pari passu

Pensando o caminho.

Lucas Rocha

Professor, leitor e cinéfilo. Mineiridade à flor da pele.

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL E A EDUCAÇÃO

A escola que temos forma jovens "mancos", que podem ser ótimos em cálculo e biologia, mas são emocionalmente frágeis. Nosso "templo do saber" esqueceu-se da recomendação feita por Sócrates: "conhece-te a ti mesmo".


280644_Papel-de-Parede-Cerebro-Contra-o-Coracao_1680x1050.jpgRazão vs Emoção: uma antiga "disputa"

O templo do saber

Existe a grande possibilidade de que toda discussão política entre antagonistas chegue a um consenso quando alguém diz: "precisamos investir em educação". De fato, a palavra "educação" carrega em nossa sociedade um imenso prestígio, como se fosse um traje de gala, um artefato mágico que pode nos iluminar o caminho para a felicidade e para o sucesso.

A escola, por sua vez, é vista pelo senso comum como o “templo do saber”. O local onde meninas e meninos vão para adquirir as habilidades que os tornarão adultos inteligentes e úteis socialmente, o lugar por excelência do conhecimento. Mas, qual saber se persegue aí? Uma olhadela no currículo de nossas escolas, nos permite ter uma boa ideia do que o sistema procura atingir: matemática, ciências positivas e línguas tomam a maior parte do tempo, demonstrando que o saber primordialmente ofertado aos nossos jovens se orienta para "fora", quer dizer, para conhecer e dominar ferramentas que expliquem o funcionamento do mundo.

Recentemente, em uma discussão com meus alunos de ensino médio, perguntei o que eles entendiam por uma pessoa inteligente: "É bom em matemática!", muitos concluíram. A resposta de meus alunos é perfeitamente previsível. E não é que ela seja falsa, mas é incompleta. Pois, se é verdade que o ser humano tem o aspecto racional que o distingue dos outros animais (a capacidade de fazer cálculos complexos, por exemplo), também é verdade que possuímos emoções que contrastam com nosso intelecto. Novidade? Nenhuma! "Emoção" vem da palavra latina "movere", que significa algo como "mover". Uma emoção, portanto, é uma sensação que gera em nós uma resposta, uma "perturbação", nublando muitas vezes nossa racionalidade e criando inconvenientes para a vida prática. Quem nunca disse algo de que se arrepende quando estava com raiva, ou fez alguma loucura (ou estupidez?) quando estava apaixonado, que atire a primeira pedra!

A preocupação com esse poder das emoções é tão antiga quanto o ser humano. Há uma coletânea enorme de reflexões desde a antiguidade que tenta responder aos inconvenientes que resultam de emoções descontroladas. Aristóteles, Sêneca, Epicuro (só para ficar com alguns filósofos do mundo antigo) se debruçaram sobre a questão, tentando encontrar uma maneira de viver em equilíbrio com nossas paixões.

Bem, parece-me que, infelizmente, essa parte do legado do mundo greco-romano tem tido pouco espaço em nossos dias. Voltando novamente o olhar para nossas escolas, veremos que não existe uma estrutura (física e “procedimental”) adequada para lidar com as emoções que ali borbulham. Ora, quais são as competências exigidas para um teste escolar? Domínio de conceitos, habilidade descritiva, cálculo... A escola que temos atualmente quer, ou diz que quer, formar seres pensantes. Mas deixa para trás nossos afetos. A verdade é que nossos jovens saem mancos da escola, saem, na melhor das hipóteses, ótimos em cálculo e biologia, mas emocionalmente frágeis. Em nosso templo da educação, não se dá a devida atenção à recomendação feita por Sócrates (que chamou atenção para a inscrição no templo Apolo em Delfos): "conhece-te a ti mesmo".

Delphi-temple-to-appolo1.jpgTemplo de Apolo em Delfos, Grécia. Na entrada do templo havia a inscrição: "Conhece-te a ti mesmo"; foto: Frank Fleschner

Inteligência Emocional: revisitando os clássicos

Em 1995, o psicólogo estadunidense Daniel Goleman, publicou um livro chamado "Inteligência Emocional". Sua tese central vai de encontro às reflexões dos antigos sobre o perigo de uma vida emocional conturbada. Goleman chama de "sequestros emocionais" aqueles momentos em que "perdemos a cabeça", ou seja, quando nossa racionalidade fica desnorteada e as emoções explodem, causando, por vezes, arrependimentos.

Acompanhando Aristóteles - e é com a citação a seguir que o livro começa, Goleman aponta que o que está em questão na inteligência emocional é que: "Qualquer um pode zangar-se. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa não é fácil". Há uma certeza quando olhamos de perto o ser humano: sua racionalidade é parte de sua integralidade, mas não podemos esquecer sua passionalidade, seu ímpeto primal que atravessa milênios como herança do "homem das cavernas".

A primeira parte do livro é dedicada a explicar os mecanismos da cognição humana que tornam os "sequestros emocionais" possíveis. A resposta ensaiada pelas pesquisas de ponta em psicofisiologia corrobora alguns filósofos da antiguidade que pregavam a consciência de si para controlar as paixões.

"A recomendação de Sócrates - 'Conhece-te a ti mesmo' - é a pedra de toque da inteligência emocional: a consciência de nossos sentimentos no momento exato em que eles ocorrem" [Capítulo IV]

A proposta de Sócrates é muito familiar à de Sidarta Gautama e estes se aproximam em grande medida dos estoicos e aristotélicos quanto àquilo que proporciona uma vida feliz. Certamente, há nuances e, por vezes grandes diferenças entre essas escolas, mas, no entanto, o cerne do problema é que o controle de si, só pode advir do conhecimento de si. E é aí que reside a grande contradição de nossa escola. O foco está no exterior, nos "fatos" e "dados" que se pode conhecer do funcionamento deste mundo. Não existe (ou ainda é muito incipiente) o estímulo à busca interior dos estudantes, de compreender sua história pessoal, de entender como isto influencia seus gostos e dificuldades. Volta-se as energias para o conteúdo, para a memorização. Resultado? Basta ler as manchetes. Em que pesem os avanços da psicologia e neurociência, ainda vivemos em uma sociedade de excessos e de violência física e simbólica amplamente disseminadas.

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Soluções?

Não poderia ter a pretensão de esgotar os argumentos e métodos propostos por Goleman em um breve artigo. No entanto, caminhando para a conclusão, gostaria de apontar uma estratégia que me parece frutífera. Cito:

"É uma estranha chamada, que percorre o círculo de 15 alunos da quinta série sentados no chão à moda hindu. Quando o professor chama seus nomes, os alunos não respondem com o vago 'Presente', mas gritam um número que indica como se sentem; um significa deprimido; dez, muito energizado" [Capítulo XVI]

Se concordarmos que a consciência de si e de suas emoções é determinante para nosso bem-estar, quando a chamada ocorre sob essa dinâmica, professor e estudante ganham. O primeiro, compreende melhor as pessoas com quem lida, preparando-se para orientar de maneira mais eficaz seu aprendizado. O segundo, porque sendo estimulado a falar sobre si, aprende a reconhecer suas emoções, cria o hábito de investigar seus sentimentos. Além disso, podemos pensar em um efeito mais amplo, que é justamente o reconhecimento que todos podem ter entre si do estado emocional do outro, quer dizer, se todos estão cientes que fulano está em um dia ruim, podem se tornar mais cuidadosos, mais empáticos.

Estou certo de que é preciso uma guinada muito maior do que introduzir o método mencionado acima. Na realidade, os dois antagonistas que citei no começo do artigo, certamente discordarão quando a discussão enveredar para "como vamos investir em educação". Mas isso não muda o fato de que é urgente repensar o atual sistema! Precisamos de uma escola orientada por novos valores, por outra compreensão do que é importante aprender. Que tal se as escolas também fossem lugares para o autoconhecimento?!


Lucas Rocha

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