pari passu

Pensando o caminho.

Lucas Rocha

Professor, leitor e cinéfilo. Mineiridade à flor da pele.

MALENA E A EMPATIA PERDIDA

Filmes sobre a descoberta da sexualidade são lugar comum. "Malena", no entanto, não fica por aí. À medida que afloram os hormônios do garoto Renato, a película avança para questões mais sérias: a moral afiada e implacável de uma cidade pequena, que acaba por degringolar em uma perda de empatia aterradora, e a imposição de um comportamento às mulheres que impede qualquer laço de solidariedade, até mesmo entre elas, são também outros temas do longa de Giuseppe Tornatore.


936full-malena-screenshot.jpg

É necessário, antes de tecer meu comentário ao filme, deixar uma coisa às claras. Sou um homem escrevendo a respeito da obra de outro homem sobre a perspectiva de um terceiro homem acerca de uma mulher. Nos dias atuais, muitos poderiam querer que isso não signifique nada, que machismo é "mimimi", que está “tudo bem” simplesmente falar sobre certos assuntos desconsiderando a estrutura social que oprime pessoas. Discordo veementemente de quem coloca a questão nestes termos, de modo que aceito tranquilamente a possibilidade de ter lido incorretamente algumas questões que o filme nos mostra. Ok? Ok.

A história se desenrola sob a ótica de Renato Amoroso, que recorda da infância durante os dias da 2ª Grande Guerra. Sua narrativa inicia no dia em que ele ganha sua primeira bicicleta e que a Itália ingressa no conflito. Porém, outra coisa, ou melhor, outra pessoa marcou especialmente aquele 10 de Junho de 1940: Malena. Ao vê-la passar junto com alguns amigos, o menino Renato de 12 anos, cai em êxtase (que é transmitido ao espectador em um movimento de câmera hilário).

Malena (abreviação de Madalena) é bela. Ao passar, literalmente "arrasa quarteirões" da pequena cidade de Castelcuto na Sicília, a ilha italiana famosa pelo limão, pela Máfia e por suas tradições. É essa a atmosfera que envolve a fantasia de Renato. Depois de vê-la caminhar pelas ruas da cidade, o despertar da sexualidade do rapazote é abrupto e estridente. Tão estridente, aliás, quanto o ranger da cama que sacode com o balanço de seus braços enquanto ele fantasia inúmeras situações eróticas com sua musa, causando insônia em toda a família (outra cena hilária).

O filme possui duas camadas. A primeira é cômica e compreende a sexualidade e a fantasia de Renato. Com pinceladas da inocência e espontaneidade libidinosa típica da primeira juventude, Tornatore leva espectadoras e espectadores ao riso escancarado diversas vezes. A segunda camada, no entanto, aborda temas indigestos, que desnudam uma face grotesca dos homens e mulheres tão apegados às tradições.

Malena é bela. E, talvez por isso, carregue o fardo mais pesado da cidade. Com a notícia da morte do tenente Nino, seu marido, a cidade se perturba: "Malena está disponível!", dizem os homens; "Malena está disponível!", dizem as mulheres; frases iguais, porém, com um significado muito diferente conforme quem enuncia. Todos, alheios à possibilidade de que a viúva esteja passando por uma terrível dor, são tomados por um frisson que os distancia da imagem de "gente do bem" das cidades pequenas. Os homens pensam em possuí-la, as mulheres pensam em frustrar os planos dos homens. Em meio ao alarido de tantas paixões, perde-se a empatia. Todos, menos Renato, orientam seus olhares para Malena objetificando-a, ou como fetiche, ou como concorrência.

A moral estabelecida comanda que uma viúva não se relacione com ninguém durante um certo período, até que, se assim o desejar, firme novo matrimônio. Quando surge o boato de que a jovem viúva está "transando com toda a cidade", seu pai a abandona de imediato, deixando-a sozinha. Viúva e sem amparo do pai, Malena se encontra em uma situação que muitas mulheres provável e infelizmente já se viram: espremida entre uma sociedade que não a aceita na cena pública (no caso específico, o mundo do trabalho) e o pré-julgamento do próprio pai, recorre à prostituição como sustento. A princípio, troca o sexo por favores, na expectativa de que seja tudo passageiro. Entretanto, com o aumento das animosidades na cidade e o fervoroso apostolado de "respeitáveis" senhoras pelos valores tradicionais, a situação piora. Onde quer que vá, Malena é violentada pelo olhar.

f9e5d10e5ff1c6131bf74fd1034c3bb2.26515225546c607ba61570.51483542.jpgO jovem Renato

Enquanto isso, a guerra se desenrola em desvantagem para a Itália. Os nazistas assumem o comando da cidade na mesma época em que Malena pinta o cabelo e assume corajosamente o novo ofício deitando-se com oficiais alemães. O burburinho se transforma em uma atrocidade quando os soldados estadunidenses chegam à Castelcuto: as "respeitáveis" senhoras que passaram anos à espreita, finalmente vão à forra e lincham a viúva. Diga-se de passagem, uma sequência terrível de se ver.

Renato assiste a tudo pelas ruas e pelas frestas da janela. E sofre junto. Jura amor eterno quando seu marido morre, se revolta e briga com qualquer um que a ofenda, chora quando o pai a abandona e até adoece de amor. Contra toda a cidade, o garoto compreende a solidão e a sua triste situação cada vez que ela se deita com um homem diferente.

Depois da surra, Malena foge pouco tempo antes de seu marido retornar da guerra. Afinal, não fora morto, perdera um braço e fora feito prisioneiro, mas vivia. Silêncio sepulcral. Ninguém dirige a palavra ao tenente Nino. Um silêncio cínico de um crime cometido à tantas mãos. Com a ajuda de Renato, o tenente a localiza em outra cidade, e retorna um ano depois a Castelcuto. O casal é recebido com olhares gélidos e perplexos. Antes "a puta", Malena agora retornava de mãos dadas com seu esposo. Seria passível de perdão? Casada, não era uma ameaça tão terrível às outras mulheres e os homens teriam que refrear seus " "instintos" " já que, pelas tradições, Malena estava novamente acompanhada do marido, seu "protetor".

Passado um tempo, as mesmas senhoras que a humilharam em praça pública a cumprimentam cordialmente no mercado, mostrando que, afinal de contas, nunca foi nada pessoal; apenas cumpriram seu papel de denunciar a existência de alguém que ameaçava a ordem estabelecida. Como sua homônima do Novo Testamento, Malena se prostitui e, a exemplo da história milenar, também é julgada e humilhada em praça pública. Na Itália, berço do catolicismo, Renato parece ser o único cristão que queira repetir os passos do mestre.

Em resumo, “Malena” é um filme que faz rir, mas também desperta reflexões profundas sobre a hipocrisia humana e sobre a cultura machista e misógina difundida em todo o mundo. De um modo geral, não é admirável notar que quando confrontados, os valores “certo” e “errado” de nossa sociedade, gerem em nós um incômodo tão grande, que a expressão mais comum deste seja a violência - física ou psicológica?

Em “Malena”, o humano fica secundarizado frente às fórmulas, aos costumes. A cidade "se esquece" que Malena sofre pela perda do marido e que sua beleza não resume seu caráter. "Se esquece" porque não consegue pensar “fora da caixinha". Não acontece apenas na Sicília...

malenafilmehoriz280415.jpg


Lucas Rocha

Professor, leitor e cinéfilo. Mineiridade à flor da pele..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Lucas Rocha