pé na alcova

"De pé, na alcova, ardias e fulgias" ( Olavo Bilac)

Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério.

A fúria absurda de perder tempo e a ansiedade

Ou "Cafés e o segredo dos amores eternos". Deixar o outro esperando pode ser sinal de comprometimento sério, e não o contrário, como alardeiam as filosofias de rua e o nosso coração tantas vezes carente.


Café A Brazileira.jpg

Ando sobrevivendo principalmente (leituras de cabeceira) de Dostoiévski (Diário de um escritor-1873) e de Mário de Sá-Carneiro (Correspondência com Fernando Pessoa, edição de Teresa Sobral Cunha). Uma obra é novíssima no Brasil (Dostoiévski, de janeiro de 2016), outra esgotada (Sá-Carneiro, edição portuguesa). Acabo de adquirir ambas (uns dois meses).

Não estou deprimida, estou perplexa, desiludida. Desacorçoada, como dizem os interioranos de São Paulo. Por isso retomo tanto a leitura dos dois livros, eles retratam com nítidas tintas a "perplexidade" diante da vida, além de tudo o que revelam.

Fernando Pessoa e Mário de SáCarneiro.jpg

Mas o que estou estudando e trazendo para esse texto, nesse momento, é a Amizade, com "A" maiúsculo, como a que uniu Pessoa e Sá-Carneiro.

Os dois têm temperamentos diferentes: Pessoa sempre está "atrasado" na correspondência, não por indiferença. Justifica-se na sua única carta publicada na coletânea de cartas do Sá-Carneiro. Pede desculpa, eis um trecho dela:

"...Tenho desleixado tudo, fazendo só aquele trabalho que é absolutamente impossível não fazer. Tenho atrasado o meu trabalho de traduções. Há mais de um mês que tenho que traduzir um livro de 100 páginas pequenas, que, normalmente, eu traduziria em 5 dias. E ainda não tenho traduzidas senão 30 páginas! Vão sempre tarde as minhas cartas para a minha família. Para você, você já sabe o que tem sido.

E assim com tudo, numa fúria absurda de perder tempo, de navegar pela costa do inútil, e outras metáforas análogas -- que todas são poucas para o que hoje vivo. Isto serve para justificar a minha demora em escrever-lhe.(...) Peço-lhe, meu querido, milhares de desculpas. Mas isto não podia ter sido senão assim."

(Fernando Pessoa)

Sá-Carneiro provavelmente não leu a desculpa porque não teria recebido essa carta a tempo (ela data de 26 de abril de 1916, Lisboa; Sá-Carneiro suicidou-se em Paris, a 29 de abril de 1916).

Na correspondência imensa, intensa, amorosa de Sá-Carneiro -- no livro --, fica claro que Pessoa não costuma comparecer a encontros em cafés (Sá-Carneiro marca horário e local várias vezes, avisa até que horas esperará, etc) e que Sá-Caneiro escreve compulsivamente. Brilhante e compulsivamente.

Ora cobra:

"Francamente é inadmissível, meu querido Amigo, o seu procedimento. Não há razão nenhuma que o explique: física ou química, moral, social ou febril ou fabril. Não, mil vezes não! (...) Há 15 dias feitos que não recebo uma linha sua. Quem sabe até quando isto se prolongará!" (Sá-Carneiro, Paris, 26 de janeiro de 1916)

Ora, desculpa-se:

"Meu querido Fernando Pessoa, cá estou de novo a maçá-lo. Mas você tem que ter pena de mim. Escrevo uma coisa, e logo tenho ânsia de saber o que o meu querido amigo pensa dela. É um entusiasmo, uma ansiedade...Tenha paciência. Nós estamos no mundo para termos paciência e para nos aturarmos uns aos outros." (Sá-Carneiro, Paris, 3 de maio de 2013)

Pessoa faz coisas por Sá-Carneiro que sequer um pai ou mãe faria pelo filho - leva originais e cobra sistematicamente editoras, busca joia na casa da família, para penhorar, segundo instruções de Mário. Mas repetidamente falta ao encontro no café.

Sá-Carneiro passa a curta vida de café em café, em Paris ou Lisboa, escrevendo, pensando, vivendo sua tristeza sem tamanho; é o local em que se sente vivo, ouso crer.

Já Pessoa, quando se entrega à tristeza (do mesmo tipo congênita de Sá-Carneiro, própria de gênios) refugia-se no silêncio de quatro paredes. E escreve, desdobra-se em heterônimos, alguns são bem conhecidos de Sá-Carneiro, como Álvaro de Campos.

Nada abalou essa amizade transcendente (o que é perceptível na correspondência e na obra de Sá-Carneiro, praticamente publicada por Pessoa, que sempre a recebeu em primeira mão para opinar).

Diante da morte do melhor amigo, Fernando Pessoa prefere calar-se; diz: "As palavras pertencem à Vida; ante a morte não têm razão de ser. Devem ser feitos de silêncio os corredores por onde a Morte passe." (Fernando Pessoa, na morte de Sá-Carneiro)

Pois então, de novo arriscando palpite de leiga, Fernando Pessoa vivia nas palavras e morria no silêncio. Não fazia questão de pessoas ao lado. Sá-Carneiro morria no silêncio do quarto e precisava das palavras-burburinho, fossem no papel ou nos cafés. Foi o único desencontro, ou talvez o grande elo de admiração. Sofriam igual e muito, pela humanidade inteira, mas diferente.

Sá-Carneiro até se fez acompanhar, por um recém-conhecido, durante o ato de suicídio, mas essa é outra história.

Seja como for, Pessoa e Sá-Carneiro amaram-se na plenitude das amizades imensas e eternas, aliás, sempre se despediam, em cada carta, assinando e acrescentando "sempre seu", "saudades", "desculpe-me", "obrigado muitíssimo". Gentilezas sinceras constroem viadutos, pontes sobre qualquer tipo de muro e desavença.

Dediquei-me a esse texto porque demoro a escrever e não compareço ao café, como Pessoa, mas, também como ele, fico sem palavras quando o sentir toma o meu coração. O sentir pleno, seja de morte ou de vida. Daí a necessidade de emprestar palavras de poeta para explicar o que não entendo.

Como agora. Simplesmente não entendo o que está acontecendo à minha volta, não decodifico certas reações. Parece que não faço parte do mundo que vejo.

Adoraria ser amiga como o Sá-Carneiro, que escrevesse "te espero sempre" e como Pessoa, que sempre surpreendeu positivamente ainda que tardasse. Desde já marcaria o nosso encontro, com as palavras do Sá-Carneiro:

"Meu querido amigo

Portanto como hoje você não apareceu -- na segunda-feira espero-o no mesmo local. Por outra, espere-me você até às 6 horas, se até aí eu não aparecer você pode-se ir embora. Mas espere-me até às 6 horas.

O seu Mário de Sá-Carneiro" (Lisboa, 12 de setembro de 1914)

Lisboa-bairro-a-bairro-Chiado-Cafe-a-Brasileira.jpg

A ironia é que o Café "A Brasileira", em Lisboa, frequentado pelos dois escritores, imortalizou Fernando Pessoa em uma cadeira. Eternamente esperando algo ou alguém que se sente na cadeira ao lado, justamente ele que nunca foi estátua, mas feixe de sentimentos avassaladores, ele que nunca foi único, mas uma multidão. Justo ele que se fazia esperar e faltou a tantos compromissos, como o famoso encontro que marcou -- e ao qual não compareceu -- com Cecília Meireles. Que o esperou sabe-se lá quanto tempo no Café "A Brazileira", no Chiado, em Lisboa, em uma noite chuvosa.

No dia seguinte, 10 de novembro de 1934, Pessoa enviou para o hotel onde estavam Cecília e o marido, Fernando, um livro seu recém-publicado, "Mensagem". Na página de rosto, fez uma dedicatória:

“A Cecília Meireles, alto poeta, e a Correia Dias, artista, velho amigo e até cúmplice na invocação da Apolo e Atena, Fernando Pessoa”.

Assim é Pessoa, ausente fisicamente nos "cafés" de muita conversa, mas sempre presente com a mensagem que consola em todos os tempos. Cecília provavelmente, outra especulação minha, sentiu-se reconhecida como "Poeta" pelo Poeta. Alguns dos seus mais lindos versos foram escritos depois daquela data.


Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/artes e ideias// @obvious, @obvioushp //Christiane Brito
Site Meter