pé na alcova

"De pé, na alcova, ardias e fulgias" ( Olavo Bilac)

Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério.

Milagre de Natal ou morte e vida de Graciano

Quem é que sabe a verdade? Eu garanto que um bebê e um velho podem dividir a mesma alma, por meses. Foi o que aconteceu com Graciano. Esta história é real, conto assim como a ouvi de uma velha benzedeira.


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A gravidez começou em março, o embrião cresceu muito e bem. Sabia o seu destino e de onde vinha, o que é fundamental nessa etapa da existência. Enquanto isso, um líder mundialmente reconhecido agonizava, já além da morte. Os médicos mantinham as funções vitais, o fôlego artificial dos aparelhos. Este o panorama superficial da vida em curso na terra.

Em outro planeta, paralelo e soberano, o velho líder se exercitava para caber no útero alargado porém diminuto para a sua estatura. Movimentava-se tanto que os batimentos cardíacos não podiam ser auscultados, o recurso era a ultrassonografia. Muita saúde, parabéns à mãe, repetidas vezes.

A jovem mulher não entendia o real peso da sua missão. Massageava costas e costelas sem alívio, sustentava muito mais que os quase dois quilos do bebê; eram as décadas de sofrimento e superação do herói, antes prisioneiro de cela comum, quase analfabeto. Torturas de todo o tipo amansaram o temperamento enquanto fortaleciam o caráter: a pior entre elas, sem dúvida, foi a tortura moral. Seu povo, considerado inferior, não tinha voz.

O velho curvado por muitos anos e honrarias estava agora com dificuldade para se valer de tanto sacrifício. A chama do seu aprendizado não se extinguiria naquela morte, precisava continuar e já recebera chamado para um novo posto. Não que o autoritarismo de qualquer espécie existisse no universo das almas, de modo algum, o que conduzia eram a necessidade de continuar a luta, porque faltam substitutos à altura, e a vontade de matar a sede com outras águas.

Greta, irmã mais velha de Graciano, achava copo de água a melhor coisa da sua vida, embora já reunisse um bom tanto delas na memória da pele: carinho de pai, aventuras em praias e corredeiras. Sem contar o prazer diante do espelho, cada dia mais generoso ao lhe devolver a imagem de uma mocinha linda com quase 8 anos. É o que via e pessoas em torno confirmavam.

George não sabia andar e se equilibrava admiravelmente no papel do caçula enquanto Graciano não chegasse. Com menos de um ano de idade, o bebê ainda conseguia engatinhar entre dois mundos. Visitava em sonhos a alma velha de Graciano e despertava triste sem ninguém entender o motivo.

Em uma dessas visitas, excepcionalmente à luz do meio-dia durante consulta da mãe, ultrassom pulsando, as lágrimas escorreram dos olhos cabisbaixos. O médico ofereceu o trivial: ciúme do irmão. E assim a família voltou para casa revezando lenços de papel e cócegas na barriguinha. As risadas não secaram as tintas da cena.

Graciano tinha seus próprios problemas. Dividia-se entre o novo corpo, redondo e macio, e a gélida morte não anunciada. Estrebuchava no leito em um hospital distante cada vez que movia braços e pernas. O cordão umbilical com os gloriosos tempos já estava cortado.

E foi essa criatura com memória de dor e desejo de vida que me procurou na escuridão do meu quarto em uma madrugada de 2013. Sou praticamente ninguém nessa história, talvez uma contribuinte genética, ínfima. Bisavó. Preocupada com George, Graciano e Greta. Comigo mesma, preciso confessar. Ah, pulei uma parte.

É que os velhos, velhos mesmo como eu, voltam, como os bebês que engatinham, a ter permissão para circular entre dois mundos. É muito mais do que privilégio de embarcar de graça em ônibus ou pagar meia-entrada no cinema. É assim que me distraio na última década, de um lugar a outro sem que percebam minha ausência

Nessa madrugada, acordei imediatamente com a alma do velho já em pouso autorizado na nova vida, fazendo barulho no meu teto, exatamente como vizinho insone do apartamento de cima.

Conversamos sem termos sido apresentados porque me pareceu muito familiar.

Na aparência, estava um trapo, todo furado, tubos saindo por todos os lados. Explicou-me que nisso resultava a tentativa de o manterem ligado ao mundo dos humanos. Do qual não fazia mais parte, jurou.

Voltou a me incomodar muitas vezes nas noites seguintes, desgarrado. Decidi ajudá-lo e soube que seu novo endereço era a barriga da minha neta. Dificílimo ajustar sentimentos a realidades inimagináveis como essa. Meu ego, reluzente com a visita do líder como minha pele jamais voltaria a ser, foi me guiando.

Eu o estimulava a nascer, a deixar de respirar por aparelhos. Ele bem que tentava, mas era sempre reanimado e os jornais prolongavam a mentira da sua atual vida.

Na verdade, as duas vidas estavam por um fio: eram dois corpos para uma só alma. Os dias do bebê nascer já haviam passado, como também o da morte do ancião, tantas vezes anunciada e desmentida.

Propus o ritual num momento de desespero, achei que o pior se avistava: a morte do bebê antes que a sábia alma reaprendesse a desencarnar e reencarnar. Pedi que visitasse o Papa Francisco, como a mim, no transe das eras, e pedisse a extrema-unção. Para meu espanto, o senhor acostumado a ser obedecido me obedeceu, com dificuldade trasladou-se para Roma. Não viu nem venceu. Sumiu.

Pelo que descobri, nas minhas rotineiras incursões ao outro mundo, chegou 12 dias depois da morte enfim anunciada e velada, chegou em dia de multidão, aniversário do visitado, pompa. Furou o cerco como pode, mas nadou no éter. O Papa soprou as velas, o ar deslocou a alma cansada, que vagou por breves infinitos segundos. Reviu a luta do seu povo nessa eternidade. Expirou. Não descansou.

No útero, o trabalho de parto estava mais do que perigosamente atrasado, mas o bebê estava encaixado. Saiu da posição ao mesmo tempo em que o velho naufragava no oceano quântico. O médico que conduzia o nascimento não tentou puxar a cabeça do menino de volta ao ponto, puxou-o pelas pernas.

E a lembrança do velho se arquivou no tempo enquanto a memória nova em folha do bebê se apresentava ao novo ciclo. Nasceu Graciano que comemora aniversário junto com o Papa. Tem hematomas e sorri. Renasceu o líder porque o combate segue.

Agora posso contar só para você: meu bisneto é a reencarnação do Nelson Mandela.

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Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério..
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