pé na alcova

"De pé, na alcova, ardias e fulgias" ( Olavo Bilac)

Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério.

Enquanto o mundo ainda está de mãos dadas

Em outubro, depois de algumas noites de muita angústia e nenhum sono, esta mulher divorciada e mãe de três filhos decidiu que precisava ajudar as famílias de refugiados. Mas fazer o quê, se estava tão distante da fronteira, tinha poucos recursos financeiros e tudo o que sabia era fotografar?


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A sabedoria popular diz que a pergunta certa leva a respostas simples. Foi assim que, em 1956, Ata Kandó decidiu fotografar o sofrimento dos refugiados na fronteira austro-húngara e doar as imagens à causa humanitária. Precisava de parceiros para cumprir a missão.

Após alguns dias de busca, encontrou Violette Cornelius. Em novembro, as duas mulheres viajaram para o campo dos refugiados e viveram como os próprios, com a mesma roupa no corpo, pouca comida e água, enquanto seguiam completamente entregues ao trabalho: fotografar.

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Em dezembro, a tempo de ser vendido no Natal, o livro com mapa na capa e sem título estava pronto, causou impacto. Rendeu além do esperado.

capa do livro 1956 sem titulo refugiados hungaros.jpg

Não à toa, a húngara Ata Kandó comoveu-se tanto com a dor dos compatriotas, ela mesma conheceu cedo o desespero de ser refugiada, que viveu durante curtos períodos em Paris e Barcelona, com o primeiro marido, Gyula Kandó, no final da década de 1930.

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Para sobreviver em terra estrangeira, começou a fotografar crianças: abriu mão das artes, carreira para a qual estudou, e nunca mais se desacompanhou da máquina fotográfica, aliada de todas as lutas.

Em 1939, flagrou os invasores alemães em cenas de enlevo, desfrutando o mais famoso ângulo da cidade-luz.

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Na década de 1940, de volta ao solo natal, Ata e o marido participaram ativamente da resistência da segunda guerra mundial. Entre outras atividades, produziam documentos falsos.

O primeiro filho do casal nasceu em 1941, Tom. Em 1943, nasceram as gêmeas. Em 1947, a família foi novamente deportada para Paris.

Gyula não ficou muito tempo na França, voltou para a Hungria com plano de reconstruir uma casa para a família.

Ata, com as três crianças em Paris, teve que sobreviver por conta própria. Encontrou trabalho com ajuda do compatriota, Robert Capa, em uma agência de fotografia recém-fundada, a Magnum.

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Aos 37 anos, dividindo-se entre filhos e fotos, teve a oportunidade de conviver com nomes ilustres da intelectualidade, mas se apaixonou por um jovem desconhecido de 25 anos: Ed van der Elsken.

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O holandês, que se tornaria mundialmente famoso como fotógrafo, estava começando a carreira. Foi uma paixão fulminante, fotografada em preto e branco pelo casal, que culminou com o primeiro divórcio de Ata e o novo casamento em 1953, ainda em Paris.

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Um ano depois, o casal se mudou para Amsterdã e lá a paixão amainou até terminar tão abruptamente como iniciara.

Ed e Ata se separaram. A mulher continuou viajando a Paris, regularmente, como fotógrafa de moda de grandes grifes, o que a consagrou definitivamente no mercado.

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Em 1954, o divórcio se concretizou, Ata mudou-se com as crianças para a Suíça, depois Áustria. No cenários dos Alpes fotografou os filhos em cenas oníricas que, dois anos depois, seriam organizadas e lançadas em um livro: “sonho na floresta”. A obra foi legendada pelo filho mais velho de Ata, Tom, na época com 14 anos.

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Longe de sossegar, aos 42 anos, a fotógrafa fez a aqui já relatada incursão à fronteira austro-húngara de refugiados. O ano era 1956. Dores, alegrias e carinhos explícitos dispensaram legendas.

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Depois de “sonho na floresta” (1957), verdadeiro conto de fadas, com luz e sombra em aura de mistério e magia, Ata organizou o livro “Calypso and Nausicaa”, para o qual também fotografou os filhos, desta vez nas ruínas de Pompeia, na Itália. Foi uma reinterpretação poética da odisseia de Homero. Não conseguiu publicar o livro até 2004, quando finalmente obteve os recursos necessários à investida.

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Em 1961, Ata Kandó dava aulas de fotografia em tradicionais escolas de belas artes de Utrecht e Enschede (Holanda) quando aceitou o convite de amigos para ir à região amazônica. Novamente, ficou tão envolvida com a situação precária de sobrevivência dos indígenas que planejou um retorno ao local, finalmente viabilizado em 1965. Foi uma longa estada, na qual, mais do que fotografar, partilhou o cotidiano da comunidade.

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De volta à Holanda, tornou-se cofundadora do grupo "South American Indians" e publicou o livro “Slave or dead”, título que remete à ideia de “escravidão ou morte”, outra bandeira pessoal da fotógrafa. Retrata a ameaça de extermínio das tribos amazônicas.

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Com seu trabalho, Ata abraçou integralmente a causa desses grupos, preservados da destruição colonialista graças ao isolamento geográfico. Até quando? Essa interrogação é o ponto de partida da obra “Children of the moon”, lançada em Budapeste no ano de 1970. Reúne as imagens das várias viagens de Ata à América do Sul.

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De 1979 a 1999, Ata viveu no exterior, em países como Inglaterra e Estados Unidos. Apenas no retorno à Holanda, em 2001, obteve o reconhecimento público dos pares por seu trabalho, em 2001, e conseguiu publicar “Calypso and Nausicaa” (2004).

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Quase centenária, Ata organizou e lançou mais dois livros: "The Living Other" (2008), sobre a convivência dos homens com os animais (contou com as colaborações Diana Blok e Sacha de Boer) e "Ata Kandó Photographer" (2010), uma coletânea de tudo o que produziu, inclusive imagens nunca publicadas.

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Em 2011, Ata já estava mais do que familiarizada com o mundo da internet e lançou website para comemorar aniversário: www.atakando.com.

Já com 101 anos, recuperou o elo perdido com a sonhada e abandonada carreira de artista plástica, desengavetando uma coleção de 12 pinturas a guache que fez quando estudava na Sándor Bortnyik, academia de artes da Hungria. Reuniu as peças em um livro que batizou de “The Little Workers” (Pequenos Trabalhadores) e publicou em tiragem limitada em julho de 2015. São 300 exemplares numerados, 200 deles em caixa de luxo.

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Na introdução do novo livro, o filho Tom descreve:

"Esses guaches são exemplos únicos do trabalho de Ata como uma jovem artista. (...) As imagens mostram crianças trabalhando em vários ofícios. São desenhos que exalam os ideais socialistas daquela época, reconhecíveis na ênfase da cor vermelha, no tributo ao trabalho, no martelo e na foice da bandeira soviética, sutilmente evocada."

Alguns podem concluir que surgia, assim, outra face de Ata, a da artista garimpada no passado... Mas não. A obra de Ata, planejada e organizada fundamentalmente em livros, é uma expressão reconhecida das belas artes:

"Um livro de fotografias ("photobook")é uma forma autônoma de arte, comparável a uma peça de escultura ou teatro, um filme. O fotógrafo se desvincula de características pessoais, limitadoras, para tornar-se parte de algo maior, universal, um evento dramático de fortes tintas" (Raplph Prims, crítico de arte holandês).

Importante lembrar que, no caso de Ata, as obras nasceram de um anseio de autorrealização e não da necessidade de sobreviver, que inicialmente alavancou a carreira fotográfica. A húngara explora e amplia os próprios limites, torna-se objeto, sujeito e causa daquilo que produz.

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Em setembro (2015), no dia 17, Ata completou 102 anos. Mora em um bairro de idosos em Bergen, na Holanda, cercada da exuberância natural que sempre a inspirou na vida. Entrevistada por um equipe de jornalistas norte-americanos, foi descrita como “vibrante e ao mesmo tempo discreta, espírito de aventura escancarado ao mundo, uma memória quase perfeita, movimentos rápidos”.

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Mas o papel preferido é o de fotógrafa.

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Não olha para o passado, não lamenta dores e marcas. Expõe-se. Tudo o que vislumbra parece revestido de brilho e eternidade como ela mesma.

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Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério..
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