pé na alcova

"De pé, na alcova, ardias e fulgias" ( Olavo Bilac)

Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério.

O que os olhos veem, o coração sente

Os dirigentes europeus se renderam à comoção geral quando o mundo repudiou a cena do pequeno Aylan morto, dispondo-se oficialmente a receber os refugiados. Não por muito tempo: alguns países já fecharam as fronteiras. Quantas crianças precisarão morrer diante das câmeras para que a resolução dessa crise se torne prioridade humanitária e política?


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Petra Laszlo, cinegrafista húngara, deve ter-se horrorizado com o bando de refugiados cruzando a fronteira do seu país como selvagens, desobedientes às ordens dos guardas que exigiam meia-volta. Esqueceu-se por um instante de que estava a serviço, filmando e sendo filmada, e decidiu "ajudar": ágil, esticou a perna diante de um velho e uma criança, que caíram. Isso depois de ter chutado uma menina.

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Um repórter alemão gravou as cenas e colocou no ar, os protestos não demoraram e a jornalista foi demitida, do contrário, ainda estaria na fronteira agredindo covardemente velhos e crianças. O mais lamentável nessa história é que essa jovem cinegrafista não está sozinha na xenofobia, conta com aliados de peso.

Donald Trump, o magnata candidato à presidência dos EUA – que já tem mais de 40% de intenção de votos da população branca, quer expulsar os imigrantes, já anunciou sob aplausos. A declaração fez escola: uma jornalista mexicana de 30 anos, que mora há 29 nos EUA, narrou em recente artigo no The New York Times que passou a ser discriminada no próprio bairro por vizinhos que agora lhe perguntam, acintosamente: “de onde você vem?”.

A campanha de Trump acirra os sentimentos nacionalistas de “nós e os outros”. Questionado sobre os sírios, declarou em entrevista à Fox News: “Detesto a ideia (de abrir a porta aos refugiados), mas é uma crise humanitária, temos o dever”. Outra alternativa proposta por Trump ao êxodo sírio, estampada em edição recente do Expresso, é esperar para agir: “Por que não os deixamos lutar e depois eliminamos o que sobrar?”.

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A chanceler alemã, Angela Merkel, disse “sim” aos refugiados, mas impôs condições, o que de certa forma restringiu o espectro da ajuda oferecida e desagradou outros dirigentes europeus, como o novo presidente da Polônia, Andrzej Duda, que não quer o trânsito de imigrantes da África e Ásia por seu país.

Robert Fico, primeiro-ministro da Eslováquia, disse que aceitará apenas refugiados cristãos, porque seria “falsa solidariedade” acolher muçulmanos em um país que não tem sequer uma mesquita.

Já o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, ignorou Merkel. O húngaro considera a entrada de imigrantes ilegais no seu território como “rebelião” e diz que vai aumentar a repressão com a construção de um muro com quatro metros de altura em substituição à cerca de arame farpado, frágil, para conter o desespero dos refugiados.

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Por conta desse cenário, ou porque a chegada de imigrantes superou a expectativa em apenas um dia, o “welcome” de Angela Merkel foi retirado às pressas.

O ministro dos Transportes alemão, Alexander Dobrindt, admitiu publicamente o "fracasso completo" da União Europeia (UE) no controle das fronteiras externas diante do afluxo de migrantes e pediu medidas "eficazes". Já tomadas: o ministro alemão do interior, Thomas de Maizière, anunciou neste domingo (13) que haverá reforço no controle das fronteiras: “Os refugiados não podem escolher o país em que desejam viver”, salientou. Segundo Maizière, os "limites de capacidade" de acolhimento da Alemanha "foram alcançados" e "este sinal deve ser entendido de forma inequívoca" por outros países europeus.

Curioso, porque justamente a Alemanha e o Império Austro-Húngaro, além da Itália, Irlanda e Suécia, despejaram milhões de camponeses esfomeados para fora de suas fronteiras no século 19, o que permitiu um reequilíbrio demográfico e a recuperação econômica no século seguinte, no qual o êxodo continuou. Entre 1800 e 1914, cerca de 50 milhões de indivíduos deixaram a Europa, o que dá a média de 440 mil por ano.

Para 2015, o Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) calcula em 200 mil o total de pessoas que entrará na Europa; 250 mil é a previsão para 2016. O número é pequeno diante dos 60 milhões de refugiados contabilizados em 2014 e que foram recebidos, majoritariamente, em países com baixo desempenho econômico, como Turquia, Paquistão, Líbano, Irã, Jordânia e Etiópia. Agora uma parte significativa dos que fogem se dirige à Europa.

"Este fluxo de refugiados tem indignado a ala direita," declarou Kenneth Roth , diretor executivo da Human Rights Watch. "Por que esse grupo está tão contrariado? Não se trata de falta de empregos ou incapacidade de gerenciar o bem-estar dos refugiados de guerra. O que realmente incomoda é o fato de eles serem muçulmanos."

O luxemburguês Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, fez acusação parecida em recente discurso na sede do Parlamento Europeu, em Estrasburgo, exigindo que os países não discriminem os asilados por sua religião: “Estabelecemos distinções entre judeus e muçulmanos? Este continente já cometeu este erro antes”.

Para Juncker, a omissão europeia na ajuda aos refugiados pode ser explicada com uma frase simples: “Falta Europa nesta União, e falta união nesta Europa”.

Talvez a “união” europeia possa se organizar com ajuda da opinião pública se mais imagens como a de Aylan e de Petra bombardearem os olhos e sensibilizarem corações nas manchetes de jornal. Foi assim que a guerra do Vietnã (1959-1975) mobilizou milhões de norte-americanos a saírem em protesto nas ruas e finalmente chegou ao fim depois de quase vinte anos de duração.


Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério..
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