paradoxus

aquilo que não é humano, nem sempre é desumano

Cátia Rodrigues

Psicóloga, Professora Universitária, Pesquisadora da Essência Humana. Paradoxal desde o início, acredita que viver é sempre buscar ampliar horizontes.

Ciúmes

Não adianta se morder, nem tentar se justificar, ou se enganar: ou é vaidade, ou é insegurança, ou as duas coisas. Mas amor, ah!, amor é liberdade.


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É um delírio de que alguém possa possuir outra pessoa. De que alguém possa ser da sua propriedade.

Delírio muitas vezes mascarado de amor e cuidados mas, no fundo, somente enquanto se domina e governa a vida do suposto objeto do (também suposto) amor sentido, visando não o bem estar dele, o amado, mas a satisfação dos próprios desejos em relação a si mesmo. Muito ou pouco, todo mundo já sentiu tal delírio de posse pois, de fato, nascemos todos egocêntricos e egoístas, nadando nesse delírio que tudo o que nos rodeia existe em nossa função e a nós pertence.

A criança mal fala, mas já se refere a tudo o que vê com o pronome possessivo: minha mãe, meu pai, meu patinho amarelo de borracha – mesmo que tenha outros irmãos ou o brinquedo seja de outra pessoa, não usa os pronomes “nosso” e “seu”. Faz parte do desenvolvimento emocional e cognitivo humano, no entanto, ir compreendendo que nem tudo lhe pertence. Aliás, quase nada se pode efetivamente chamar de seu, sobretudo, pessoas. Ter algo, ser dotado da posse em relação a alguma coisa, supõe pleno direito de uso, liberdade e poder de decisão sobre o objeto. E vidas não são coisas.

Meu irmão, minha amiga, minha filha, meu chefe: vícios de linguagem de uma cultura possessiva, em que nenhuma das referidas pessoas são, realmente, propriedades do sujeito que faz a frase mas, antes, são seres que com ele se relaciona. A coisa se enrola ainda mais quando falamos de relacionamento afetivo de pares sexuais.

Dada a natureza humana e o reforçamento sócio cultural, todos nós sentimos ciúmes, mesmo que em minúsculas ondas, em situações de risco de perda da relação com o objeto amado, seja num namoro recente ou num casamento sólido de décadas. Considerando pessoas equilibradas emocionalmente, isso não é um problema, não se torna obsessão nem pensamento recorrente, não tira a pessoa da sua harmonia pessoal nem a atrapalha no desenvolvimento de suas atividades habituais.

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Mas existe um nível de profundidade nesse sentimento que leva a pessoa ciumenta a viver um verdadeiro inferno, bem como a fazer da vida da pessoa amada um inferno ainda maior. Geralmente associado a pessoas carentes, inseguras e com baixa estima por si mesmas, o ciúmes é projetado no ser amado como ameaça constante de abandono e traição. O ciumento deseja e exige do amado que viva em exclusividade para ele cada vez mais, limitando sua liberdade, controlando suas atividades, fazendo verdadeiros inquéritos cheios de desconfiança contra a pessoa que declara amar.

Esse tipo de ciúmes é patológico, doentio. O ciumento acaba por ter recorrentes pensamentos sobre ser enganado, pode ficar obsessivo por esse assunto, chegando a atrapalhar o seu próprio desenvolvimento nas tarefas cotidianas. Nesse nível, não agrega qualquer valor ou segurança à relação do casal. Ao contrário, por causa dos comportamento compulsivos de investigação do ciumento contra o seu parceiro, o ciúmes geralmente é a causa de rompimento da relação, ou de adoecimento psicológico da pessoa amada pela pessoa com ciúmes patológico. Em níveis extremos, o ciúmes doentio pode se transformar em pressão psicológica e a pessoa se torna invasiva, desrespeitando a privacidade da vida pessoal do seu parceiro: usa as senhas do parceiro para acessar suas contas pessoais de mensagens e redes sociais (secreta ou deliberadamente), exige que o companheiro prove que suas fantasias de abandono e traição não são reais, revista seus pertences, faz escândalos privados ou públicos com motivação ciumenta. E, por mais que o então parceiro seja uma pessoa correta, leal e sincera, nenhuma prova jamais é suficiente; não encontrar evidencias de que está sendo enganado deixa o ciumento ainda mais ansioso com a situação do relacionamento.

Ciúmes não é prova de amor, é prova de insegurança pessoal. Amor é relação, jamais dívida e propriedade. Não é fácil trocar padrões de comportamento de uma hora para outra, mas é importante reconhecer quando se passa do limite aceitável para uma boa convivência social, e se adentra os caminhos da insanidade. Nesse caso, a pessoa que percebe que o ciúmes que sente a atrapalha, precisa reconhecer que tem um problema e que causa diversos outros na vida de quem convive com ela. É necessário procurar ajuda médica e psicológica, buscando encontrar as soluções para esse desafio, trocando padrões de comportamento, compreendendo a natureza do medo sentido.

E, então, é possivel descobrir-se íntegro e inteiro para desfrutar uma relação plena com outra pessoa - não pela posse, mas pela entrega voluntária dos amantes.


Cátia Rodrigues

Psicóloga, Professora Universitária, Pesquisadora da Essência Humana. Paradoxal desde o início, acredita que viver é sempre buscar ampliar horizontes..
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