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Meu amigo, o rei, tem livros

Ana Paula De Cassia Oliveira

Estudante de medicina. Escritora de "Lembranças Perdidas". Dona de uma gata chamada Sophie.

Carta ao Meu Primeiro Amor

Acredito que o Thomas seja responsável pela minha paixão por homens loiros de olhos claros, mas ironicamente o meu primeiro amor tinha cabelos negros e olhos escuros. Com esse amor, acredito ter vivido todas as etapas que o casal protagonista não pode no filme, no entanto, a dor da perda foi igualmente imensa e o desfecho da história igualmente triste: eu tive que enterrar o meu primeiro amor, não por ele ter abandonado a vida e sim, a mim.


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“Salgueiro chorão com lágrimas escorrendo/ Porque você chora e fica gemendo/ Será porque ele lhe deixou um dia/ Será porque ficar aqui, não mais podia/ Em seus galhos ele se balança/ E ainda espera a alegria que aquele balançar lhe dava/ Em sua sombra abrigo ele encontrou/ Imagina que seu sorriso jamais se acabou/ Salgueiro chorão pare de chorar/ Há algo que poderá lhe consolar/ Acha que a morte para sempre os separou/ Mas em seu coração para sempre ficou.” Citação do filme Meu Primeiro Amor.

Sabemos que toda grande produção cinematográfica possui diversos requisitos técnicos que a tornam admirável, como uma grande direção de fotografia, excelente design de produção ou bons efeitos visuais. No entanto, há filmes que se tornam inesquecíveis, não pela técnica, e sim por apresentar-nos uma história simplesmente cativante. O filme Meu Primeiro Amor é um desses.

O tema central do filme trás consigo uma doçura natural que ganha uma carga dramática, que não o torna menos encantador, devido a história de Veda Sultenfuss, uma adorável garota, que precisa lidar com grandes perdas.

Ao longo da trama as aventuras de verão de Veda e seu melhor amigo Thomas J. Sennett mostram-nos a magia do primeiro amor e paralelamente passamos a conhecer mais profundamente a forma como Veda lida com acontecimentos difíceis de serem compreendidos quando se é ainda tão jovem, como a ausência da mãe e o envolvimento de seu pai viúvo com uma nova mulher.

Um belo filme, que nos mostra através das lentes um novo olhar sobre os acontecimentos que marcam as passagens da infância, engana-se, porém aqueles que acreditam ser esse um filme destinado ao publico infanto-juvenil.

A primeira vez que me propus a assisti-lo eu tinha apenas oito anos de idade e hoje, finalmente, eu consegui revê-lo na íntegra, talvez por enfim possuir a maturidade que essa história exige dos expectorares.

Quando o vi ainda criança, tive meu primeiro contato marcante com a morte, até então esta entidade não me atingia, pois ainda me era desconhecida. No entanto, no ano seguinte após ver o filme, assim como a protagonista da história, passei a desenvolver uma relação com a morte, talvez por ter tido um íntimo contato com ela ao ficar gravemente doente. Eu passei então a me identificar em muitos aspectos com a Veda, mas diferentemente dela eu só fui conhecer o Meu primeiro amor no final da adolescência. O certo é que sobrevivi à morte e ao meu primeiro amor também e hoje posso contar esta história.

“Óculos, onde estão os óculos? Ele não enxerga sem os óculos!” Uma das frases de mais impacto do filme.

Acredito que o Thomas seja responsável pela minha paixão por homens loiros de olhos claros, mas ironicamente o meu primeiro amor tinha cabelos negros e olhos escuros. Com esse amor, acredito ter vivido todas as etapas que o casal protagonista não pode no filme, no entanto, a dor da perda foi igualmente imensa e o desfecho da história igualmente triste: eu tive que enterrar o meu primeiro amor, não por ele ter abandonado a vida e sim, a mim.

Passei então por todas as fases do luto e hoje posso com a indiferença que o tempo piedosamente nos trás agradecer algumas coisas ao meu primeiro amor:

Obrigada pelos lindos momentos e também pelos péssimos;

Obrigada por pagar aquele vexame público tocando violão quando me pediu em namoro;

Obrigada por dizer as declarações mais bonitas da minha vida;

Obrigada pelos bilhetinhos, presentes, por ter tocado “I Remember you” tantas vezes em minha homenagem;

Obrigada por todos os imensuráveis dias de alegria, por aquele primeiro beijo no estacionamento do shopping;

Obrigada por me chamar de gorda, mentir e me enganar constantemente, isto transformou uma adolescente em uma mulher forte que não se importa mais com a opinião alheia;

Obrigada por me manipular fazendo-me acreditar que a errada era eu, enquanto você foi o algoz. Isto me tornou menos ingênua;

Obrigada por descumprir sua promessa de se casar comigo, definitivamente seria um matrimônio fracassado;

Bom, ainda tenho pesadelos esporádicos com você e ainda não consigo ouvir certas músicas ou filmes que escutava e assistia com você, ainda tenho que lidar com a minha baixa autoestima provocada por você, mas encarei aquela estação de metrô, na qual sempre nos encontrávamos, sem você.

O meu pior medo após perder você não foi mais da morte, mas sim, de nunca mais amar ninguém e esperar você por toda a minha vida. Lamento em te dizer, mas eu me apaixonei de novo. Sim, ele era um pouco parecido com você, mas tinha os olhos claros, afinal não deixei de buscar por meu Thomas. Não deu certo novamente, porém não importa, porque hoje eu sei que posso me apaixonar de novo e de novo, um segundo, um terceiro ou quarto amor, não importa. Só que quando encontra-lo espero que dessa vez ele não me abandone jamais.

E antes que eu me esqueça, já consigo ouvir a música “My girl” hoje sem chorar.

Minha Garota/ Eu tenho a luz do sol num dia nublado/ Quando está frio lá fora/ Eu tenho o mês de Maio/ Eu suponho que você diria/ O que pode me fazer sentir deste jeito?/ Minha garota. Tradução livre da música “My girl” de The Temptations


Ana Paula De Cassia Oliveira

Estudante de medicina. Escritora de "Lembranças Perdidas". Dona de uma gata chamada Sophie. .
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