paradoxus

aquilo que não é humano, nem sempre é desumano

Cátia Rodrigues

Psicóloga, Professora Universitária, Pesquisadora da Essência Humana. Paradoxal desde o início, acredita que viver é sempre buscar ampliar horizontes.

Se nada der certo...

É hora de viver de Verdade. Mas para isso, é preciso ter coragem.


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Dentro de cada um de nós existe uma luz guardiã dos sonhos. É uma criança que brinca e que tem todo o futuro pela frente, todo o amanhã se levantando no horizonte. É a pessoa idosa cheia da sabedoria existencial que só o tempo agrega à consciência, e que sabe que quando o sol se põe, um dia termina, mas a vida continua, e renasce o sol em algum lugar. Esse centro energético de luz, infância e sabedoria que habita a vida humana fomenta, desde a pré história, aos dias de hoje, todos os desejos, bem como a esperança e o movimento para a construção da abundância e desenvolvimento da humanidade. De toda humanidade e da humanidade em cada um. É a parte mais iluminada do Ser Humano, é o que nos motiva a levantar das quedas, a cuidar das feridas, a acolher o bicho e a gente, a preservar a Terra – mesmo que de dentro do apartamento na periferia de um grande centro urbano.

Antes da ideia de competição de espécies para sobrevivência, esse princípio de vida é a solidariedade que promove a unidade e a manutenção da vida compartilhada. Em algum momento, no entanto, nos tornamos sombrios, cínicos ou céticos, e o desespero substituiu a esperança, e o medo tomou lugar da fartura: deixamos de viver para sobreviver, numa frieza afetiva que nos leva às guerras. E já que escolhi escrever em linguagem figurada, alerto: guerras efetivas, entre nações e exércitos mas, sobretudo, guerras internas, entre emoções e afetos.

É hora de viver de verdade. De curar corações partidos por todo tipo de violência e trauma que se vem sofrendo do nascimento até aqui. De mudar as lentes e poder olhar com clareza a vida. De transmutar a dor em aprendizado e sabedoria, e fazer a real transformação do mundo: a do seu mundo interior. É tempo de amar a Terra e cuidar dela e de cada um dos seus habitantes como sua casa e sua grande família. E não é fácil.

Porque para se viver de verdade é preciso ter coragem. Coragem. A ação que vem do coração, não esse de carne e sangue que pulsa dentro do peito, mas o coração do Ser, o centro energético que pulsa a vida em cada um de nós. Mas há muito tempo deixamos de ouvir o coração. Resolvemos nos apoiar na Mente, que tantas vezes, tagarelando entre medos e fantasmas, nos mente. E, crendo em suas mentiras e enganos, deixamos de viver para sobreviver, sem reconhecer a voz intuitiva do coração, portadora da coragem necessária para a vida plena e abundante.

A voz que nos diz para confiar e parece ingênua é, antes, sábia. Você está aí, parado, lendo este texto, comendo um petisco e ouvindo uma música, tudo ao mesmo tempo e sem concentração em nada, crente de que está no controle da vida e que não pode confiar em ninguém, responda: quem está no comando dos seus batimentos cardíacos agora? Quem, neste planeta, tem inteligência e tecnologia para, neste exato momento, reger o ciclo lunar ou o movimento dos planetas em torno do sol? Não, não é você, nem sou eu. É algum tipo de harmonia superior à nossa existência e consciência, que você pode chamar de natureza, física ou dar um nome sagrado – mas que, sem dúvida, não se controla, mas se pode confiar. O coração nos ensina essa confiança corajosa: não em si mesmo, prepotente; não no outro, impotente; mas na vida, polivalente.

Essa voz interior que fala de cura e confiança, de cuidados e nutrição, de amor e força, nos leva ao auto conhecimento necessário para realizar nossos sonhos através do desenvolvimento contínuo de nós mesmos. Ela nos chama para dentro, para que possamos viver aqui fora. Viver de verdade: sem acúmulo de natureza material, mas com fartura compartilhada; sem o desperdício do alimento ou do tempo, mas com o sabor de cada sensação desfrutada. Viver com gratidão. Gratidão, de graça, em graça: viver na presença daquilo que nos transcende e é Sagrado, ou seja, em plenitude e abundância, sem medos, mas com confiante coragem para construir um mundo novo.

Hoje, ao pôr do sol, observe no horizonte aquela figura idosa de mãos dadas com a criança andando sobre a luz. Experimente olhar para além do mundo físico, e reencontre suas verdades mais secretas. Ouse acender uma estrela no coração quando a noite cair, e a acompanhe pelo universo sideral refletido em sua alma até que ela lhe indique a direção da realização da sua pessoa. Faça uma fogueira que ilumine sua escuridão, e que aqueça sua solidão, acolhendo ao seu redor aqueles pares que vai encontrar nesse caminho que vai percorrer. Aceite viajar pela vida, sem a falácia das certezas racionais, mas com a proteção da sabedoria inconsciente da própria essência.

Assim, se nada der certo, ao menos você viveu de verdade. E terá sido você mesmo – o que é bom o suficiente.


Cátia Rodrigues

Psicóloga, Professora Universitária, Pesquisadora da Essência Humana. Paradoxal desde o início, acredita que viver é sempre buscar ampliar horizontes..
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