patrícia dantas

Crônicas das nossas realidades e ficções

Patrícia Dantas

Sou aquela que acredita que as palavras podem salvar o mundo de todo o tédio que existir nessa vida.
Convido a visitarem meu blog em total liberdade: http://emtotalliberdade.blogspot.com.br/

Quando Hilda Hilst fica entre nós

O que fazer com alguém que nem sabemos ao certo se existe, se não se declara, se não fala, nem se define, não apresenta virtudes ou defeitos, que apenas se deixa existir livremente, de fomes, tormentos e algumas insaciedades? Nem sempre sabemos o que fazer deles, nem de nós. Também vamos descobrindo aos poucos como eles se deixam levar pelas suas curiosidades pelo estranho. Era assim que Hilda reagia a todos eles, seus personagens que tantas vezes eram ela.


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Hilda Hilst é uma transgressão necessária, um soco no estômago daqueles que nos obriga parar a leitura e respirar ofegante, porque nossa santíssima dignidade já se perdeu, ou foi parar em algum lugar mais sórdido que escondemos dos nossos hábitos.

Tendo Hilst nas mãos, também é a certeza que teremos alguma coisa desfigurada e pedindo clemência dentro da gente, porque se queimou com a brasa de sua própria pele e já foi engolido por um riso tolo e nostálgico que jamais compreendeu a necessidade de se pertencer, ter a si mesmo revelado entre mãos corajosas e dentes famintos. Hilst faz você comer a si dentro de si, num ato de gratidão e contentamento pela vida. Tudo é dentro e vem de dentro. E seu deus pai, tão misterioso e observador contumaz dos nossos atos acha graça de tudo e nos olha com uma bondade estampada na cara.

É do paradoxo pessoa-humano-pessoa que vem essa sensação de esvaziamento para se chegar a algum lugar que faça tão bem ao processo interior da criação. E é não morrer de tédio, mas asfixiar-se por dentro, de excesso de vida. É desse poder que tomamos das mãos de Hilst - o “divino ato criador”- esse arregaçar de mangas para exteriorizar o concreto de energias que se lança ao mundo e que se necessita de uma linguagem mais intensa e nua galgando cada fio limítrofe das nossas palavras.

Ela nos faz ver, e vemos sem mais transgredir a brutalidade cega e perspicaz como tomamos proporções desconexas, porque esse mesmo poder é também do extravio de algo que deixamos inerte por um tempo dentro da gente, é o que faz sentido na esfera do existir e não-existir. É o que somos em tempos cruzados. Não é questão de intimidade, mas de um tato revelador de corpos ausentes.

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Existe algo grandioso que não podemos fugir: o amor e o temor pelos nossos personagens. Não podemos deixar de questionar com a nossa profunda desaprovação de nós mesmos quando olhamos o outro na cara e imaginamos seus atos escondidos. Como posso não depender deles, se assim vivemos e morremos dentro de todos eles? Apossam-se da gente e se transmitem como gostariam de ser na pequena e elástica realidade que deles se desprende. A história de cada um segue as curvas e o contexto de roteiros muito particulares. Gesticulam e atuam com devoção e compaixão pelo substrato do humano.

O que fazer com alguém que nem sabemos ao certo se existe, se não se declara, se não fala, nem se define, não apresenta virtudes ou defeitos, que apenas se deixa existir livremente, de fomes, tormentos e algumas insaciedades? Nem sempre sabemos o que fazer deles, nem de nós. Também vamos descobrindo aos poucos como eles se deixam levar pelas suas curiosidades pelo estranho. Era assim que Hilda reagia a todos eles, seus personagens que tantas vezes eram ela.

Do nosso medo passamos pelo eco desse encontro familiar que nos adapta ao mundo e remove toda a sensação de que algo é revelado somente em pleno contato. A revelação às vezes só precisa que fiquemos um pouco sozinhos e conectados com nosso estado de graça. Faz pensar.

Imagens do IHH - Instituto Hilda Hilst


Patrícia Dantas

Sou aquela que acredita que as palavras podem salvar o mundo de todo o tédio que existir nessa vida. Convido a visitarem meu blog em total liberdade: http://emtotalliberdade.blogspot.com.br/ .
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