pausas

Pequenas pitadas de artes...

Ana Carol Rodrigues

Comunicadora sociável e pseudo produtora que aproveita as Pausas para escrever enquanto aprecia café ou vinho tinto..

Histórias contadas em retalhos

O artigo a seguir conta sobre o trabalho da artista brasileira Sonia Gomes e suas esculturas feitas com retalhos e objetos antigos, trazendo as relações de vida da autora com sua forma de arte.


São conhecidos como retalhos, os restos de tecido e sobras de pano que podem ser facilmente jogados fora caso não reaproveitados para concertos de roupas ou em trabalhos artesanais, dando vida e forma a peças cotidianas como, por exemplo, tapetes e colchas.

O detalhe é que para que isso aconteça, os pedaços utilizados normalmente são novos e ainda trazem a vida e o brilho dos tecidos que um dia fizeram parte, não existindo a necessidade de “reviver” ou recriar esse material.

Os pedaços de pano retratados aqui são bem diferentes. É difícil acreditar que retalhos velhos, gastos, manchados, maltratados, linhas e objetos descartáveis possam não só ser premiados como fazer parte da Galeria Lehmann Maupin de Nova York. Mas na realidade são; Em suas paredes a galeria abriga com orgulho, pedaços de tecido desses que poderiam passar despercebidos juntamente com objetos que não fariam sentido se colocados juntos. Esses fragmentos formam e definem a obra de uma autora com muitas histórias para contar.

As mãos que revivem e transformam esses objetos são da artista plástica Sonia Gomes, que recentemente foi à única artista brasileira que esteve na Mostra principal da bienal de Veneza, com suas memórias de pano ou histórias contadas em retalhos.

20150311080844450146a.jpg Foto: Ramon Lisboa http://imgsapp.divirtase.uai.com.br/app/noticia_133890394703/2015/03/11/165509/20150311080844450146a.jpg

As peças que marcam o trabalho de Sonia são os tecidos retorcidos e costurados, somados a objetos antigos. O Processo criativo se divide em duas etapas: Primeiramente existe a construção de um novo objeto, quando este é considerado pronto, inicia-se uma segunda etapa, que nada mais é que uma reflexão sobre o que o novo objeto representa. E assim são montadas suas instalações.

Mesmo com toda a reutilização, o trabalho não é de reciclagem, nem uma questão de sustentabilidade ou uma nova forma de aproveitar o lixo, mas algo apoiado na recriação, os objetos tem as marcas que trazem respeitadas e mudam de sentido no contexto que passam a representar.Como ela mesma define, sua obra navega entre o popular e o erudito.

É mais fácil compreender essa expressão da artista ao se aprofundar um pouco mais na sua história e nas tradições com que foi cercada. Sonia nasceu em Minas em 1948, filha de mãe negra e pai branco e cada uma das famílias acabou ensinando valores diferentes. Ela é então uma mistura de raças, na realidade, a matéria prima do trabalho da artista são as memórias, e o que ela traz no coração...

Suas esculturas discutem muito as questões de identidade racial. Esse fato é muito presente na vida da artista. Ao visitar a página do Prêmio mais relevante da arte contemporânea brasileira, o Prêmio Pipa (http://www.pipa.org.br/pag/sonia-gomes/) descobre-se, por exemplo, que essas influencias vem da sua ligação com a avó materna que era parteira e benzedeira e também pode-se descobrir o inicio de sua paixão por tecidos e rendas que de acordo com o site é uma herança da sua família paterna, ou a parte branca da família.

2015032693400.jpg Foto:Andre Fossati/Agencia O Globo http://oglobo.globo.com/cultura/veja-imagens-das-obras-de-sonia-gomes-15781719

Aqui começa a fazer sentido o Retrato de Brasil que traz um charme peculiar à obra de Sonia, na colcha de retalhos da cultura nacional, a raiz é popular, é a simplicidade mineira, o Brasil das parteiras, da crença das benzedeiras, seus ritos e rezas sua importante participação na formação dos conhecimentos populares.

Sônia-Gomes-Bienal-de-Veneza1.jpg Obra: O Livro -Foto: Divulgação encontrada em:http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/03/1598828-brasileira-sonia-gomes-estara-em-mostra-principal-da-bienal-de-veneza.shtml

Quanto à parte erudita, Sonia não iniciou cedo suas criações, a primeira exposição foi realizada em 1994, até essa data ela não teve nenhuma formação acadêmica em arte contemporânea, era um trabalho solto contando apenas com seu talento.

Sonia é um exemplo de pessoa que larga tudo para se dedicar a arte, seu trabalho hoje é respeitado e reconhecido no meio contemporâneo, porém precisou enfrentar diversas batalhas até os dias atuais.

No começo chegou a acreditar que o que fazia era artesanato, com seu estilo irreverente, queria construir bolsas e adornos e por muitas vezes foi rejeitada por ter um trabalho feio, mal acabado e pouco comercial. Até que um dia em sua caminhada encontrou a galerista Flavia Albuquerque uma das primeiras que fez Sônia tomar consciência de que não fazia artesanato e sim esculturas.

escultura-684x1027.jpg Foto:http://www.radardesign.com.br/alquimia-textil/

Com a chegada da primeira exposição, Sonia frequentou livremente disciplinas na Escola Guignard, UEMG e na UFMG e a partir de então não parou mais de produzir. Hoje Sonia vive de artes, é premiada e ao conhecer e analisar o seu trabalho é fácil concluir que ela escolheu o melhor caminho.

Sônia Gomes-soniagomes1.jpg Foto:http://www.catalogodasartes.com.br/Detalhar_Biografia_Artista.asp?idArtistaBiografia=9706


Ana Carol Rodrigues

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