paradoxus

aquilo que não é humano, nem sempre é desumano

Cátia Rodrigues

Psicóloga, Professora Universitária, Pesquisadora da Essência Humana. Paradoxal desde o início, acredita que viver é sempre buscar ampliar horizontes.

Só porque é triste o fim

Ninguém disse que o parquinho do Amor era um lugar seguro. Mas ainda assim vale a pena descer no play para brincar e ser feliz. De qualquer forma, se criança aprende brincando e caindo e levantando, ser gente grande se aprende amando, apartando e deixando fluir.

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Tem uma música brasileira cuja letra diz que as lágrimas choradas eram por ninguém, só porque era triste o fim. Eu nunca tinha prestado atenção especificamente neste trecho até o início da juventude, aos 20 e poucos anos, quando tinha rompido um relacionamento com uma pessoa de quem eu não gostava mais, mas que nem por isso eu estava chorando menos. Uma querida amiga, diante do meu ingênuo questionamento, acalentou minha alma, cantando a música para mim. E a arte, com o amor da amiga, consolaram o meu coração. E trouxeram sabedoria para os desalentos dessa vida.

Todo fim pode ser triste porque traz em si as memórias de um momento feliz vivido com alguém. Seja um namoro que termina, um desligamento profissional, um casamento rompido: mesmo que seja você a quebrar o compromisso, e sem ter qualquer arrependimento pela decisão tomada, você tem o direito de ficar triste e chorar. Se houve o rompimento, é porque houve antes uma unidade; e se houve unidade, em algum momento houve prazer, alegria e esperança, desde aquela longínqua decisão de se estar junto, até quando as ideias de rescisão começam a aparecer no coração de um dos pares.

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São pequenas minudências, detalhes singulares, memórias sensoriais tão vívidas e reais que se relacionam só àquela situação que se finda: o apelido de um pássaro, a esquina onde se deu um amasso, um lugar muito frequentado, um segredo ou piada do casal, uma comida ou uma música compartilhada, as coisas boas da relação, o espelhamento do seu ser no olhar do outro. Todo rompimento finda com as angústias e pesares duma relação, abrindo expectativas de novos horizontes. Mas também cessa com a riqueza singular que só se obtinha ali, com o outro a quem, agora, não queremos (ou não podemos) mais ficar lado a lado.

Por isso é triste: não é porque especificamente se ame ainda ou se tenha apego ao outro, mas porque a partir dali tudo será diferente, e todos nós temos certa nostalgia pelo que é a nossa história pessoal. Sempre que eu for à Paris, vou me lembrar do nosso sonho não realizado de irmos juntos lá. Quando eu passar na rua da empresa, vou lembrar das conquistas feitas ali. Quando eu visitar as crianças do meu irmão, vou lembrar dos filhos que não tivemos juntos. Quantos sonhos, realizados ou não, quanto alimento e cama compartilhados, planos construímos, dificuldades superadas estão envolvidas num rompimento?

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E choramos. Às vezes por apego, às vezes por medo, às vezes por baixa auto estima, por raiva, desespero, abandono. Mas, sempre, sempre choramos por ser triste o fim. Sábio Vianna. E essa tristeza faz parte do processo de desvinculação do outro. Nesses tempos de ditadura da felicidade, em que temos que estar obsessivamente super hiper mega blaster bem, a qualquer preço e em toda circunstância, é preciso validar a tristeza do fim dos nossos relacionamentos. Afinal, continuamos humanos, e a tristeza é uma emoção humana básica. Assumir a tristeza e encará-la de frente não vai diminuir as capacidades de alguém ou enfraquecer ninguém. Como todas as emoções, ela também é temporária. E lidar com a tristeza permite dar atenção para algo em nós que precisa de cuidados, compreensão e resolução, além de ser um orientador para tomada de decisões.

Então, tudo bem que depois de rompimentos significativos se queira curtir uma fossa ouvindo de Reginaldo Rossi a Marisa Monte, passando por Coldplay e R.E.M., numa linda tarde de sol. Ou mesmo ficar sozinho no quarto num domingo de festa na família. Haverá no futuro o tempo da alegria novamente – mas até para que ela tenha valor, depois do “fim”, o tempo da tristeza também precisa ser honrado e vivido em essência, sem drama ou repressão. E, então, íntegros e inteiros, novamente poderemos sorrir em outros ares e perfumes que a vida poderá trazer.

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Ps: Imagens figurativas escolhidas a partir das marcas da minha recente partida pessoal. Singela homenagem a todo amor que se cumpre fiel como prescreveu Vinícius: Eterno enquanto dure.


Cátia Rodrigues

Psicóloga, Professora Universitária, Pesquisadora da Essência Humana. Paradoxal desde o início, acredita que viver é sempre buscar ampliar horizontes..
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