pari passu

Pensando o caminho.

Lucas Rocha

Professor, leitor e cinéfilo. Mineiridade à flor da pele.

POÉTICO I

Fragmentos de poesia... ou poesia fragmentada.


IMG_7524.JPGFoto: Lucas Rocha

I

MATER IDADE

O que matura é só a idade? Ou há saber na juventude? Digo, existe em seu rubor alguma qualidade Que não seja o ímpeto da mocidade?

E o que dizer dos jovens argutos, que escolhem morrer de saudade? Ou dos senis avantajados, com dores nos quadris cansados? é possível sentir-se pacífico com tantas memórias empanzinando?

Há mais sabedoria em seus corações esgarçados? Creio serem melancólicos, ao menos. Ou adestrados pela vida e seus venenos.

Mas, é difícil concluir: O que matura os outros é a idade, a cidade, a violência em cativeiro? Ou seria questão de sorte ir do verde ao amarelo? Que será que nos "adultece"?!

Um filho gerado, uma dívida quitada ou uma rede social bem movimentada?!

Ora, em qualquer normalidade, o que conta é a capacidade, De fazer-se novo enquanto espera pelo crepúsculo da natividade.

II

CAFÉ

Poesia e café quente é pra tomar devagarinho. Coração com torniquete só se cura de mansinho.

III

ANEMÔMETRO

Solidão não tem nada de triste. É o mundo que demanda da gente Que tenha sempre opinião, Com o punho em riste!

Queria tomar sol, falar bobagem. Me embriagar de mim em paz e serenidade.

Tem dias que eu até queria assistir ao Godard [por incrível que pareça!] pra te falar A verdade.

Fico suspenso na crise: Se a solidão persiste, vou ao encontro mudo com meu sorriso de chiste.

Melhor é beber cicuta, Dançar o tango Ou comer um torresmo?

Solidão... Ah, solidão! Você é apenas um momento e oscila conforme o vento!

IV

A FLOR

E saiu com uma flor. Naqueles tempos, a flor era vista como a arma dos derrotados. Eram tempos sombrios, é verdade. Mas havia uma brecha nas nuvens pela qual se entrevia o sol. Meio opaco, sol de inverno: frio, mas luminoso. Antes, caíra um temporal desses que derrubam pontes e levam tudo das pessoas! A paisagem era devastadora. Um pouco de juízo ou egoísmo bastaria para abandonar o local imediatamente.

Ainda assim, ele saiu com uma flor. Era do seu próprio jardim, nascida na varanda, ao lado da rede, sob o céu claro. Essa flor, não é que ela fosse simétrica, tinha pétalas maiores que as outras, um caule parcialmente destruído por uma ou outra praga; mas era "honesta".

Parecia haver alguém ali, não podia ver claramente, tudo era silêncio. Se fosse mesmo alguma viva alma, deveria estar meditando, calada. Deu uns passos à frente e se assustou com uma trovoada, resquício da tormenta! Há uma coisa engraçada sobre os trovões: quando eles alardeiam, o raio já caiu, não há nada mais que possa causar dor. O ruído é apenas o eco, o prolongamento de um perigo que não se faz presente.

Mas, a bem da verdade, ainda havia raios alvejando o terreno. Esquivou-se como pôde, e correu em direção à miragem. Confirmou o que de longe imaginara: lá, em meio à lama e troncos arranhados havia, de fato, uma moça mimetizada. O mimetismo sempre uniu os homens, predador e caça. Natureza.

Plantou a flor e seguiu.

_MG_6861.JPGFoto: Lucas Rocha


Lucas Rocha

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