pari passu

Pensando o caminho.

Lucas Rocha

Professor, leitor e cinéfilo. Mineiridade à flor da pele.

CAVALOS E PROPÓSITOS

Não. Não se trata de uma análise de "Bojack Horseman".


1136.jpgBojack Horseman - série da Netflix que acompanha um cavalo com crises existenciais e que inspirou parcialmente este texto

Há um velho ditado que diz: "quem pensa demais, dá bom dia a cavalo". Como filósofo, minha primeira reação diante dessa afirmação não poderia ser outra: fico pensando sobre ela, ora bolas! Por mais que reconheça que os clichês não são clichês à toa, ironicamente, apenas alguns poucos minutos diante dessa máxima me bastam para constatar que, se pensar muito pode ser perigoso, o oposto o é bem mais. Isso porque a falta de reflexão pode nos enredar em propósitos que não são nossos.

Dicionários diversos definem "propósito" como um projeto, uma resolução, algo que foi deliberado. Cada um de nós tem alguma ideia do que procura alcançar e é essa ideia que orienta, se não todas, boa parte das nossas decisões cotidianas. Cada um de nós deseja algo, e esse desejo "organiza" nossa vida. Quem elege riqueza como propósito, toma decisões tendo isso em mente, e assim por diante.

Perseguir o que desejamos é algo não só louvável, mas também necessário para termos o mínimo do que chamamos felicidade. No entanto, se não compreendermos o contexto no qual esses sonhos se forjaram, a chance maior é que aquilo que chamamos "meu propósito" seja um produto cuidadosamente elaborado por terceiros. Basta pensar na publicidade e na maneira como ela, comprovadamente, afeta nossa disposição para adquirir coisas totalmente dispensáveis: não é verdade que muitas vezes compramos coisas em excesso, o que nos fazem mal?!

Não sejamos ingênuos a ponto de pensar que querem nos vender apenas celulares, sabonetes e vegetais orgânicos. A todo momento somos bombardeados com fórmulas de felicidade: "coma saudável", "mude pro interior", "và à igreja", "adquira patrimônio", "viaje!". Como é fácil constatar, nem tudo serve para todos e se não houver esforço pessoal para filtrar tanta informação, corre o risco de que nossos ideais mais sublimes não sejam verdadeiramente nossos. A "máquina" exige pressa e, assim, entre anúncios de pasta de dentes e pregações religiosas, muitas vezes nos entregamos ao agir abrupto, sem reflexão.

O ditado com o qual comecei esse artigo contém algo de verdadeiro. Demorar-se demasiadamente em análises pode nos tornar inertes diante de situações urgentes. Pode também nos fazer perder oportunidades únicas. Mas não há como negar que, em relação aos nossos propósitos, é melhor exaurir-se em reflexão do que se apressar. Afinal, se abdicarmos daquilo que nos torna humanos, a chance maior é que nos tornemos, então, o cavalo.


Lucas Rocha

Professor, leitor e cinéfilo. Mineiridade à flor da pele..
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