patrícia dantas

Crônicas das nossas realidades e ficções

Patrícia Dantas

Sou aquela que acredita que as palavras podem salvar o mundo de todo o tédio que existir nessa vida.
Convido a visitarem meu blog em total liberdade: http://emtotalliberdade.blogspot.com.br/

Hilda Hilst sem papas na língua

É que a mulher, Hilda, usa a singeleza que pertence ao reino polífono das palavras e joga com muita graça e discernimento (talvez agora ela me diria com seu risinho da Mona Lisa nos lábios ‘discernimento de uma louca muito lúcida’ e cairíamos aos prantos de tanto rir).


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Gosto e encanto por Hilda Hilst. Não só gosto, me sinto bem quando estou em sua frente, sentindo suas palavras cutucando minha garganta com um graveto afiado e entrando fortemente em meus ouvidos. Ela tem daqueles textos que, de tão abarcar imensamente as coisas do mundo, não cabem dentro da gente e parecem faiscar ou beliscar quando achamos que estamos muito bem. É que a mulher, Hilda, usa a singeleza que pertence ao reino polífono das palavras e joga com muita graça e discernimento (talvez agora ela me diria com seu risinho da Mona Lisa nos lábios ‘discernimento de uma louca muito lúcida’ e cairíamos aos prantos de tanto rir). Aí estão, sete frases de Hilde (como se chamou em várias de suas crônicas em Cascos&Carícias), ou composições pensantes, brilhantes e castas e lúcidas para aplacarem nossas sensações esdrúxulas: O lá de cima / Coisa do demo / Entrar no fiu-fiu / Teus nadas / Ouro e treva / Cavalos vivos / Lúcida vigília.

Estão vendo agora o teor do que falo? Quando alguém picota e compartilha o que precisamos tomar emprestado para usar no lado mais denso do nosso entendimento impenetrável - para só aí acontecer aquela compreensão do absurdo que já estamos atolados -, mas não nos damos conta da coisa sutil que esgoela a gente sem dó nem piedade. É a sofisticação do palavreado de Hilst que toca tão maciamente e dolorosamente ao mesmo tempo, porque tudo está lá marcado dentro da palavra que sai e já é dita, residindo dentro do núcleo a ideia do esvaziamento e completude intensa.

E pode-se voltar atrás do que se diz com a alma em gosto na boca? É que o meio, o meio de cada coisa estanque e povoadora de mundos e gentes, em mim e em Hilda, é somente o meio que tece a ponte para podermos tirar as lascas e erigir a lápide dos extremos - a lápide tão nua de madrepérola em tons bege-dourado à luz. Mas é preciso o esforço desmesurado para ouvir as vozes que estilhaçam lá dentro; às vezes elas nos afastam de quem somos e conhecemos o outro que está ali tão perto, à espreita de um estiramento dos membros que alcancem a gosma que se mistura rapidamente ao ato amistoso do olhar que se ergue e transmuta naquela dor e gozo infindáveis de existir.

Vou lá, então, estico a orelha afoita pelo sussurro grave que ouvira falar; ao canto de onde estou (qualquer lugar, que seja, onde o vento quase não alcança esses ruídos de lobos esquivos das esquinas) e concentro minha capacidade inteira de estranheza quando escuto alguém que vem se debatendo na estrada lúdica da luz. O que era a meia-luz já se foi - o do meio como me corrigiria Hilst -, apagada devagarinho e se transformando num vaga-lume morto ou um total sem-vida. Tão pequenininha essa minúscula forma já desviada do nome vivo e latente na morte, já adquirindo o nome do medo. Pensemos agora: assim nascemos, diminutos, em vida, num relâmpago de luz (aquela luz nova e estranha jogada na cara tão lânguida e estreante); assim somos todos empurrados de onde jamais deveríamos ter saído nem a passeio, e somos, aos poucos, descolados da cave interior superprotegida da luz que cega. Desbravar o mundo, é isso que repetem sempre, mas talvez já estejamos bem cansados de seguir por ali.

Pisamos de fato no tudo o que já existe, no saco cheio de nutrientes variados e enganosos porque jamais irão tirar a fome de dentro da gente. Falo de outras fomes que se encaixam e abrem buracos ocos e de pele bem fininha quase explodindo o organismo visceral que dá mobilidade ao corpinho insolente e revoltado e esperneado que cumpriu o seu dever de se expelir tão nu e refratário, a ponto de ser comovente porque já sabe que o choro faz parte dessa dor do mundo.

E, sendo já o ser que pisa o chão como quem desfila em tablado raso e escorregadio - da mesma gosma que te ajudou a sair do casulo - ele sabe se misturar ao mundo com a singeleza de tocar o novo: vai apalpando com os pezinhos murchinhos e pequeninos, sem sexo, cheirando o intocável, esparramando as sensações, começa a doer, latejar, sentir o que é ser. Ainda não entende o engano que lhe falaram ainda lá de dentro. Mais tarde, entenderá tudo como foi desde o início, sem passar pelo meio. Talvez se pergunte: Para que servem nossas fantasmagóricas defesas que se refestelam quando esvaziamos a força bruta e deixamos a força do outro lado correr?

Todos agora entendem a verdade do ser, a verdade de Hilda, a minha, a sua verdade? Não, ela não é nem deseja e muito menos veio ao mundo para bancar de filósofa da verdade e entrar no grau fúcsia da compreensão por meio do espírito da palavra. (O ser, àquele tão vivinho e pequenininho, diria que só tem que viver para saber e aprender com o rodeio torpe dos pés já avantajados de tanto pisar a vida tão breve aos olhos de quem está com a luz. E como ele saberia responder isso com tamanha claridade nos olhos? Ele também diria que já viveu um pouquinho da sua vidinha mundana.)

Dessa vez a vida pega a gente, rodopia ao nada, no alto, na transparência do vento, e logo devolve nosso corpo agitado ao interior de tudo que o precedeu: o ato da gratidão piedosa. Juntara as mãos nuas ainda mornas de sangue correndo quase vazando nos poros, era algo sadio o seu agradecimento e até logo a uma nova liberdade ainda intocada. Tocou-lhe a pele e ousou lhe pertencer.

De volta à crosta morna protetora do país estrangeiro, o ser. Jurava que tinha um propósito, aprendera assim (não lembra se na escola, com os amigos, família, ou a vida). Estava em abstinência de ser mais livre ali naquele país não tão desconhecido. Era o para onde lhe precipitando forte de novo para o exterior.

Juro que não li Hilda por acaso. Foi a necessidade de me partir e criar o outro ser que talvez já conhecesse.

Imagem: Hilda Hilst


Patrícia Dantas

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