pé na alcova

"De pé, na alcova, ardias e fulgias" ( Olavo Bilac)

Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério.

Te amo é no guichê ao lado

Declaração de amor no calor da cama pode ser sintoma de solidão. Melhor fingir que não escutou porque logo chegam cobranças ou decepções, e sexo sem eu te amo é altamente recomendável a relacionamentos com desejo de futuro.


Foto Polichronis Stivaktakis.jpg

Há dez dias, transamos. Disse que me amava gotejando suor no peito, cabeça colada ao meu seio. Achei que mentiu. Por que mentiria é a questão, já que tudo o que poderia ter de mim estava tendo. Em paz com a vida optei pelo silêncio como resposta, acompanhado por um beijo caloroso de despedida.

Ele viajou, eu segui no escolhido descompromisso, o que não desencorajou a troca de torpedos e nova declaração dele: “só falta você ao meu lado”.

Voltou e voltamos à cama. Na saída, uma mensagem no celular delatou outra amada. Que pena, me senti obrigada a sair de cena já que a deslealdade dele era maior do que o meu desejo.

Sendo absolutamente sincera, até saí com outro nesses meses em que nos encontrávamos, mas saí porque não estabelecemos nenhum vínculo de fidelidade a não ser sexual. Por princípio, inclusive, desgosto dessa palavra; fiel me lembra relação entre o cão e seu dono, ou sua dona.

Pausa para contar do outro com o qual saí: ele tem uma namorada há mais de dois anos, nós não transamos, apenas gostamos de falar que nos gostamos. De fato nos gostamos, como amigos que se acham atraentes em todos os sentidos. Mas a namorada dele é um limite claro para o meu sentimento: não disputo território, não invado seara alheia a não ser que um amor desmesurado caia do céu, o que fica difícil já que a outra existe desde o início.

Tomamos um café com licor em uma tarde doce como a bebida. Conversa boa de sempre, friozinho na barriga porque ele me instiga, despedida ao sol com beijos no rosto. Desci a rua e encontrei o tal do “eu te amo na cama”, e seguiu-se cama, mensagem no celular, fim de caso.

A novidade é que o amigo que tem namorada, ao saber do fim do meu namoro, revelou-se um ciumento. Não lhe devo satisfação, sabe disso, culpa-se pelo ciúme descabido, mas assume. O que, entre nós, lhe dá mais pontos na minha contabilidade amorosa, infelizmente, nossa história nunca fez parte do meu futuro.

Estou solteira, quero ter uma vida sexual ativa e cuidadosa, não quero me envolver em traição e ciúme como se relacionamento no “modo básico” já não fosse complicado o bastante. Esses fatos recentes me levaram a concluir que o equívoco do eu te amo na cama está na busca da paixão e no distanciamento da compaixão, duas palavras que têm origem no mesmo verbo latino, sofrer.

Sofrer é transformador, ensina, principalmente no caso da compaixão, que significa sofrer com o outro, sentir empatia. Mas buscar o sofrimento, como Cristo na cruz (na sua conhecida “paixão”), só mesmo em casos heroicos, nos quais se cumpre uma missão de vida.

No entanto, por falta de uma coisa qualquer que nos preencha internamente, buscamos o que achamos que é “paixão” e que, inadvertidamente, chamamos de amor. É o que nos leva a dizer eu te amo na cama sob o efeito do orgasmo. Depois que o orgasmo acaba, queremos que volte logo, e aí é que a compaixão pelo outro acaba de vez: declaramos “eu te amo” por conta da necessidade egoísta de reter um prazer.

Carlos Drummond de Andrade disse que “amor é privilégio de maduros”. O verso famoso faz referência explícita à idade do poeta quando encontrou o amor da vida -- mais de 50 anos --, mas também faz referência implícita à profundidade que o sentimento exige. Não é brincadeira infantil, não é exercício de posse, não é antídoto contra solidão, ao contrário.

Outro poeta, um surrealista francês, Robert Desnos, é autor de um poema que parece história de faz de conta, mas é a verdadeira história de amor de um casal. Começa com o clássico “era uma vez” em versão plural, mais ou menos assim:

“Houve muitas vezes em que um homem amou uma mulher; muitas outras vezes em que uma mulher amou um homem; outras ainda em que um homem e uma mulher não se amaram. Mas houve uma vez, talvez uma única vez, em que um homem amou uma mulher que o amava.”

Desnos nasceu em Paris na virada do século -- exatamente no ano de 1900 – e morreu em 1945 em um campo de concentração nazista, Terezin, na antiga Tchecoslováquia. Morreu amando Youki, sua mulher; morreu planejando a volta, a comemoração do aniversário dela e a publicação de seu novo livro; morreu escrevendo cartas de amor.

Uma delas, aqui transcrita, demonstra por que dizer "eu te amo" é dispensável quando se ama: pode ser falta de criatividade e, principalmente, pode ser uma mentira com a qual tentamos enganar nós mesmos.

“Meu amor,

Nosso sofrimento poderia ser suportável se eu não estivesse vivendo essa distância como uma doença irrecuperável. Nossa união certamente tornaria nossas vidas felizes por pelo menos uns 30 anos. Pela minha parte, eu estou tomando um gole profundo da juventude, vou voltar cheio de amor e força.

Quando fiz aniversário, me presenteei com uma longa meditação sobre você. Será que agora, esta minha carta vai chegar a tempo para o seu aniversário? Eu gostaria de lhe dar cem mil cigarros americanos, uma dúzia de vestidos de alta costura, um apartamento em frente ao Sena, um automóvel, uma pequena casa na floresta de Compiègne e um pequeno buquê de quatro centavos. Na minha ausência, você pode ir em frente e comprar as flores. Reembolsarei você. Prometo o resto para mais tarde.

Mas, antes de tudo, tome uma garrafa do melhor vinho e pense em mim. Eu espero que nossos amigos não deixem você sozinha neste dia. Eu agradeço a eles a devoção e coragem. Eu recebi uma carta de Jean-Louis Barrault há cerca de uma semana. Beije-o na nuca por mim. Beije também Madeleine Renaud, que me enviou correspondência comprovando que vocês estão recebendo minhas notícias daqui. Nunca recebi retorno seu, mas aguardo por ele todos os dias.

Beije toda família por mim, Lucienne, Juliette, Georges. Se encontrar o irmão de Passuer, transmita-lhe minhas saudações e pergunte se ele conhece alguém que pode lhe ajudar na minha ausência.

Quais as novidades em relação à publicação dos meus livros? Eu tenho muitas novas ideias para poemas e romances. Não consegui levá-las ao papel por falta de liberdade e de tempo.

Apesar disso, você pode avisar à Gallimard que em três meses, assim que eu retornar a Paris, eles receberão meu manuscrito com uma história de amor em estilo totalmente diferente.

Estou finalizando hoje, 15 de julho, data em que recebi cartas de Julia, Dr. Benet e Daniel. Agradeça a todos e explique que minhas respostas podem demorar porque eu só posso escrever uma carta por mês, segundo as regras do campo.

Meu amor, beijo você suavemente e com todo o respeito que uma carta, a ser submetida à leitura de censores, exige. Mil beijos. (Ah, você recebeu minha pequena esperança que enviei do fundo do peito para um hotel em Compiègne?)

Robert”

Foto: Polichronis Stivaktakis


Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério..
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