paradoxos

[...]O paradoxo deverá ser, penso eu, o espelho que a história usa para debochar de nós.

Fabiano Gomes (Fabs)

"Sou uma contradição que chega, em certos casos, a se opor às razões do pensamento humano ou nega o que a maioria tende a acreditar, sou um comediante, sou um paradoxo".

The universal: Interpretação de um clipe mecânico

Reflexão sobre “The Universal”, composição da banda inglesa de rock alternativo Blur e a sua forte homenagem a obra prima de Anthony Burgess, “Laranja Mecânica”, bem como sua adaptação para o cinema dirigido por Stanley Kubrick.


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Imagine um local sublime em sua totalidade, tendo uma pureza de ambiente um tanto quanto utópica e perturbadora, nesse momento quatro companheiros observam os trejeitos de pessoas mascaradas (ou acorrentadas pelos seus contratos sociais, como preferir) enquanto, pelo efeito da bebida, tudo se desconstrói e os verdadeiros rostos aparecem. Este é o magnífico inicio do clipe da musica “The Universal” da banda inglesa de rock alternativo, Blur. Claramente uma homenagem a Anthony Burgess que em 1962 escrevia aquela que seria considerada sua obra prima, “Laranja Mecânica”, assim como a consagrada adaptação cinematográfica de 1971, pelas mãos de Stanley Kubrick.

Assim como no romance, o videoclipe consegue transparecer em suas entrelinhas as amarras que estão sobre a sociedade, causando medo e apreensão, sentimentos esses que só podem ser transformados por meio de caminhos ilícitos e atos de luxuria (isso é bem evidenciado pela euforia daqueles que estão bebendo), sendo esse o estopim para o caos, ou seja, a qualquer momento a bomba poderá explodir. O sorriso de Damon Albarn, vocalista da banda, evidenciado durante grande parte do clipe, traz a tona exatamente isso, que ele consegue enxergar essa falsidade vivida pelas pessoas, esse caos instalado por debaixo dos panos, assim como Alex, o anti-herói do romance de Burgess.

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A forma como é retratada a dissimulação da população diante à corrupção e as barbaridades rotineiras é demonstrado nas cenas onde grupos de pessoas se aglomeram frente aos alto-falantes e retiram as mãos dos olhos, fingindo que nada de errado acontece, isso remete diretamente a obra de Burgess onde as pessoas tidas como “normais” preferem ficar em casa assistindo televisão a sair e ver as atrocidades que ocorrem fora de suas portas. Em determinado momento um homem com o rosto pintado, utilizando um chapéu que se assemelha aos utilizados pelos drugues, exauri um grito que o destaca da multidão. Essa é uma tentativa de demonstrar que sempre existirá aquele que vê o caos e entende que o mesmo estará em tudo, do mesmo modo sempre existirá aquele que nunca se acomodará e dará o grito da revolução, esse tipo de pessoa é corriqueiramente caracterizado como o “louco”, o exemplo a não ser seguido, ou seja, a única forma de mudança.

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Ao fim, ocorre um maior foco em dois homens que esbanjam sorrisos regados a álcool, no decorrer da trama a feição de um deles muda repentinamente ao ouvir a confidência do amigo, na cena seguinte a representação de Alex apresenta seu sorriso irônico e vai embora, deixando no ar a dúvida acerca do que foi dito entre os dois bêbados. Analisando as cenas do fim do clipe, pode-se perceber, ao fundo, que o amigo confidente rouba um beijo do companheiro, levando tal ação para um pensamento deveras filosófico, ao receber, devido a altos níveis etílicos, a confidencia de um amor reprimido por causa da sociedade, houve um choque de realidade e o mesmo percebeu o caos em que estava inserido no momento, o sorriso de irônia apenas enfatizou a comicidade da situação.

Além das referências ideológicas do livro, está atrelado ao vídeo uma gama de gestos e atributos correspondentes ao filme de Kubrick, desde cores, um bar semelhante à Leiteria Korova, roupas e até a marca característica utilizada por Alex no filme, que tem uma representação de diferenciação para o vocalista, como o líder.

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Levando em consideração a letra e a melodia pode-se perceber que: A melodia se assemelha, em parte, as grandes sinfonias, ligando a música ao Anti-herói, que era fã de Ludwig van, sem contar as variações harmônicas que a deixam com um tom caótico e, ao mesmo tempo, de tranquilidade. A letra tem um cunho filosófico muito abrangente que, de forma proposital, alia-se a um pensamento de solidão, melancolia e lucidez que pairam na mente de uma pessoa que entendeu o caos da sociedade. Com isso pode-se associar a letra da musica à uma interpretação da mente de Alex. Logo no início da canção o ouvinte é situado no tempo que a música remete quando é dito que “este é o próximo século...” ou quando se é expresso que “o futuro foi vendido”, esse “futuro” pode ser a ambientação da época que o autor descreveu no livro.

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Em determinado momento quando se é cantado “ninguém mais está sozinho, satélites estão em todas as casas” é evidenciado a dominação exercida pelo governo, o mesmo governo que utiliza de Alex para teste do tratamento Ludovico tornando-o assim “privado do livre arbítrio”.

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Entretanto o trecho que mais chama atenção no quesito interpretação filosófica (aliada a obra de Anthony Burgess) é o refrão da musica, sendo: “Sim isso realmente realmente realmente pode acontecer, quando os dias parecem passar através de você, apenas deixe-os ir”, o refrão evidência uma melancolia de vida, sendo que é algo que extrapola os dramas superficiais, pois demonstra a própria falta de vontade de viver de alguém que já está cansado do sistema e não dá importância para os acontecimentos diários, deixando propenso a um “estouro” uma mudança drástica do modo de vida que o faça sair dessa rotina monótona, isso pode se equiparar ao romance se pensarmos no jovem Alex, antes de se tornar um sociopata e de ser fascinado pela sua ultra-violência.

Quem garante que ele não era apenas mais um jovem acometido do tédio oriundo do ócio da vida, algo que poderia acontecer com qualquer um de nós, apenas esperando os dias passarem, e então, se tornando o que era pra ser.

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Em suma, o mundo musical tem uma variedade gigantesca de bandas, assim como de músicas, dos mais diversos tipos, todavia, existem composições que se sobressaem e caem nas graças do povo muito rápido, assim como existem aquelas que são maravilhosamente bem produzidas e que te transmitem um conhecimento enorme, porém não tem a visibilidade que merece, The Universal é uma delas. Por fim, escute a música, se possível assista o clipe para tirar suas próprias conclusões e viva à ultra-violência!


Fabiano Gomes (Fabs)

"Sou uma contradição que chega, em certos casos, a se opor às razões do pensamento humano ou nega o que a maioria tende a acreditar, sou um comediante, sou um paradoxo"..
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