paradoxus

aquilo que não é humano, nem sempre é desumano

Cátia Rodrigues

Psicóloga, Professora Universitária, Pesquisadora da Essência Humana. Paradoxal desde o início, acredita que viver é sempre buscar ampliar horizontes.

Pela leveza no amor

No amor não há garantias.
A não ser a de que quando se aprisiona alguém, o amor escapa junto com a felicidade que poderia ter sido vivida.


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Já dizia alguém mais sábio que eu, a traição começa na confiança. O dito popular recomenda um olho no gato e outro no peixe. De fato, eu mesma não coloco minha mão no fogo por ninguém. Mas não é por isso que todo mundo é safado e sem vergonha, canalha e corrupto. Somos apenas humanos, com potencial para o Bem e para o Mal.

E é nos relacionamentos que essa questão mais pesa. As pessoas que se envolvem querem garantias de um amor sem fim, de uma segurança e estabilidade no vínculo que um faz com o outro. E, quando apaixonados, sempre cremos que nunca na vida amaremos com tanta devoção. Fazemos planos e promessas. Nos entregamos. Mas, confiamos realmente? Há pessoas que logo que iniciam um relacionamento afetivo, de amor ou amizade, já suspeitam do outro com que se relacionam. Esperam pelo dia do flagrante, do abando, da decepção. No plano consciente, claro, dizem o contrário: esperam que isso nunca ocorra. Mas no nível inconsciente, tanto esperam por este dia que se empenham-se com veemência para fiscalizar, controlar, e impedir o par de qualquer chance, possível ou imaginária, de desenvolver afeto por alguém diferente.

Fico impressionada com esses processos intrapsíquicos poderosos, que envolvem a totalidade da pessoa, lhe iludindo de que a realidade externa é algo que, a fundo, é o conjunto de sentimentos, lacunas, e emoções conflituosas internas dela mesma. E nessas circunstâncias, a inteligência, o pensamento, os sentimentos e a intuição ficam tão comprometidos que a leitura que faz das experiências vividas é sempre enviesada por seu mais secreto temor, sua expectativa inconsciente de traição.

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E, então, ainda que sejam adultas, essas pessoas passam o tempo brincando de detetive ou de fantoche com a vida dos outros. Controle, insegurança, dominação, ciúme, ego, vaidade: não se dão conta de que essas são formas tão perversas de relação como a traição pode lhes parecer. Querem entrar na mente e no coração alheios, e se apropriar da vida da pessoa amada. Muitas vezes, o sofrimento interno as levam a ler cartas, emails ou mensagens que não lhes foram enviados, mas que pertencem a outras pessoas. Empenham o rico tempo que a vida lhes concede buscando criptografar ou descobrir a senha do computador da namorada, do celular do marido, do Facebook do ex do atual ficante com quem se está agora. Parece surreal.

Eu acho que se poderia usar seu tempo pra ler um livro ou ver um documentário, e ficar mais atraente, mais confiante, e mais culto, por exemplo. Mas nem sempre é simples assim.

Na minha opinião, do ponto de vista moral, ler torpedo e whatsapp, ou qualquer mensagem endereçada a outra pessoa, é uma baixaria tão grande quanto aquilo que talvez se queira confirmar que o outro esteja fazendo. Não dá, no plano da consciência, para se legitimar. Não tem explicação na esfera das relações humanas civilizadas: controle e fiscalização da conduta são atitudes para se ter com crianças que, sem autonomia ou responsabilidade por si mesmas, precisam ser orientadas e dirigidas.

O que as pessoas esperam com isso? Na real? Flagrar o que? A liberdade do outro de ser e existir, de ir e vir? O que fazem os que se descobrem traídos? Amarram o namorado num cercadinho em casa? Encarceram a namorada numa jaula no terraço? Gente vigiada, gente que quer vigiar: Pessoas não são objetos, não podem ser propriedade. São livres. Ninguém nasceu para satisfazer o desejo do outro, mas se houver amor compartilhado, podemos escolher deliberadamente nos dedicar a alguém. Porém, nunca sermos obrigados a isso.

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A esta altura, eu imagino que se você for uma pessoa ciumenta se identificou em vários pontos desse texto, e pode estar se perguntando “Mas, e se a pessoa estiver mesmo sendo traída? Ela não tem o direito de saber?”. Eu compreendo o trato das relações monogâmicas, e em caso de evidência da traição, tem que se conversar sobre os limites da relação. Ninguém merece ficar sendo traído sem direito à reclamação. Mas você só consegue observar uma evidência nesse sentido quando está fora do espectro de desconfiança e controle sistemático full time.

Pessoalmente, já senti a dor de namorar alguém que resolveu namorar outra pessoa simultaneamente, quebrando o acordo entre nós sobre a exclusividade na relação. É um baita sofrimento. Mas, a sério: chorei, sofri, dei soco na almofada e na parede - e nada muda o fato de que o cara gostava de mim e da outra pessoa num nível que não conseguiu se decidir. Moralmente, ele estava errado. Psíquica e existencialmente, ele estava vivenciando um conflito interno, com diferentes interesses e valores. Diante dessa realidade, considere você o traidor como um safado ou como um cara num drama, só tem duas escolhas: ou fica com ele, ou larga dele.

Evidente que ser traído arrebenta com o ego da gente. Mas o outro tem o direito de errar, e até mesmo de amar outra pessoa. E aqui vem a chave dessa prisão mútua que, ao prender o outro, eu me aprisiono: se todos têm o direito de errar, todos têm o mesmo direito de optar permanecer com o que considera erro do outro ou romper com isso. O problema é desejar uma realidade paralela, onde o outro é um personagem que existe apenas para lhe realizar a expectativa que se deposita nele. Isso não existe.

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É preciso fortalecer o próprio ego, a auto estima, compreender as lacunas da alma e da psique que pode nos levar a sermos tão ciumentos, inseguros, controladores. Descobrir os reais medos por traz do comportamento possessivo e invasivo em relação aos pares. Mas ficar invadindo a privacidade do outro, ou sendo controlado pelo outro, é de uma neurose chata pra caceta: não dá pra viver assim.

Se a relação chega num nível em que não se confia mais no parceiro, em que se tem que vigiar o outro, a relação não vale mais nada: de relação, virou prisão. Ou um dos envolvidos é um picareta com selo de promiscuidade, ou o outro é um neurótico inseguro com ego frágil. No primeiro caso, é melhor aceitar a realidade e, mesmo sofrendo de coração partido, romper a relação. No segundo caso, é preciso procurar ajuda psicológica especializada para sair desse ciclo vicioso. Na melhor das hipóteses, os casos de desconfiança e até de traição concreta tratam de pessoas comuns bem intencionadas, como você e eu, e a relação se desgastou, o amor acabou, e quando se percebeu, o sujeito já estava enrolado num triângulo amoroso. E, nesse caso, vigiar e controlar não restaura nada. No máximo gera culpa e medo, mantém aparências, mas não fundamenta a essência da relação. O melhor é o diálogo para compreender o que está acontecendo entre o casal, se possível assistido por um terapeuta, a fim de se tomar um caminho assertivo, seja ele recomeçar ou romper a relação.

De todo modo, a ansiedade e o temor que são alimentados pela desconfiança só prejudicam o amor e as relações afetivas, afetando profundamente as pessoas envolvidas. Dificulta a avaliação até mesmo quando se trata de um fato com motivos concretos para gerar ciúmes e insegurança. Controle deixa a relação pesada, e a possessividade dá nó cego no amor, que deveria ser um laço. Pela leveza no amor, desatemos os nós, e façamos laços mais confortáveis e confiáveis.


Cátia Rodrigues

Psicóloga, Professora Universitária, Pesquisadora da Essência Humana. Paradoxal desde o início, acredita que viver é sempre buscar ampliar horizontes..
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