pari passu

Pensando o caminho.

Lucas Rocha

Professor, leitor e cinéfilo. Mineiridade à flor da pele.

CINEMA MAINSTREAM E A ROMANTIZAÇÃO DA DOCÊNCIA

Filmes sobre docência costumam apostar na mesma fórmula: estudantes confusos e desinteressados, problemas sociais e um professor determinado a fazer de tudo para reverter essa situação. Calma lá! Temos mais coisas para dizer.


foto-el-profesor-detachment-18-787.jpg"O Substituto": Adrien Brody interpreta um homem caridoso e comprometido com sua profissão, mas que internamente está em frangalhos

É lugar comum no cinema a figura do professor herói. Aquele fulano que move montanhas para mudar a vida de seus alunos, que movimenta toda a escola e conquista a duras penas uma melhora significativa para o seu entorno. Geralmente, esse professor mora em um lugar horrível, mal paga as suas contas e não tem muito tempo para cuidar da família ou de outras questões pessoais. Mas, ainda assim, ele permanece inabalável: tem uma missão. E essa missão, tal qual retratada na maioria dos filmes sobre educação, implica que ele deve driblar sozinho o sistema.

Filmes como "O Substituto", "Escritores da Liberdade" e tantos outros, na realidade fazem parte de um mesmo universo discursivo. Se prestarmos mais atenção ao enredo da maioria desses filmes, veremos que a mensagem predominante enaltece as ações individuais que mudam microcosmos. Movido por convicção inabalável do seu papel e uma fé ardente nas pessoas, o professor se move entre um oceano de incongruências sistêmicas a fim de "salvar algumas vidas". Um "indivíduo extraordinário", orgulhoso de sua missão, que sacrifica a própria vida pessoal em favor de alguns pupilos.

Podemos considerar que de Sidney Poitier - de "Ao mestre com carinho", nos anos 60 - a Adrien Brody - de "O Substituto" , nos anos 2000 - pouco mudou na representação do cinema mainstream sobre o papel do professor. Essa representação reverencia a profissão na figura do indivíduo extraordinário, mas pouco ilumina o problema sistêmico, como quem diz: "Olha, vocês professores são ótimos! A gente paga mal, oferece uma infraestrutura horrível, obriga a seguir um método de ensino e de avaliação pior ainda, mas vocês aguentam: vocês são f*#@!".

Sociedade dos poetas mortos"Oh captain! My captain!": o belíssimo "Sociedade dos poetas mortos" também reverbera a figura do indivíduo extraordinário. Inspiração e alento para seus alunos, o "sistema" acaba por derrotá-lo, como acontece comumente na vida real.

Naturalmente, os filmes que reverberam esse discurso não são todos. "Entre os muros da escola", por exemplo, é um longa que está na contramão dessa representação, pois aborda mais amplamente as questões que atravessam a prática docente: o ambiente, os fatores socioeconômicos, a multiplicidade cultural dos estudantes e os limites do ser humano responsável educar 40 adolescentes, só para mencionar alguns elementos. De maneira mais sutil, "Sociedade dos Poetas Mortos" também promove boas reflexões sobre os limites da docência. O professor, John Keating, é uma figura instigante e venerável. No entanto, cercado de tradições e do "verniz" da alta sociedade, seu destino é o mesmo da maioria dos transgressores: a lata de lixo do sistema.

Majoritariamente, no entanto, o cinema "lado A" reforça a ideia de que um bom professor é aquele que vence todas as barreiras estruturais por meio de seu carisma e empatia. Por meio de palestras empolgantes ou exemplos arrojados, os professores de Hollywood não costumam questionar a estrutura que os engole. Estão ali, afinal, como indivíduos e é quase como se não houvesse nada além disso. Mas a realidade pede mais que um professor "dedicado". Posso ter uma oratória magnífica e, ainda assim, não conseguir despertar o mínimo de atenção dos meus alunos se faz um calor infernal e o ventilador não funciona, por exemplo. Portanto, quando os filmes repetem tão recorrentemente a mesma estrutura narrativa, contribuem significativamente para naturalizar no imaginário popular que mesmo ganhando mal e trabalhado em péssimas condições, no fundo, o professor "dá conta!".

Quero ser bem claro, para não restarem dúvidas: não estou pregando que o professor deva ser apático. Não estou fazendo um louvor ao comodismo. Não estou, em hipótese alguma, dizendo que o professor não deva se envolver com as histórias de seus alunos e procurar ajudá-los de todas as maneiras possíveis. Estou dizendo que na medida em que uma arte tão popular quanto o cinema retrata exaustivamente a mesma história, ela contribui para a manutenção de um status quo desumano. Ora, deve-se aplaudir e reconhecer ações extraordinárias e sacrifícios pelo bem do próximo, mas, atualmente, o sistema é tão viciado que promove um massacre criativo aos jovens e à saúde dos profissionais da educação.

entre-os-muros.jpg"Entre os muros da escola": dose de realidade que falta na maioria dos filmes sobre educação

Me parece coerente pressupor que os filmes apenas estão retratando o que acontece, contudo, é bastante razoável criticar o fato de que a propagação em massa dos mesmos esteriótipos contribui para eclipsar os verdadeiros problemas. Existem diversas histórias belas de esforço e empenho que naufragam graças ao contexto.

Não vou inundar o (a) leitor(a) de números e pesquisas que comprovam que às classes dominantes não interessa reformar o sistema, elevar investimento e fomentar uma educação que dê autonomia; isso é por demais evidente! Ao invés disso, apenas vou sugerir que da próxima vez que você assistir um filme sobre um professor que salva vários alunos, considere que não deveria ser assim! Tem alguma coisa errada com todo o sistema. Uma ação individual nobre sempre será louvável, mas é preciso olhar além e se perguntar por que ela foi necessária.


Lucas Rocha

Professor, leitor e cinéfilo. Mineiridade à flor da pele..
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