paradoxus

aquilo que não é humano, nem sempre é desumano

Cátia Rodrigues

Psicóloga, Professora Universitária, Pesquisadora da Essência Humana. Paradoxal desde o início, acredita que viver é sempre buscar ampliar horizontes.

Extra! Extra! Procura-se o Espírito do Natal: Urgente!

Recompensa-se com Alegria, Amor e Paz no coração!


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2015 não foi um dos melhores anos para o Planeta. Conflitos políticos, crise econômica, terrorismo exacerbado, desrespeito à vida e à natureza, tragédias naturais. As constelações astrais não devem terem sido favoráveis para o Planeta Terra. Mas o mundo continua girando, a vida vai se reinventando e a gente... bem, a gente vai suportando, se virando como dá. Mas não é porque o ano foi terrível que a gente esquece o sentido das coisas e da vida. Até parece que o Grinch tá solto esse ano! Poucas luzes na cidade, pouco enfeite nas casas, pouca generosidade nos corações. Até aquelas musiquinhas de natal deram lugar ao Funk Batidão nas lojas populares de rua. Apesar da crise, parece que o Natal se reduziu este ano ao consumismo vazio de significado e de sentimentos, restando apenas as aparências – quando restaram. Cheguei a ver um pretenso Papai Noel flertando com a mãe de uma criança, sem barba branca e menos ainda cara de bom velhinho.

Se todo mundo ama o Natal na infância, se esperávamos ansiosos pelo velhinho arquétipo de bondade e fartura, o que acontece na vida adulta que reduzimos a data a consumir desenfreadamente, seja comida, bebida ou bens de consumo fúteis e inúteis? A meu ver, esvaziamos o sentido e o significado do Natal. Deixamos de celebrar seus valores e de viver sua espiritualidade (independente de religiosidade). Passamos a concentrar mais energia no presente e em seus papéis de embrulho, e esquecemos a presença das relações humanas. Trocamos o conteúdo pelo contorno vazio.

Antes do Cristianismo, a data já comemorada pelos berços das culturas ocidentais, Grécia e Roma, celebrava o Solstício de Inverno no hemisfério norte, o início do inverno ali. Tempo de fechamento, de revisão, de gratidão pelos frutos colhidos na produção daquele ciclo que se encerrava. E, por isso, banqueteavam, celebravam a igualdade, confraternizavam. Saturnália era o nome da festa, muito popular no Império Romano no século IV, quando o Cristianismo torna-se a religião oficial do Império. Pouco a pouco, a data do nascimento da figura central do Cristianismo, Jesus, comemorada até então em 6 de Janeiro, acaba sendo conjugada com 25 de Dezembro, já tradicional na cultura Romana. E somam-se os sentidos espirituais à data: se, por um lado se tem gratidão pelo ano, por outro celebra-se o nascimento da esperança e do amor salvador da humanidade.

A meu ver, independente das verdades bíblicas ou históricas, é imperativo que 17 séculos de celebração natalina no ocidente consolida a data, por bem e tradição, como uma reavaliação da vida, dos nossos relacionamentos e atitudes, como tempo de perdão, reconciliação, alegria, amor e paz para as pessoas, para os povos, e para as crianças. O que me assusta é como que em tão pouco tempo, entre o século XX e XXI, a data se tornou tão vazia, tão cheia de exageros alimentares e alcóolicos, competitiva e meramente consumista, onde o amor é caricaturizado com o clichê de meias de presente.

Seja quem for sua família, numa casa cheia de tias de seios e quadris fartos falando alto ou apenas com dois gatos que se aninham em seus pés, seja um grupo de amigos que formam uma liga estrangeira num lugar inóspito do mundo, ou seu amorzinho ao seu lado numa mesa com luz de velas, você pode recuperar o sentido dessa data. Não é preciso comprar presentes; é preciso estar presente. Ninguém se importa se você vai dar meias, mas se seus abraços podem ser sinceros e vibrarem energia calorosa. A gente não é suprassumo nem unanimidade para perder a paciência com aquelas mesmas perguntas indiscretas da avó ou as piadas manjadas do tio; dá pra rir, ser legal de verdade com eles. Afinal, amar é também acolher as diferenças. Dá pra encher o coração ao ver as crianças esperando o Velho Imaginário que as conhece todas. Mas, se não tiver crianças, dá pra praticar a generosidade com a prima invejosa, e nem contar que você emagreceu 5 quilos esse ano. Ou, só por esta data, sorrir pra cunhada e pro cunhado sem esperar que ele e ela possam ser legais (vendo por outro ângulo, você é a cunhada/o chato).

Esse é o Espírito de Natal, foragido por força do consumismo, excluído por força do nosso secularismo. Se você procurar com atenção, capaz de encontra-lo aí, nos galhos da árvore de Natal, entre as rabanadas que a avó fez, naquelas tradições bobinhas que repetimos todo ano. E, garanto, pra quem encontrar tem recompensa: livrar-se do cinismo e da amargura por um momento de ingenuidade e pureza, com alegria, paz e amor no coração.


Cátia Rodrigues

Psicóloga, Professora Universitária, Pesquisadora da Essência Humana. Paradoxal desde o início, acredita que viver é sempre buscar ampliar horizontes..
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