pari passu

Pensando o caminho.

Lucas Rocha

Professor, leitor e cinéfilo. Mineiridade à flor da pele.

DEMOCRACIA EM PRETO E BRANCO: FUTEBOL, POLÍTICA E ROCK AND ROLL

A Democracia Corinthiana foi um movimento que "tomou de assalto" o Parque São Jorge no começo dos anos 80, colocando jogadores em pé de igualdade com a diretoria e ampliando o fórum das decisões. Tudo, de contratações às concentrações, passou a ser decidido conjuntamente. Além disso, o "bicho" passou a ser dividido com os faxineiros e os roupeiros e os familiares passaram a viajar no mesmo ônibus que os jogadores. Todas essas mudanças foram implementadas a partir de reuniões em que cada cabeça valia um voto.


democracia02.jpg Em campanha: para incentivar o povo a participar da primeira eleição direta em 17 anos (para governador), o Corinthians estampou em sua camisa uma convocação para as urnas - cena do documentário.

Eu sou um atleticano apaixonado. Mas também sou apaixonado por futebol. E, por isso, falar sobre o maravilhoso documentário de Pedro Asberg não me ofende de maneira alguma. "Democracia em Preto e Branco" retrata três núcleos do Brasil dos anos 80, um Brasil que ardia em oposição à ditadura militar: a "Democracia Corintiana", o movimento político pelas "Diretas Já" e a cena rock que explodia em irreverência e engajamento.

Talvez o maior êxito do diretor seja mostrar de maneira clara como política, música e futebol "conversaram" durante um dos períodos de efervescência política mais extraordinários da história recente brasileira. Mas, para além disso, "Democracia em Preto e Branco" vale a pena, no mínimo, porque é visualmente belo e politicamente engajado, tem uma trilha sonora empolgante e lindos gols de um Corinthians de Sócrates e Casagrande.

Considera-se que a democracia teve origem na cidade de Atenas na Grécia, há mais de dois mil anos atrás. Uma das principais características desse sistema foi a implementação de dois princípios: isonomia - noção de que todos os cidadãos são iguais - e isegoria - o direito de defender seus pontos de vista perante a assembleia. Em que pese os seus limites - apenas os homens e filhos de atenienses possuíam esses direitos, a democracia abalou as estruturas do mundo antigo e se consolidou como um importante paradigma até os dias de hoje.

A Democracia Corinthiana foi um movimento que "tomou de assalto" o Parque São Jorge no começo dos anos 80, colocando jogadores em pé de igualdade com a diretoria e ampliando o fórum das decisões. Tudo, de contratações às concentrações, passou a ser decidido conjuntamente. Além disso, o "bicho" passou a ser dividido com os faxineiros e os roupeiros e os familiares passaram a viajar no mesmo ônibus que os jogadores. Todas essas mudanças foram implementadas a partir de reuniões em que cada cabeça valia um voto.

78128-970x600-1.jpegDa esquerda para a direita: Wladimir, Osmar Santos, Sócrates e Juca Kfouri em comício pelas Diretas - cena do documentário.

Certamente, esse movimento não foi resultado de um homem só, apesar do Dr. Sócrates ser claramente identificado como o seu líder. Adilson Monteiro, Wladimir e Casagrande também são tidos como outros articuladores da Democracia. Mas nem tudo eram flores. Emerson Leão, que tem voz no documentário, tece várias críticas e afirma que o que era chamado “democracia”, na realidade era uma manipulação dos quatro "cabeças". Se foi de fato muito mais uma oligarquia do que uma democracia, não se pode saber com certeza. O mais importante, é que a Democracia Corinthiana estava em sintonia com o que acontecia no Brasil.

democracia-corinthiana_arrotos.com_.png"Ganhar ou perder: mas sempre com DEMOCRACIA" - cena do documentário.

Após quase duas décadas, a ditadura perdia fôlego e não conseguia mais se sustentar. Inflação altíssima, desemprego e imensa desigualdade social tornaram insustentável a manutenção do poder pela força. Os generais cacarejavam ordens, mas não conseguiam mais reprimir o povo nas ruas e nem o seu desejo por democracia. Entra em cena o movimento das "Diretas Já!" que, articulando-se em várias frentes, dentre elas o insurgente rock nacional, põe em xeque a velha estrutura. Ao som de Titãs, Rita Lee e tantos outros ícones da música brasileira, o bicampeonato paulista da Democracia Corinthiana [82 e 83] vai se desenhando na tela, intercalado com manifestações populares e depoimentos de lideranças políticas da época.

2016-12-30 (16).png Sócrates, Wladimir e Casagrande em show de Rita Lee: futebol e rock and roll pelas Diretas.

A democracia no Corinthians foi de 81 a 84, um período curto se comparado à história do clube, mas que deixou profundas marcas na história brasileira. Certa vez, o treinador da seleção italiana, Arrigo Sacchi, disse que "o futebol é a coisa mais importante das coisas menos importantes". Depois de assistir "Democracia em Preto e Branco", a sensação é outra. O maior mérito do documentário é demonstrar como as transformações socais mesclam cultura e política, como essas esferas se influenciam mutuamente e como a política abrange os mais diferentes sujeitos. Roqueiros, futebolistas, sindicalistas. Corintianos, palmeirenses, atleticanos, flamenguistas. "Democracia em Preto e Branco" mostra os craques do gramado saindo do banco de reservas e vestindo, não a camisa da seleção, mas a camisa do povo brasileiro. Golaço!


Lucas Rocha

Professor, leitor e cinéfilo. Mineiridade à flor da pele..
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