pé na alcova

"De pé, na alcova, ardias e fulgias" ( Olavo Bilac)

Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério.

A fé que move montanhas

Fazer mapas e medições não parece romântico, a não ser que a tarefa seja assumida por um verdadeiro Dom Quixote, como o geofísico Bjørn Geirr Harsson. Aos 75 anos, longe de duelar com moinhos imaginários da memória, está prestes a entrar para a história como um herói da gentileza entre os povos.


foto de Frode Johansen - 2014.jpg

Enquanto os países da Europa fortificam e fecham fronteiras, um geofísico de 75 anos, aposentado, quer dar um pedaço da Noruega para a vizinha Finlândia. O gesto não é político nem visa solucionar algum impasse humanitário, mas certamente será lembrado no futuro como o mais altruísta – e criativo -- da história mundial.

Bjørn Geirr Harsson nasceu no dia 23 de janeiro de 1940 na Noruega, tem paixão pela natureza e sempre defendeu causas dentro do seu campo de atuação: elas envolvem mobilidade e acessibilidade, direitos humanos por excelência.

Ganhou prêmios, condecoração do rei (a Noruega é uma monarquia constitucional com sistema parlamentar de governo), reconhecimento da Unesco, escreveu livros. Aposentou-se do trabalho por tempo de serviço e continuou na ativa porque coração que se preza não se aposenta jamais.

A inquietude o leva, de vez em quando, às manchetes de jornal com novas propostas para o país, nenhuma delas como a que fez agora, em dezembro de 2015: dar uma montanha para a Finlândia.

O sonho começou a se esboçar em 1972, quando o geofísico costumava sobrevoar, a trabalho, a fronteira da Noruega com a Finlândia. Essa linha é demarcada pelo monte Halti, no qual a maior parte do território cabe ao país vizinho e o pico, ao país natal de Harsson.

A divisão não é compreensível e parece injusta, defende o geofísico, já que o pico do Halti tem apenas 1.365 m de altura - o que o exclui da lista de 200 maiores picos da Noruega --, no entanto, ultrapassa em cerca de 40 cm o ponto mais elevado da Finlândia (Hálditšohkka, com 1.324 m), que sequer é considerado “montanha”.

Com belíssimos lagos e ilhas, os finlandeses não podem reclamar dos seus atrativos naturais e turísticos, que incluem o fenômeno da aurora boreal e a casa oficial do Papai Noel, mas eles não têm montanha.

foto Kakslauttanen hotel.jpg

“Eu passei esses anos todos me perguntando por que o pico do Halti não pertence à Finlândia até que tive a ideia de propor a doação”, conta Harsson.

Expôs a sugestão a amigos e familiares antes de decidir contatar Anne Cathrine Frøstrup, diretora do Norwegian Mapping Authority -- seu ex-empregador --, fazendo a proposta.

Argumentou: “Basta traçar uma linha de 200 metros ao norte e 150 metros a oeste, desenhando um pequeno triângulo no mapa fronteiriço. Assim daríamos à Finlândia o seu pico mais alto e perderíamos apenas 0,015 km2 de território, uma porção imperceptível de terra”.

Mapa.png

Anne aprovou o “presente” publicamente, dando o pontapé inicial para transformar em realidade a filosófica frase de Friederic Nietszche: “A fé não move montanhas. Na verdade, coloca-as onde não existem.”

Os noruegueses também estão aderindo entusiasticamente ao projeto, por meio de curtidas em uma página do facebook: já somam mais de 11 mil em cerca de 20 dias.

“Não entendo nada de rede social, tenho o palpite de que foi o meu filho que criou a página”, explica o visionário e empreendedor Harsson.

A sua proposta é dar o pico para a Finlândia como presente de aniversário, em 2017, data em que o país comemorará 100 anos de independência da Rússia.

Além das dificuldades burocráticas e administrativas que a doação envolve, a maioria dos cinco milhões de habitantes da Noruega terá de endossar a iniciativa. Parece que não haverá dificuldade nesse sentido.

“Os noruegueses farão história e se tornarão heróis não só na Finlândia, mas no mundo todo”, diz Jyrki Veranen em um comentário na página do Facebook.

Entre muitas lições que o sonho do geofísico nos traz está a certeza de que os idosos ainda estão escrevendo a sua biografia, mesmo após os 70 anos, e podem se tornar pioneiros em campos onde ninguém se aventurou antes.

Para aderir à campanha, “Halti como presente de aniversário”, acesse o link aqui e junte-se ao time do verdadeiro Papai Noel de 2015, o norueguês que quer dar o maior presente do mundo à Finlândia.

Fotos: Frode Johansen, Hotel Kakslauttanen (Cabana Casa do Papai Noel), Haltijubileum (página do Facebook)


Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério..
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