patrícia dantas

Crônicas das nossas realidades e ficções

Patrícia Dantas

Sou aquela que acredita que as palavras podem salvar o mundo de todo o tédio que existir nessa vida.
Convido a visitarem meu blog em total liberdade: http://emtotalliberdade.blogspot.com.br/

Batendo pernas pelo cotidiano com Virgínia Woolf

Como Woolf, mas não tão grandiosa, sinto-me ofuscada por esta ostra que me assalta o ser e, em seguida, por este olho que constantemente me comove nas ocasiões mais inusitadas.


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Virgínia Woolf soube se desnudar em apenas um dia pelas ruas de Londres. Está lá, num dos seus ensaios: Batendo pernas nas ruas: uma aventura em Londres. Ao sair para comprar um lápis, sentiu-se completamente desnuda, absorvida na completude do que ela era, ainda incompreensível e desconhecida, verdadeira como nunca fora - como quem sai da cápsula viva -, a observar seu todo que acontecia a olho vivo.

Estava surpresa com a insanidade gritante do seu interior. Batendo o olho em si mesma, viu-se como uma ostra, de grandes olhos, que podiam ver tudo tão completamente e intensamente, com lentes de aumento, escandalizando-se a cada passo. Tudo lhe sugeria tortuoso e intenso demais para brotar de dentro de si, daquela pessoa sempre aparentemente de hábitos e desejos tão conhecidos.

Como Woolf, mas não tão grandiosa, sinto-me ofuscada por esta ostra que me assalta o ser e, em seguida, por este olho que constantemente me comove nas ocasiões mais inusitadas. Basta um rápido passeio no trepidante horário do almoço, um flash, um estalo e estão todos lá, já com risos nos cantos da boca, sarcásticos e mortíferos. Tudo acontece à volta, talvez seja pela amplitude dos olhos que revelam a mim e os outros de forma tão nua e crua. Logo, é preciso voltar correndo para me salvar na realidade, fugir dos transtornos que me são tão mais reais e vigorosos.

rose-234483_960_720.jpg Nesse percurso de descobertas transitórias, logo volto ao trabalho que coloca os meus pés no chão e absorve meus olhos de ostra. Pensando bem, estes olhos servem para provocar diálogos, inquietações e muito mais insinuar o que não se mostra em sua inteireza. É o ato da entrega e comunhão.

É, muitas vezes, o primeiro passo a ser dado diante da gente, basta olhar com encantamento e sutileza; farejar o que o ato da fala não exprime com a precisão necessária, o que que não deixa de ser um ato confessional. Ver, perceber, dizer para si algo que não se podia ver pela grandeza de um infinito interior.

Quando me vem a ideia que podemos ver além das meras aparências, e que a realidade pode se apresentar como uma dama irreconhecível, é mais que acolhedor se transformar em ostra, mostrar nosso clímax em forma de uma outra vida mais palpável.

Assim, não quero enganos ao passar pelo que vivo todos os dias; quero o olhar mais apurado; observar além da temperatura sentida; inspirar um ar menos rarefeito; falar com pessoas inéditas nas idas e vindas costumeiras; simplesmente mudar, inusitar, compor, inventar, melhorar o que é para ser um cotidiano comum. Que ele seja sim, um cotidiano incomum.

imagem Virgínia Woolf imagem via pixabay


Patrícia Dantas

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