paradoxos

[...]O paradoxo deverá ser, penso eu, o espelho que a história usa para debochar de nós.

Fabiano Gomes (Fabs)

"Sou uma contradição que chega, em certos casos, a se opor às razões do pensamento humano ou nega o que a maioria tende a acreditar, sou um comediante, sou um paradoxo".

Qual é nossa guerra?

Um ensaio sobre as Gerações: Do Beatnik à nossa Guerra interna.


enhanced-buzz-wide-20861-1338324633-14.jpg

Acordei, eram umas dez horas da manhã, havia passado uma madrugada de insônia desmedida, sendo assim me dei ao luxo de dormir um pouco mais, uma vez que meus compromissos para o dia não eram tão urgentes. Ao levantar, fui direto ao encontro de minha prima que, assim como eu, havia passado a noite anterior preparando currículos para sair em busca de emprego, são tempos difíceis para os sonhadores.

Ela estava sentada em frente ao seu computador pessoal, olhando as redes sociais e sites de fofoca, tal qual qualquer outra jovem de mesma idade. Peguei o pen drive onde havíamos salvo os currículos e sai para imprimí-los, deixaríamos alguns durante a semana. Na modesta lan house (devo admitir que me surpreendi ao constatar que ainda existiam lan houses), eu imprimi alguns currículos e, enquanto eram impressos, fiquei procurando, entre algumas revistas que estavam à venda, algo que me chamassem atenção. Em meio a revistas sensacionalistas que tentavam expor a vida dos famosos e livretos de palavras cruzadas eu encontrei uma revista de historia, era uma edição antiga, estampava em sua capa alguns artigos em destaque, entre eles um sobre Jack Kerouac o ícone da contracultura. sai do estabelecimento com duas edições de novelas policiais, a revista de historia, um livreto de palavras cruzadas e os currículos. Seria meu entretenimento naquela tarde de descanso.

voltei para casa, usei por um momento o computador de minha prima, para enviar alguns currículos online, como tinha acabado de me formar eu deveria, segundo a sociedade capitalista e a pressão do ego familiar, trabalhar em qualquer lugar e com qualquer coisa, mesmo que meus auspícios internos fossem mais elevados, o que pouco importa nos dias de hoje. Almocei e sentei na varanda para me deleitar com os artigos da revista recém adquirida.

kerouac-timthumb.jpg

"eu estava no fim da America, no fim da terra, e não havia mais para onde ir, a não ser voltar." Com essa frase, do próprio Kerouac, o artigo começava, ao ponto que ia lendo e ia me aprofundando no modo de visão existencialista do mesmo e, extraordinariamente, entendendo o porque, ou melhor os porquês que levaram Jack a ser o que era, o rei dos Beat. Rémi Kauffer escreveu aquilo com uma facilidade que só poderia, escrever tão fluidamente, quem viveu naqueles tempos.A cada linha lida eu refletia no quanto minha história se assemelhava com a de Kerouack, tendo algumas ressalvas, obviamente. Jack não tinha pudores de viver, o que era e ainda é algo que tento exercer sobre mim,tanto por não conseguir me enxergar nos padrões do meu tempo, quanto por não entender a pressão e a incoerência de sobreviver, sim sobreviver e não viver plenamente; buscando, a partir do autoconhecimento e de experiências de vida, uma vida onde a verdade sobre si mesmo bastaria como busca pela felicidade. Devo admitir que, durante a leitura, procurei entender como ele havia conseguido, que caminhos percorreu, e como eu conseguiria, também, me libertar. um fato me chamou atenção, tudo aquilo, que Jack viveu, o que acarretou em sua escrita ensandecida e vivida, tudo aquilo era em tempos de guerra. Aquele fato me pertubou, seria Kerouac, apenas Kerouac, devido a guerra?

jack-kerouac.jpg

precisava refletir, então fui a minha outra casa, a casa de meus pais, onde poderia ficar sozinho e pensar na minha exigência. Sentei no quintal, tomei posse de uma garrafa de café e de alguns cigarros amassados e, com a revista em mãos, reli o artigo. Assim como Jack eu também havia feito viagem sem planejamento, pegando caronas; assim como Jack eu tinha companheiros virtuosos na luta pelo entendimento de nossa geração; assim como Jack eu havia me perdido nas noites em busca de esquecer as regras e as tristezas mundanas, contudo eu não era Jack, e muito menos queria ser, cheguei a conclusão que não queria e não poderia. O espírito livre de Jack não poderia ser duplicado, o tempo urge, e com ele, a geração segue novos rumos e trava novas batalhas. Ao fim do artigo algo ficou na minha mente, martelando, qual seria a batalha da minha geração? Qual seria minha guerra? Continuei a leitura da revista, na tentativa de que minha mente espairecesse, folheei sem compromisso, entre um gole de café e outro, até ser presenteado com o artigo de Rodrigo Mehreb, cujo o nome me fez parar e ascender um cigarro, o artigo se chamava "Rock: A trilha sonora da revolução".

woodstock.jpg

Esse esplendido texto trazia uma explanação geral de como um gênero musical incitou toda uma geração, mudando os rumos do ativismo político e dando força a chamada contracultura. Admito que meus olhos brilhavam ao ler, e os cabelos de meus braços se ouriçavam, mesmo já tendo conhecimento de muita coisa que ali estava escrito. Mehreb citava de forma belíssima, músicas, produções audiovisuais e produções textuais que deram energia ao movimento, assim como, explicava fatos e acontecimentos históricos que deram víeis à uma tentativa de mudança radical, de pensamento de uma juventude inconformada com seu tempo. Se Kerouac era um viajante sem destino, eles, os jovens da década de 60/70, eram os rebeldes com causa; e qual era essa causa? Novamente a guerra, a maldita guerra. Minha mente não parava para respirar, li, reli, ao todo li esse artigo cinco vezes, sempre com o mesmo pensamento que não me queria deixar em paz, " qual seria minha guerra?".

Bobbi-Kelly-and-Nick-Ercoline-Woodstock-1969-631.jpg

Todos tinham a sua, os Beatnik e sua batalha contra o mundo que parecia planejado, a geração do Rock e sua alma revolucionaria contra a guerra sem sentido no Vietnã, e assim, antes e depois disso, toda geração tem suas batalhas, tem suas motivações de mudança, e mesmo muitos dizendo que nossa geração luta contra a corrupção, contra o preconceito e contra a desigualdade, o que sem sombra de duvidas, é uma luta extremamente válida, todos nós, jovens nascidos na década de 90, sabemos que falta algo, temos ciência que nos falta uma guerra. Longe de mim afirmar uma necessidade de um embate em grandes proporções, para termos um sentido de vida, não interpretem mal, a guerra na qual falo é puramente filosófica, nos falta um acontecimento e/ou um pensamento que mova as maças jovens. Necessitamos de uma guerra contra nós mesmos. Nos falta a coragem do desprendimento, nos falta a vontade de mudança,nos falta a capacidade que as gerações passadas tinham, a capacidade de perceber nossa importância na história mundial. Estamos acomodados.

Woodstock-show.jpg

Talvez a guerra da nossa geração seja outra, talvez seja psicológica. Acordem irmãos e batalhemos nossa própria guerra.


Fabiano Gomes (Fabs)

"Sou uma contradição que chega, em certos casos, a se opor às razões do pensamento humano ou nega o que a maioria tende a acreditar, sou um comediante, sou um paradoxo"..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/// @obvious, @obvioushp //Fabiano Gomes (Fabs)