puni-lo sem empatia, sem questionamentos; afinal, agora é visto como um ser grotesco e inferior, um sub-humano (exemplos de tratamentos semelhantes com pessoas diferentes da norma são tão gritantes quanto silenciados na sociedade ocidental).

O justiceiro extravasa a energia de suas pulsões recalcadas, especialmente suas frustrações sobre injustiças que ele acredita ter sofrido porque projeta no “criminoso” a culpa dessas frustações. Porém, essa é só mais uma válvula de escape da agressividade e – assim como várias outras já representadas em filmes como Fight Club (David Fincher, 1999) ou The Purge (James DeMonaco, 2013) – pode acontecer independentemente de quão desenvolvido ou adestrado seja a pessoa. A sociedade, inclusive, estimula várias dessas válvulas de escape para manter os seus componentes relativamente estáveis.

Esse impulso do animal Homo sapiens que ainda reside nesse corpo orgânico está em todos, independente de grau de escolaridade, etnia, raça, credo ou o que for - por mais que neguemos tão fortemente que somos animais. Mas vamos deixar questionar se o ser humano é ser racional ou animalesco para outra hora.


Mateus Cadore

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