patrícia dantas

Crônicas das nossas realidades e ficções

Patrícia Dantas

Sou aquela que acredita que as palavras podem salvar o mundo de todo o tédio que existir nessa vida.
Convido a visitarem meu blog em total liberdade: http://emtotalliberdade.blogspot.com.br/

A linguagem da ternura

Quando Vinícius compõe o poema “Ternura”: “Eu te peço perdão por te amar de repente/ Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos...E só pede que te repouses quieta, muito quieta/ E deixes que as mãos cálidas da noite encontre sem fatalidade o olhar extático da aurora.” – ele expõe o amor mais desprendido que alguém pode doar, sem pedir nada em troca, num ato de liberdade.


blow-bubbles-668950_1920.jpg

Ternura: Amor, Afeto. Amizade. Simpatia. Piedade. Graça. Sinônimos fortes e intangíveis para colocar a Ternura no lugar que ela merece.

A metalinguagem vai a fundo quando procuramos saber mais a respeito de uma palavra tão nobre nos dicionários e dentro da gente. Visualizar o que trazemos junto ao peito com a intensidade do mesmo poema que Vinícius de Moraes - o poetinha -, apelido terno e carinhoso que Tom Jobim soube lhe dar com a devoção de um amigo.

Quando Vinícius compõe o poema “Ternura”: “Eu te peço perdão por te amar de repente/ Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos...E só pede que te repouses quieta, muito quieta/ E deixes que as mãos cálidas da noite encontre sem fatalidade o olhar extático da aurora.” – ele expõe o amor mais desprendido que alguém pode doar, sem pedir nada em troca, num ato de liberdade.

O que aconteceu hoje com esse nosso amor tão terno, gracioso, que imaginávamos um dia poder entregar em mãos destinadas a cuidar sem preocupações com o que aconteceria quando os primeiros raios de sol invadissem a casa? Parece que nesse espaço imediatista do hoje, vivemos para outros tipos de sentimentos, e que algo se perdeu no meio do caminho.

Numa conversa com uma amiga, ela me disse que conheceu alguém e imaginou que fosse “amor à primeira vista”, como ainda acreditamos no poder desse ato em algumas ocasiões inexplicáveis. Olharam-se com intensidade, curiosidade e desejo, trocaram telefones, marcaram um encontro.

Ele foi à casa dela no dia seguinte, e em algum momento da conversa falou que gostava de café bem forte, tradicional e coado, como tomava antigamente na casa da avó; ela lhe revelou que preferia o vinho, pois café não lhe caía bem no estômago. Até aí, nada a reclamar, entra na normalidade da conquista, um conhecendo o outro. As horas passaram e houve a primeira despedida. “Amanhã marcamos outro encontro. Gostei de você” - ele falou, ofegante. “Está certo, vamos marcar. Me liga.” - ela confirmou um segundo encontro.

Como encaixar tudo o que aprendeu até ali sobre paixões, companheirismo, ternura? Como colocar em prática suas experiências e as dicas que acompanhava semanalmente nas colunas de sites de relacionamentos sobre como não errar nos primeiros encontros? Tudo daria certo, tinha certeza. Ele era divorciado, falou que a relação tinha se desgastado para os dois e saíram amigavelmente, tiveram dois filhos. Parecia ser maduro o suficiente para não decepcionar uma mulher. Antes de se verem pela segunda vez, ela recebe uma mensagem dele pelo celular: “Não quero nada sério com você.”. Ela me disse que ficou pasmada com o que leu, paralisada, vendo que já começou errado. Como apostar todas as suas boas intenções em alguém que não estaria disposto a levar a frente um relacionamento a dois? Será que ele colocou mais alguém na história? Não tinha como adivinhar. Talvez ela, algum dia, me fale sobre sua escolha.

E a ternura, o afeto, a amizade, a graça do amor que se preocupa e respeita o outro? O jantar a dois? O almoço do final de semana? A viagem de férias? Tudo por água abaixo. Pensamos todos. Talvez estejamos enganados com esse fôlego dos relacionamentos mais abertos que muitas pessoas propagam por aí e dizem até que lhe fazem um bem danado e se sentem mais livres. Mas vemos que, em outras práticas que envolvem uma atenção maior com o outro, a batida é bem diferente.

A realidade é que buscamos dar voz ao nosso mundo e entender o que queremos, conquistando pessoas que saibam nos ensinar a criar essa compreensão diariamente. Queremos quem inspire o melhor de nós, leve a sério cada palavra que sai das nossas bocas e nos presenteie com o “um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias” que Vinícius de Moraes revelou com ternura pela amada.

É assim que tudo se configura através dos tempos: queremos a ternura mais pura para reescrever dentro da gente os romances que lemos ou ouvimos, fantasiando e dando vozes e ecos que tragam algum alento quando estivermos junto a alguém.

Imagem via Pixabay


Patrícia Dantas

Sou aquela que acredita que as palavras podem salvar o mundo de todo o tédio que existir nessa vida. Convido a visitarem meu blog em total liberdade: http://emtotalliberdade.blogspot.com.br/ .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @obvious //Patrícia Dantas