pé na alcova

"De pé, na alcova, ardias e fulgias" ( Olavo Bilac)

Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério.

Na cama com Lennon e Oliver Sacks

A cena de paz e amor protagonizada por John Lennon e Yoko Ono em um quarto de hotel não acabou. O sonho a dois, a música "give peace a chance", a centena de fotos do evento entraram para a história e sensibilizam até hoje, magicamente, amantes da música e também da ciência, como Oliver Sacks, neurologista que se tornou um fantástico escritor.


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O neurocientista Daniel J. Levitin, autor do livro “Este é seu cérebro na música”, recebeu Oliver Sacks em Montreal há 10 anos. Conta que, assim que Sacks chegou ao quarto de hotel, no Fairmont Queen Elizabeth, descobriu que estava na mesma suíte na qual John Lennon se hospedara.

Naquele mesmo quarto, Lennon e Yoko haviam realizado o famoso “bed-in for peace”, um ato simbólico pela paz no qual receberam ilustres visitantes, como Timothy Leary e Tommy Smothers. Naquele quarto, havia sido gravada uma das mais famosas canções de Lennon, "Give Peace A Chance".

Oliver não era muito fã de música popular, mas sabia como os Beatles eram importantes para Daniel, então insistiu para que fosse ver o quarto. Daniel se emocionou com a sala, tão fotografada, e a vista na janela, que não tinha mudado muito. Ficou em silêncio vários minutos, juntamente com Oliver, e a assistente dele, Kate. Diz que tentou perceber ou invocar o mesmo espírito de paz e amor que tinha habitado aquele quarto há tantos anos.

Nessa visita, Oliver visitou o laboratório de Daniel. Lá, conheceu graduandos e pós-graduandos, seus projetos de estudo, deu atenção a todos. Ficou curioso a respeito dos trabalhos, fez muitas perguntas, ouviu atentamente e, depois, deu alguma sugestão perspicaz de como poderiam avançar nas pesquisas.

Daniel, quando se recorda, afirma que naquela breve convivência aprendeu muito sobre o poder e a alegria que vêm da curiosidade. Os dois compartilharam rascunhos de estudos, comeram sushi, passearam em em Greenwich Village e tocaram piano. Oliver era apaixonado por Mozart.

Fizeram críticas a Sigmund Freud, mas também valorizaram suas lições, como a de que, depois de comida, abrigo e companheirismo, os seres humanos precisam ter um trabalho significativo.

Oliver encontrou grande significado em seu trabalho e, por meio dele, transformou relatos de pacientes em literatura: ele criou o gênero “estudo de casos médicos sob a ótica literária”, abrindo caminho para a publicação de muitos livros sobre o cérebro que todo leigo podia ler. Suas próprias obras, no entanto, são inigualáveis. Conseguem reunir o cômico e o trágico, demonstram que ciência e compaixão podem alimentar-se mutuamente.

P.S. Em comemoração aos 75 anos de John Lennon, em 9 de outubro, e em memória de Sacks, que há pouco nos deixou.


Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério..
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