pé na alcova

"De pé, na alcova, ardias e fulgias" ( Olavo Bilac)

Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério.

Juntos até que a morte separe

A cada ano, 50 mil pessoas morrem em Nova Iorque, algumas delas, sós e ignoradas até que algum sinal do seu desaparecimento chame a atenção da vizinhança. George Bell, 72, morreu assim em 2014. Completamente sem socorro apesar do acesso a celulares e redes sociais. Marcel também morreu ignorado, na vizinhança de Paris, em 1988.


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Marcel exultou com a neve, primeira do ano. Os flocos cintilantes, pousando delicadamente sobre casas, árvores, automóveis, derreteram o coração do ancião. Aliás, nem tão velho assim, mas já tinha filhos criados, netos, e estava aposentado. Gostava da solidão -- havia se divorciado há três anos -- embora não fosse ele, mas ela que o tinha escolhido. Aceitou, conformado como era seu jeito.

Começou com a partida dos filhos, um a um, para o casamento, e depois da mulher, também para um casamento, com outro. Não lhe sobrou nem Touché, o gatinho que comprara para a filha mais nova, Karine. Ele fugira com uma gata vadia da vizinhança.

Vizinhança... Marcel nem sabia que existia. Não havia camaradagem, interesse, solidariedade. Ele bem que tentara estabelecer vínculos, mas recebeu olhares desconfiados e cumprimentos apressados. São assim os jovens, consolou-se; correm e nem sabem direito por quê. Parecem não saber que a juventude passa e vem o freio da idade.

Marcel experimentara o tranco. No coração, que parou à toa. Estava almoçando ainda no tempo da família ao lado quando sentiu o mal-estar e o baque. Nada grave. Foi socorrido a tempo e reanimado. Mas recebeu orientações médicas incontáveis, que incluíam de medicamentos a dieta, exercícios, etc. Deixou tudo de lado quando perdeu seus familiares. Agora comia enlatado e não tinha dinheiro para frequentar academias embora caminhasse uma vez ao dia. Quanto aos remédios, foi deixando um a um. Pareciam fazer mais mal que bem, ao estômago e ao fígado.

Nesse dia da primeira neve, sentia-se particularmente feliz, pressentia algum tipo de grande acontecimento. Resolveu comemorar por antecipação. Foi ao mercado comprar vinho e linguiça, prazeres raros na sua mesa. Voltou cantarolando uma antiga música. Não sabia ao certo por que lhe voltara à memória. Era ainda do tempo da escola. Infantil, mas muito animada.

Viu uma pequena família, mãe, pai e bebê, olhá-lo da esquina. Certamente pensavam que ele era louco, mas tudo bem, a velhice dá o direto de cometer maluquices, aliás espera-se muito pouco de um velho. Que não suje a cama e coma de boca fechada. Um grande estorvo social, pensou Marcel, eis "como me sinto".

Mas não deixou que tal pensamento nublasse o céu aberto de sua satisfação. Hoje, prometeu-se, nada o deprimiria. Entrou em casa, ligou a calefação, abandonando cachecol, luvas, agasalho pelo caminho. Foi ao telefone ligar para o filho mais velho. Quem sabe ele não se animava a passar para assistir com o velho pai o jogo de futebol italiano? Ligou a TV, telefone no ouvido, anúncio de xampu, toca, toca, ninguém atende, chamada para a transmissão do jogo, clic. Baixou o fone no gancho. Ninguém mesmo em casa.

Sentou porque de repente bateu um cansaço enorme. Pousou a cabeça no encosto da poltrona. E morreu, num descanso para sempre imperturbável. Anoiteceu. O jogo deu placar zero a zero. A TV continuou falando noite adentro.

Na manhã seguinte, um telefonema, nada insistente. "Compre uma secretária eletrônica", pedia o anunciante. E a TV prosseguiu a cantilena. Semanas depois, uma vizinha alcoviteira estranhou um pouco a ausência de Marcel na rua. Chegou pé ante pé próxima à casa, espiou pela vidraça. Ah, sim, o velho estava ficando era preguiçoso, e sem-vergonha, assistindo a um programa da Playboy. Atenta aos suspiros e gemidos da tevê, a mulher não investigou mais nada. Saiu indignada, pensando que quase dera trela ao safado.

Dois meses depois, a filha mais nova ligou com insistência, precisava de dinheiro urgente. Velho ridículo que nem para em casa e nem liga pra saber dos filhos, pensou a garota. Arrumou-se de outro jeito. Mais um mês, a família reuniu-se na casa da mãe. Sobrou reclamação para o lado do pai. A mãe destilou veneno na tentativa de aplacar a própria culpa: "não falei, que arrumava outra loguinho e esquecia até de vocês ? Vai ver anda dormindo mais na casa da namorada que na própria."

Foram precisos ainda três meses e um cheiro insuportável nos arredores da casa para alguém resolver saber do velho. Foram os vizinhos que agiram, chamando a polícia para investigar a origem de tamanho odor. Começaram as cabecinhas maldosas a conjeturar casos escandalosos, de suicídio a assassinato, com detalhes requintados para cada possibilidade. Nada disso, só o coração que parara, oito meses antes.

Ao "que absurdo deixarem alguém tão sozinho assim", juntou-se um comentário inédito num caso desses: "quem ia pagar a conta absurda da TV ligada direto durante tanto tempo?" Ela não queimou, o que valeria até propaganda para a marca do aparelho, pensaram uns cáusticos. A conta de luz astronômica foi cobrada à família, que começou a mover processo para não assumir tal encargo.

Do céu, o velho, já mais que confortável na nova situação, ria sozinho, pensando que sabia, sentira que naquele dia ia aprontar alguma, como um garoto arteiro. Ah, fora mesmo formidável, concluiu, e voltou discreto para junto dos outros com medo que lessem nos seus olhos os maldosos pensamentos. O personagem Marcel é fictício, mas o seu óbito foi divulgado nos jornais da época e ocorreu em frente a um aparelho de televisão que permaneceu ligado ininterruptamente por meses, segundo a concessionária de eletricidade apurou. O que aconteceu antes do óbito, o que Marcel andava sentindo, pensando, planejando, ninguém, sabe. Ninguém apareceu para dar uma conclusão à sua biografia recente, nenhum amigo reclamou ou sentiu falta.

A solidão na velhice é um problema social grave nas grandes cidades, onde o individualismo dita as regras da convivência. No Brasil, há mais de 20 milhões de idosos e apenas 1.100 geriatras, uma versão dos antigos médicos de família, que criam um vínculo de aproximação com o paciente. Esses profissionais podem colaborar com a morte assistida na velhice. Outro caminho é construir internatos atraentes como hotéis 5 estrelas -- ou mesmo sem tanto luxo -- nos quais os idosos possam reviver a vida comunitária, voltar a assumir um papel social com assistência profissional completa e cumplicidade dos contemporâneos nas novas etapas da vida.

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No livro "A máquina de fazer espanhóis", Valter Hugo Mãe conta a bela história de um viúvo que perde tudo e vai parar em um asilo. Faz um longo percurso da indignação à redescoberta de valores, entre eles, uma insuspeita família. Sim, os desconhecidos que o recebem tornam-se seus conhecidos mais íntimos, ajudam-no na revisão de vida, vida que avalia como egoísta já que cuidou dos seus para não se envolver com os crimes salazaristas.

A retrospectiva dos fatos passados o ajuda a descobrir que chegara, enfim, ao lugar certo na hora certa. Ali viu novos amigos morrerem e com eles quase morreu junto, tamanha a dor. Verteu lágrimas do fundo do coração, ouviu suspiros da morte invencível, sempre cercado de empatia e amor em porções generosas. Isso o que o viúvo encontrou e viveu ali. Fartou-se até também chegar sua hora. Não estava só, sua mão repousava na mão de um amigo, sua cabeça foi amparada, choraram todos, almas lavadas prontas para a próxima.


Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério..
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